Capítulo 6

Rosário

​O cheiro de papel antigo era o meu calmante favorito. Ali, no meu mundinho de meio período na biblioteca pública de Medellín, eu podia esquecer por algumas horas que o mundo lá fora, nas ladeiras da nossa comuna, era barulhento e perigoso. Eu tinha 18 anos, mas se você me visse com o nariz enfiado em Orgulho e Preconceito ou suspirando pelas tragédias de O Morro dos Ventos Uivantes, acharia que eu pertencia ao século dezenove.

​Para mim, os livros eram um refúgio. Uma fuga de uma realidade que tinha sido cruel com a minha família desde que eu era apenas uma criança.

​— Hola, mi amiga! A leitora mais romântica de Medellín está disponível? — Uma voz sussurrou perto do balcão.

​Ergui os olhos e sorri na hora. Era a Marcinha. Minha melhor amiga no mundo segurava duas sacolas com o logo da sereia verde.

​— Marcinha! Você não existe — brinquei, me levantando para abraçá-la. — O que é isso?

​— Café do Starbucks, menina! E claro, com o nosso orgulho nacional: grãos puros da Colômbia. Sei que a sua rotina tá puxada, você merecia um mimo.

​Meus olhos quase brilharam. Eu era completamente viciada em café. Quente, gelado, com espuma, com caramelo... Se tivesse cafeína, eu estava aceitando. Peguei o copo, sentindo o aroma maravilhoso, e dei o primeiro gole. Como boa colombiana, aquilo era meu combustível.

​— Menina, você me salvou. E por falar em café... — dei uma piscadinha, animada. — Nem te conto! Falei com a mamãe ontem sobre as contas de casa. Esse mês, como a Rosa também conseguiu ajudar bastante com o salário dela da loja e o dinheiro da mamãe como empregada doméstica no consultório do médico deu uma respirada, a mamãe me deu uma trégua.

​— Mentira! — Marcinha se apoiou no balcão, curiosa. — A dona Roberta deixou você ficar com a sua metade do salário em vez de entregar tudo pras despesas da casa?

​— Deixou! Quer dizer, só por esse mês. E adivinha? Já vou direto comprar a minha cafeteira de expresso. Aquela bem moderna que faz até os drinks gelados que eu fico inventando. Menina, eu vou virar uma barista profissional dentro da nossa casa!

​Marcinha riu, mas logo o riso dela se apagou, dando lugar a uma expressão séria. Ela olhou de relance para a rua, observando o movimento lá fora antes de voltar a falar bem baixo:

​— Fico tão feliz por você, amiga. De verdade. Vocês três merecem um pouco de paz... Depois de tudo o que aconteceu. Mas... falando em perigo e em coisas que assombram a gente... você viu quem estava na esquina da praça hoje cedo?

​Meu estômago deu um nó violento. Minhas mãos, que antes seguravam o copo de café com alegria, começaram a esfriar.

​— O filho do... do homem que comanda o tráfico aqui? — perguntei, tentando manter a voz firme.

​— Ele mesmo. O próprio herdeiro do morro. Amiga, ele é lindo, não dá para negar. Tem aquele jeito marrento, mas quando olha para você, parece que o mundo para. O pai dele manda em tudo por aqui, e ele tá seguindo os mesmos passos. E o pior: ele tá caidinho por você.

​A menção àquela vida de crime me fez engolir em seco. Quando a Rosa e eu éramos apenas crianças, os homens do tráfico levaram a nossa irmã mais velha, a Rossandra, como pagamento de uma dívida que não era nossa. Nosso pai, desesperado, foi tentar resgatá-la, mas eles o mataram sem piedade. Rossandra sumiu no mundo, e nunca mais ninguém teve notícias dela. Sobramos apenas a mamãe, a Rosa e eu, carregando esse fantasma todos os dias.

​— Eu sei, Marcinha. E é exatamente por isso que eu quero distância — respondi, com a voz firme e cheia de determinação. — A mamãe já me avisou mil vezes. Ela carrega essa dor da morte do meu pai e do sumiço da Rossandra até hoje. Se ela me ver perto dele, ela mesma me mata antes de qualquer um. Homem envolvido com o crime não entra na nossa vida de jeito nenhum. Eu já botei isso na minha cabeça. Ele pode ser o cara mais poderoso e lindo do bairro, e estar o quanto for a fim de mim, mas já sabe que comigo não tem chance. Eu não quero namorar com ele, já disse não e vou continuar dizendo.

​Marcinha me olhou com uma mistura de pena e preocupação, sabendo que os caras do morro não costumavam aceitar um "não" facilmente.

​— Você fala isso agora, amiga... Mas o jeito que ele te olha? Duvido que ele vá desistir. Ele pode ter quem quiser na comuna, mas parece que o único foco dele é você.

​Antes que eu pudesse responder, o sininho da porta da biblioteca tocou. O vento da tarde entrou, e com ele, uma silhueta alta, imponente e muito conhecida cobriu a luz do sol.

​Meu coração deu um salto tão forte que chegou a doer. Era o Augustinho do morro. Entrando na biblioteca silenciosa, com aqueles olhos intensos fixos diretamente em mim.

​— Hola — disse ele, com a voz grave que causava arrepios, mesmo que eu tentasse ignorar. Ele não pediu licença, apenas se apoiou no balcão, observando o meu café. — Soube que você gosta de coisas intensas, mas esse café aí parece fraquinho para alguém tão decidida.

​Marcinha deu um passo para trás, sentindo a tensão, e preferiu fingir que estava ocupada organizando um livro na prateleira ao lado.

​— O que você quer, Augusto? — perguntei, tentando manter o tom profissional, embora minhas mãos estivessem tremendo.

​— Quero te levar para tomar um sorvete, aqui perto. Tem uma sorveteria nova, o ambiente é bom. Agora.

​Passei a mão pelo balcão, sentindo a dureza da madeira. O fantasma da minha irmã Rossandra e a lembrança do olhar da minha mãe, Dona Roberta, vieram como um soco.

​— Eu não posso, Augusto. De verdade. Minha mãe... você conhece a história da minha família. Ela não deixa e, sinceramente, eu nem quero. Não é o meu mundo.

​O sorriso dele desapareceu na hora. O brilho intenso em seus olhos se transformou em algo muito mais sombrio, quase perigoso. Ele se inclinou para frente, diminuindo a distância entre nós, e baixou o tom de voz para um sussurro que soou como um aviso.

​— Escuta aqui, garota. Eu tenho sido paciente. Tenho aparecido aqui, conversado, respeitado seu tempo. Mas a minha paciência tem limite, e está acabando rápido. Acha mesmo que o passado da sua família é motivo para me tratar como se eu fosse um estranho qualquer? Eu não sou o seu pai, e não sou o homem que levou a sua irmã. Eu sou quem está aqui agora, na sua frente, querendo te tirar dessa vida de livros esquecidos.

​Ele fez uma pausa, os olhos fixos nos meus, sem desviar um milímetro.

​— Eu não gosto de ouvir "não", e você sabe disso. Da próxima vez que eu te chamar, não quero desculpas sobre a sua mãe ou sobre o seu passado. Quero que você esteja pronta.

​Ele virou as costas e saiu da biblioteca com a mesma arrogância com que entrou, deixando o ar pesado e o meu coração batendo tão forte que parecia que ia saltar pela garganta.

​— Amiga... — Marcinha se aproximou, pálida. — Acho que agora a situação ficou complicada de verdade.

​Respirei fundo, sentindo o resto do meu café ficar frio. Ele não era apenas um rapaz afim de mim; ele era um perigo que eu, finalmente, não sabia como evitar.

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