Capítulo 8

Rosário

Ficamos ali, abraçadas no silêncio do quarto, até que o peso no meu peito diminuiu um pouco. Rosa se levantou com aquele sorriso doce para ir tomar banho, e eu fui direto para a cozinha fazer o jantar.

​Depois que comemos, a Rosa deu um pulo da cadeira, animada.

​— Tive uma ideia! Vamos fazer uma sessão de cinema na sala hoje? Faz tanto tempo que a gente não senta junto para ver um filme.

​— Ah, Rosa, o dinheiro está curto até para o aluguel, quem dirá... — mamãe começou, já suspirando.

​— Mas mamãe, é cinema em casa! — brinquei, puxando a dona Roberta pelo braço. — A senhora não gasta um tostão. Eu faço uma bacia de pipoca gigante e a gente usa o cobertor mais quentinho. Vamos, por favor?

​— Está bem, suas teimosas. Vocês me convencem muito fácil — mamãe sorriu, deixando o cansaço de lado enquanto ia para a sala.

​Fui para a cozinha e o barulho da pipoca estourando na panela preencheu a casa. Corri para a sala com a bacia cheia e me joguei no sofá entre as duas. A Rosa já estava com o controle na mão, com os olhos brilhando.

​— Já escolhi! Vai ser Cartas para Julieta — anunciou, vitoriosa.

​— Ah, não, Rosa! Romantismo de novo? — brinquei, fingindo uma careta. — Você sabe que eu não sou muito fã dessas melações, prefiro mil vezes um drama pesado.

​— Deixa de ser marrenta, Rosário! — Rosa riu, jogando uma pipoca em mim. — Você sempre me deixa escolher, não reclama hoje. Olha essa paisagem da Itália, que coisa mais linda!

​— É verdade, filha, o filme parece bonito — mamãe defendeu a Rosa, pegando um punhado de pipoca. — Deixa o romance passar um pouco na televisão, já que a nossa vida real é tão dura.

​— Está bem, está bem, vocês venceram — me rendi, rindo e me aconchegando no ombro da mamãe. — Mas se eu dormir no meio, não vale brigar comigo!

​— Se você dormir, eu te acordo com cócegas! — Rosa ameaçou, e nós três rimos juntas.

​Enquanto o filme passava e a sala era iluminada pela tela, a conversa diminuiu, dando lugar ao som das nossas risadas nas partes engraçadas. Por algumas horas, o plano funcionou. Sentindo o calor da minha mãe de um lado e a energia doce da Rosa do outro, o medo do Augusto e as ameaças da biblioteca pareceram ficar do lado de fora da porta.

No meio do filme, senti o peso da cabeça da minha mãe ficar mais vivo contra o meu ombro. Olhei de relance e vi que os olhos dela já tinham se fechado, embalados pelo cansaço da rotina pesada no consultório. Dei um leve cutucão na Rosa com o pé e fiz um sinal com a cabeça, apontando para a mamãe.

​Rosa olhou, deu aquele sorriso doce que só ela tinha, e sussurrou bem baixinho para não acordá-la:

​— Ela está cansada... A nossa guerreira trabalha demais.

​— Demais — sussurrei de volta, ajeitando o cobertor sobre as pernas da mamãe com o maior cuidado do mundo. — Dá uma dor no coração ver ela assim, exausta.

​— Vamos continuar assistindo, já está perto de acabar — Rosa sugeriu, também baixando o tom de voz, os olhos voltando para a tela onde os personagens desvendavam os mistérios do amor na Itália.

​— Tá bem — concordei, me aconchegando mais no sofá.

​Pela primeira vez na noite, prestei atenção de verdade no filme. Vendo aquela busca por um amor do passado e os finais felizes que só o cinema sabe criar, meu pensamento acabou voando para longe da Itália. Pensei na nossa própria história, na Rossandra que sumiu no mundo sem deixar pistas. vida real na nossa comuna não tinha trilha sonora bonita, nem cartas de amor; tinha avisos perigosos

Assim que a música dos créditos finais começou a ecoar baixinho pela sala, a Rosa pegou o controle e desligou a televisão. Olhei para o lado e balancei o ombro da mamãe de leve, com todo o carinho.

​— Ei, mamãe... — sussurrei perto do ouvido dela. — Acorda. O filme já acabou, vamos para a cama.

​Dona Roberta piscou os olhos, meio confusa, e soltou um bocejo longo, se espreguiçando no sofá.

​— Ah, minhas filhas... Me desculpem, acho que perdi o finalzinho — ela disse, com a voz rouca de sono, limpando os cantos dos olhos. — Esse sofá me abraçou de um jeito que não deu para aguentar.

​— Não tem problema, mamãe. A senhora precisava descansar — Rosa falou, levantando-se e segurando a mão dela para ajudá-la a levantar. — Vai lá deitar direitinho.

​— Boa noite, minhas bênçãos. Não fiquem acordadas até tarde, hein? — mamãe nos alertou, dando um beijo no topo da cabeça de cada uma antes de caminhar arrastando os chinelos em direção ao quarto dela.

​Quando a porta do quarto da mamãe se fechou, o silêncio da sala pareceu ficar ainda mais pesado. Comecei a juntar os copos e a bacia de pipoca vazia, tentando parecer ocupada para não deixar transparecer que o medo do Augusto tinha voltado com tudo assim que a televisão desligou.

​Rosa ficou de pé me observando por alguns segundos. Ela me conhecia melhor do que ninguém; sabia que por trás de toda a minha pose de furacão, eu estava apavorada.

​— Rosário... — ela chamou baixinho, fazendo com que eu parasse no meio do caminho para a cozinha. — Quer dormir comigo na minha cama hoje?

​Olhei para ela, e a armadura de garota durona que eu tentava vestir desmoronou na hora. Eu não queria ficar sozinha no meu quarto, olhando para o teto e imaginando o que o Augusto faria no dia seguinte.

​— Quero... Quero sim, Rosa — admiti, sentindo um nós na garganta e deixando a bacia em cima da mesa.

​— Então vem, deixa isso aí. Amanhã a gente limpa — Rosa disse com aquele tom meigo e acolhedor, estendendo a mão para mim.

Nos deitamos na cama de casal, nos cobrindo até o queixo para espantar o frio que começava a fazer na comuna. A única iluminação vinha da lua que passava pela fresta da janela, desenhando sombras suaves no teto.

​— Você viu que lindo o filme, Rosário? — ela começou, com aquela voz sonhadora de sempre. — A Claire passou cinquenta anos longe do Lorenzo, mas o sentimento deles continuou exatamente igual. Eles se reencontraram velhinhos e o amor estava lá, intacto. Isso é que é amor verdadeiro.​— É bonito na tela do cinema, Rosa... Mas aquilo é a Itália, é um roteiro escrito por alguém.

​— Não seja cética, boneca — Rosa sorriu de canto, virando-se para mim também. — O amor de verdade existe. Aquele senhor esperou por ela, e a Claire nunca o esqueceu. Eu acho que todo mundo tem uma alma gêmea em algum lugar do mundo, alguém que vem para trazer paz, e não medo.

​— Irmã... Eu não sei se acredito no amor — desabafei, e minha voz saiu tão baixinha que quase sumiu no quarto.

​Rosa me olhou com uma ternura que quase me fez chorar de novo. Ela esticou o braço e acariciou meu cabelo.

​— Por que você diz isso, Rosário? Você é a leitora mais romântica que eu conheço, vive com o nariz enfiado nesses livros de época.

​— Justamente, Rosa. Nos livros do século dezenove, os homens sofrem por amor, escrevem cartas, respeitam as mulheres. Mas na nossa realidade?

— dei uma risada amarga, limpando uma lágrima teimosa que escorreu. — Na nossa realidade, o "amor" que b**e à nossa porta vem com ameaça.

O amor levou a nossa irmã embora e destruiu o nosso pai. Para nós, o amor sempre custou caro demais. Eu tenho a impressão de que, no mundo real, o amor é perigoso.

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