Mundo de ficçãoIniciar sessãoRosário
— Como eu vou fazer agora, Marcinha? — perguntei, sentindo as lágrimas de puro nervosismo queimarem o fundo dos meus olhos. O pânico subia pela minha garganta. — Você ouviu o tom de voz dele? Ele me ameaçou na cara dura! Ele acha que o que aconteceu com a Rossandra e com o meu pai é só "passado", uma desculpa boba para eu dar um fora nele! — Ele é o herdeiro do morro, amiga. Eles acham que são donos de tudo, até das pessoas — Marcinha disse, olhando preocupada em direção à rua pela janela de vidro. — Todo mundo abaixa a cabeça para o Augusto, ele não está acostumado a ser rejeitado. — O sangue sumiu da minha cabeça na hora! — passei as mãos pelo rosto, tentando afastar o fantasma do medo. — O que importa é que a dona Roberta trabalha duro como empregada doméstica, a Rosa se mata de trabalhar naquela loja, e eu estou aqui tentando ter um futuro limpo. Se a minha mãe sonhar que esse rapaz veio aqui me encurralar, ela infarta. Ou pior, ela vai tentar me proteger e o pessoal do morro faz alguma maldade com ela! — Calma, respira — Marcinha segurou minhas duas mãos, tentando me acalmar. — Ele disse "da próxima vez". Isso significa que hoje você está segura. Mas você não vai poder ficar bobeando sozinha nessa biblioteca no fim do expediente. — Eu não posso deixar esse emprego, Marcinha. É o meu meio período, é o que me ajuda a respirar e a juntar meu dinheiro... — Olhei para os livros nas estantes, que de repente pareceram não ter páginas suficientes para me esconder do mundo real. — Mas eu não vou ceder. Eu disse não, e vai continuar sendo não. Eu só preciso... preciso dar um jeito de não cruzar com ele. De sumir da vista dele. — E como você faz isso na nossa comuna, onde todo mundo se conhece e os caras dele estão em cada esquina? — o questionamento de Marcinha caiu como uma bigorna no meu peito. Ela tinha razão. O morro tinha olhos. E, infelizmente, todos esses olhos pareciam estar voltados para mim agora. Ficou perfeito assim com o nome corrigido! — Vamos para casa, eu te acompanho — Marcinha insistiu, pegando a bolsa dela atrás do balcão. — Você não tem condições de ficar aqui nem mais um minuto. Olhei para as minhas mãos, que ainda tremiam discretamente. Ela tinha toda razão. A biblioteca, que sempre foi o meu refúgio, agora parecia sufocante. — Vamos... Eu realmente não consigo mais ficar — respondi, engolindo em seco. Tranquei as portas da biblioteca com as chaves que pareciam pesar uma tonelada, e fomos. Caminhamos pelas ladeiras da comuna em silêncio, com a Marcinha atenta a cada moto ou passo que vinha atrás de nós. Quando finalmente dobrei a esquina da nossa casa, senti um pequeno alívio, embora o bolo no meu estômago continuasse ali. Nos despedimos com um olhar cúmplice e eu entrei. Chegando em casa, minha mãe já estava lá. — Oi, mãe, cheguei — falei, tentando manter a voz o mais normal possível. — Chegou mais cedo, filha — ela estranhou, erguendo os olhos do que estava fazendo. — Você está bem? — Estou sim — respondi rápido, já dando passos em direção ao corredor para passar logo por ela, rezando para que ela não percebesse o quão nervosa eu estava. — Filha, vem cá. Senta aqui. O tom de voz dela não dava espaço para discussões. Dei meia-volta e fui até a cozinha. Me sentei à mesa e, em silêncio, ela colocou um copo de suco para mim e uma fatia daquele bolo que ela faz e que eu amo. O cheiro doce de bolo quentinho costumava me alegrar na hora, mas hoje foi difícil sorrir. — O bolo ficou lindo hoje, mamãe — comentei, cutucando a massa com o garfo. — Filha... — ela começou, apoiando as mãos na mesa e me olhando bem no fundo dos olhos. — Me disseram que o Augustinho andou rondando a biblioteca de novo. É verdade? Meu coração perdeu o ritmo por um segundo. As fofocas na comuna corriam mais rápido que a luz. — Sim, mamãe... Ele foi lá — admiti, abaixando a cabeça. — Filha, eu não quero você perto desse rapaz! Já basta o que aconteceu com a sua irmã, a Rossandra... A voz dela sumiu no final da frase. Minha mãe abaixou a cabeça, e ver aquela postura me cortou o coração. Dona Roberta guardava essa tristeza e essa culpa no peito há mais de dez anos, envelhecendo um pouco mais a cada dia em que pensava no mistério do sumiço da Rossandra e na morte do meu pai. Me levantei da cadeira em um pulo e a abracei por trás, apertando meus braços ao redor dos ombros dela. — Eu sei, mamãe. Eu juro que não sou eu que estou indo atrás dele! Ele é quem vai lá. Eu já pedi para ele parar de ir, já dei o fora, mas ele não entende, não aceita... Minha mãe segurou as minhas mãos que estavam presas no abraço dela e soltou um suspiro doloroso, olhando para o nada. — Filha... Eu só queria ter condições de tirar vocês duas dessa cidade. Apertei o abraço na minha mãe por mais alguns segundos, tentando transferir toda a força que eu não tinha para ela, antes de me despedir com um beijo na sua bochecha e caminhar em direção ao quarto. Precisava ficar sozinha. Precisava desabar sem que os olhos atentos da dona Roberta pesassem sobre mim. Ouvi o barulho da porta da frente se abrindo e, pouco depois, passos leves no corredor. A porta do quarto se abriu devagar, revelando a silhueta doce da Rosa. Ela tinha acabado de chegar do trabalho na loja, mas, ao contrário de mim, que trazia o caos no olhar, a Rosa transmitia uma paz quase angelical. Ela era a mais velha, a minha calmaria, o meu porto seguro. — Rosário? — a voz dela soou suave, como uma carícia. Ela fechou a porta atrás de si e se aproximou da cama, sentando-se na borda. — A mamãe me contou que você chegou mais cedo... e me falou sobre o Augustinho. O que aconteceu, mi hermana? Eu me impulsei para cima na cama, sentando-me de pernas cruzadas. O furacão dentro de mim, que estava contido, começou a se agitar de novo, misturando raiva com desespero. — Rosa, ele foi até a biblioteca! — desabafei, gesticulando com as mãos, a voz saindo num sussurro tenso para a mamãe não ouvir na cozinha. — Ele me encurralou contra o balcão. Eu dei o fora nele de novo, disse que não queria e que ele conhecia o passado da nossa família. E sabe o que ele fez? Ele cresceu para cima de mim! Disse que a paciência dele acabou, que não é o homem que levou a Rossandra e que não aceita "não" como resposta! Rosa me ouvia em silêncio, com aqueles olhos calorosos e cheios de empatia. Ela esticou a mão e segurou os meus dedos trêmulos, acariciando-os devagar para tentar baixar o meu ritmo. — Ele te ameaçou, Rosário? — Rosa perguntou, com a voz falhando de preocupação. — Sim! — disparei, sentindo as lágrimas finalmente rolarem pelo meu rosto, quentes e rápidas. — Eu estou com tanta raiva, mas com tanto medo! Se eu pudesse, quebrava a cara dele, mas sei bem quem ele é e o que ele pode fazer! — Oh, minha boneca, vem cá... — Rosa se inclinou na minha direção e me puxou para um abraço apertado. O jeito meigo dela era a única coisa capaz de acalmar o meu gênio forte. — Respira. Eu estou aqui com você. Nós duas vamos dar um jeito nisso.






