Capítulo 4

Alejandro

Liderei o restante da reunião com uma frieza que claramente incomodou os velhos. Repassamos os relatórios das rotas de escoamento e as metas de arrecadação do mês, mas ninguém ali estava realmente prestando atenção nos números. O foco de todos estava na contagem regressiva invisible que acabava de ser ativada sobre a minha cabeça.

​Assim que encerrei a sessão, os conselheiros se retiraram em silêncio, deixando apenas o rastro do perfume caro e da falsidade deles para trás.

​Gomes foi o último a sair. Antes de passar pela porta, ele me encarou de relance, um aviso silencioso cravado nos olhos. Eu apenas sustentei o olhar até ele sumir do meu campo de visão.

​Quando a porta pesada de madeira finalmente se fechou, o silêncio da sala mudou de forma. Miguel caminhou até a entrada, trancou a fechadura por dentro e se virou, soltando o ar que parecia estar prendendo há horas. Erick desabotoou o paletó, caminhando até o bar de canto para servir três copos de uísque.

​— Puta que pariu, chefe — Miguel falou primeiro, passando a mão pelo rosto e se aproximando da mesa. — Por um segundo achei que a gente ia ter que limpar os miolos do Gomes do carpete antes do almoço.

​— Ele merecia — respondi, pegando o copo que Erick me estendia. Dei um gole longo, sentindo o líquido queimar a garganta e acalmar o resto da adrenalina. — Mas você teve razão em me segurar. Matar o velho ali ia dar o argumento que eles precisavam para me derrubar.

​— Aqueles abutres jogam sujo — Erick comentou, encostando-se na borda da mesa com o copo na mão. — Mas essa exigência do casamento... Eles foram cirúrgicos. Sabem exatamente onde pisar para te desestabilizar.

​Miguel soltou uma risada abafada, balançando a cabeça.

​— Chefe, você não quer casar. Todo mundo aqui sabe disso. Tem uma mulher diferente a cada noite na sua cama, nunca repete o prato. Como é que você vai aguentar uma esposa no seu pé cobrando relatório de onde você estava?

​Apoiei o copo na mesa e encarei os dois, deixando um sorriso cínico surgir nos meus lábios.

​— Vocês realmente acham que eu vou levar isso a sério? — perguntei, cruzando os braços. — Será um casamento de fachada, apenas para calar a boca daqueles abutres. Eu não preciso nem ver a cara dessa mulher dentro de casa. Ela vai ter o status, o dinheiro e uma ala inteira da mansão só para ela, contanto que fique de boca fechada e apareça nos jantares de negócios quando eu mandar.

​Erick arqueou uma sobrancelha, pensativo.

​— E as sugestões deles? As filhas dos conselheiros?

​— Nem fodend*. Se eu colocar uma filha de qualquer um daqueles velhos na minha casa, coloco uma espiã na minha cama. Vou arranjar alguém de fora. Alguém que precise de dinheiro o suficiente para assinar um contrato e sumir no cenário quando o prazo de um ano acabar.

​Miguel deu de ombros, parecendo convencido, mas o sorriso malicioso logo voltou ao seu rosto.

​— Bom, se é assim... Menos mal. Pelo menos a primeira-dama não vai ficar controlando seus horários.

​— E nem os meus hábitos — completei, pegando o copo de volta. — Eu não vou deixar as minhas garotas do night club. Elas são a minha distração do dia a dia, e nenhuma aliança vai mudar isso.

​Miguel e Erick soltaram uma gargalhada alta juntos, quebrando de vez a tensão que tinha dominado a manhã.

​— Justo, chefe. Seria um pecado desperdiçar o estoque — Miguel brincou, erguendo o copo em um brinde.

— Chefe, chegaram duas gostosas novas lá — Miguel comentou, os olhos brilhando com aquela malícia de sempre. — Uma delas é uma ruiva deliciosa. O senhor vai amar, ela tem uma raba... e dança o pole dance como nenhuma outra que eu já vi.

​Girei o uísque no copo, sentindo o interesse fisgar na hora.

​— Uma delícia saber — respondi, guardando a informação com um sorriso de canto. — Acho que vou lá hoje à noite. Quem topa ir junto?

​Miguel já ia assentir, mas Erick deu um passo à frente, cruzando os braços com aquela postura mais centrada de sempre.

​— Chefe... — Erick ponderou, ajeitando o terno. — Será que não vão achar ruim o senhor ir? Seu pai morreu ontem. Os velhos do conselho podem usar isso para dizer que você não respeita a memória do Ramón.

​Soltei um sopro de risada, totalmente sem paciência para a moralidade daquele povo.

​— Sim, ele morreu. E eu estou de luto, por isso preciso distrair a mente — ironizei, encarando o Erick.

​Os dois me olharam por um segundo, captando o sarcasmo ácido, e nós três rimos alto.

​O luto pelo Ramón era uma piada que nenhum de nós fingia levar a sério. Nós três estávamos juntos desde a adolescência, amarrados por um pacto que o tempo só fez endurecer. Nunca nos largamos. Era um protegendo o outro, desde a época em que éramos só garotos tentando sobreviver à sombra dos nossos coroas. Afinal, os nossos pais foram os piores monstros que já pisaram nessa terra. O que tínhamos ali não era só lealdade de negócios; era o único laço de sangue real que nos restava.

​— É, Erick, o chefe tem um ponto — Miguel brincou, batendo no ombro dele. — Um homem estressado não governa bem. Vamos garantir que o império continue firme.

​— Sendo assim, não posso deixar o meu chefe desprotegido na noite — Erick cedeu, balançando a cabeça com um sorriso de canto e virando o resto do seu uísque. — Eu dirijo.

​— Ótimo. À noite a gente resolve o resto — decretei, deixando o copo vazio sobre a mesa.

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