Mundo de ficçãoIniciar sessãoRosário
O cheiro de papel antigo era o meu calmante favorito. Ali, no meu mundinho de meio período na biblioteca pública de Medellín, eu podia esquecer por algumas horas que o mundo lá fora, nas ladeiras da nossa comuna, era barulhento e perigoso. Eu tinha 18 anos, mas se você me visse com o nariz enfiado em Orgulho e Preconceito ou suspirando pelas tragédias de O Morro dos Ventos Uivantes, acharia que eu pertencia ao século dezenove. Para mim, os livros eram um refúgio. Uma fuga de uma realidade que tinha sido cruel com a minha família desde que eu era apenas uma criança. — Hola, mi amiga! A leitora mais romântica de Medellín está disponível? — Uma voz sussurrou perto do balcão. Ergui os olhos e sorri na hora. Era a Marcinha. Minha melhor amiga no mundo segurava duas sacolas com o logo da sereia verde. — Marcinha! Você não existe — brinquei, me levantando para abraçá-la. — O que é isso? — Café do Starbucks, menina! E claro, com o nosso orgulho nacional: grãos puros da Colômbia. Sei que a sua rotina tá puxada, você merecia um mimo. Meus olhos quase brilharam. Eu era completamente viciada em café. Quente, gelado, com espuma, com caramelo... Se tivesse cafeína, eu estava aceitando. Peguei o copo, sentindo o aroma maravilhoso, e dei o primeiro gole. Como boa colombiana, aquilo era meu combustível. — Menina, você me salvou. E por falar em café... — dei uma piscadinha, animada. — Nem te conto! Falei com a mamãe ontem sobre as contas de casa. Esse mês, como a Rosa também conseguiu ajudar bastante com o salário dela da loja e o dinheiro da mamãe como empregada doméstica no consultório do médico deu uma respirada, a mamãe me deu uma trégua. — Mentira! — Marcinha se apoiou no balcão, curiosa. — A dona Roberta deixou você ficar com a sua metade do salário em vez de entregar tudo pras despesas da casa? — Deixou! Quer dizer, só por esse mês. E adivinha? Já vou direto comprar a minha cafeteira de expresso. Aquela bem moderna que faz até os drinks gelados que eu fico inventando. Menina, eu vou virar uma barista profissional dentro da nossa casa! Marcinha riu, mas logo o riso dela se apagou, dando lugar a uma expressão séria. Ela olhou de relance para a rua, observando o movimento lá fora antes de voltar a falar bem baixo: — Fico tão feliz por você, amiga. De verdade. Vocês três merecem um pouco de paz... Depois de tudo o que aconteceu. Mas... falando em perigo e em coisas que assombram a gente... você viu quem estava na esquina da praça hoje cedo? Meu estômago deu um nó violento. Minhas mãos, que antes seguravam o copo de café com alegria, começaram a esfriar. — O filho do... do homem que comanda o tráfico aqui? — perguntei, tentando manter a voz firme. — Ele mesmo. O próprio herdeiro do morro. Amiga, ele é lindo, não dá para negar. Tem aquele jeito marrento, mas quando olha para você, parece que o mundo para. O pai dele manda em tudo por aqui, e ele tá seguindo os mesmos passos. E o pior: ele tá caidinho por você. A menção àquela vida de crime me fez engolir em seco. Quando a Rosa e eu éramos apenas crianças, os homens do tráfico levaram a nossa irmã mais velha, a Rossandra, como pagamento de uma dívida que não era nossa. Nosso pai, desesperado, foi tentar resgatá-la, mas eles o mataram sem piedade. Rossandra sumiu no mundo, e nunca mais ninguém teve notícias dela. Sobramos apenas a mamãe, a Rosa e eu, carregando esse fantasma todos os dias. — Eu sei, Marcinha. E é exatamente por isso que eu quero distância — respondi, com a voz firme e cheia de determinação. — A mamãe já me avisou mil vezes. Ela carrega essa dor da morte do meu pai e do sumiço da Rossandra até hoje. Se ela me ver perto dele, ela mesma me mata antes de qualquer um. Homem envolvido com o crime não entra na nossa vida de jeito nenhum. Eu já botei isso na minha cabeça. Ele pode ser o cara mais poderoso e lindo do bairro, e estar o quanto for a fim de mim, mas já sabe que comigo não tem chance. Eu não quero namorar com ele, já disse não e vou continuar dizendo. Marcinha me olhou com uma mistura de pena e preocupação, sabendo que os caras do morro não costumavam aceitar um "não" facilmente. — Você fala isso agora, amiga... Mas o jeito que ele te olha? Duvido que ele vá desistir. Ele pode ter quem quiser na comuna, mas parece que o único foco dele é você. Antes que eu pudesse responder, o sininho da porta da biblioteca tocou. O vento da tarde entrou, e com ele, uma silhueta alta, imponente e muito conhecida cobriu a luz do sol. Meu coração deu um salto tão forte que chegou a doer. Era o Augustinho do morro. Entrando na biblioteca silenciosa, com aqueles olhos intensos fixos diretamente em mim. — Hola — disse ele, com a voz grave que causava arrepios, mesmo que eu tentasse ignorar. Ele não pediu licença, apenas se apoiou no balcão, observando o meu café. — Soube que você gosta de coisas intensas, mas esse café aí parece fraquinho para alguém tão decidida. Marcinha deu um passo para trás, sentindo a tensão, e preferiu fingir que estava ocupada organizando um livro na prateleira ao lado. — O que você quer, Augusto? — perguntei, tentando manter o tom profissional, embora minhas mãos estivessem tremendo. — Quero te levar para tomar um sorvete, aqui perto. Tem uma sorveteria nova, o ambiente é bom. Agora. Passei a mão pelo balcão, sentindo a dureza da madeira. O fantasma da minha irmã Rossandra e a lembrança do olhar da minha mãe, Dona Roberta, vieram como um soco. — Eu não posso, Augusto. De verdade. Minha mãe... você conhece a história da minha família. Ela não deixa e, sinceramente, eu nem quero. Não é o meu mundo. O sorriso dele desapareceu na hora. O brilho intenso em seus olhos se transformou em algo muito mais sombrio, quase perigoso. Ele se inclinou para frente, diminuindo a distância entre nós, e baixou o tom de voz para um sussurro que soou como um aviso. — Escuta aqui, garota. Eu tenho sido paciente. Tenho aparecido aqui, conversado, respeitado seu tempo. Mas a minha paciência tem limite, e está acabando rápido. Acha mesmo que o passado da sua família é motivo para me tratar como se eu fosse um estranho qualquer? Eu não sou o seu pai, e não sou o homem que levou a sua irmã. Eu sou quem está aqui agora, na sua frente, querendo te tirar dessa vida de livros esquecidos. Ele fez uma pausa, os olhos fixos nos meus, sem desviar um milímetro. — Eu não gosto de ouvir "não", e você sabe disso. Da próxima vez que eu te chamar, não quero desculpas sobre a sua mãe ou sobre o seu passado. Quero que você esteja pronta. Ele virou as costas e saiu da biblioteca com a mesma arrogância com que entrou, deixando o ar pesado e o meu coração batendo tão forte que parecia que ia saltar pela garganta. — Amiga... — Marcinha se aproximou, pálida. — Acho que agora a situação ficou complicada de verdade. Respirei fundo, sentindo o resto do meu café ficar frio. Ele não era apenas um rapaz afim de mim; ele era um perigo que eu, finalmente, não sabia como evitar.






