Deitei de lado, abracei o travesseiro e fechei os olhos.
Mas o sono... não veio. Fiquei virando de um lado pro outro por horas. Revivendo cada segundo daquela noite. O jeito como ela encostava o joelho no meu. O som da música que mal prestei atenção. O quase-beijo que não aconteceu, mas queimava como se tivesse. "Fica mais um pouco", ela tinha dito. E eu fiquei. Mas agora, sozinha, tudo parecia tão distante que quase duvidei se aquilo tinha sido real. Será que ela sentiu mesmo? Será que pra ela também pesou? Ou fui só eu? No escuro do meu quarto, essas perguntas viravam monstros. E quando finalmente adormeci, já era quase manhã. O despertador tocou antes que eu pudesse descansar de verdade. A luz cinza da manhã atravessava a persiana, desenhando linhas tortas no chão do quarto. Levantei devagar, como se cada movimento exigisse mais coragem do que eu tinha. No banheiro, encarei meu reflexo por longos segundos. Os olhos cansados, mas o coração inquieto. Lavei o rosto com água fria. Vesti a roupa do colégio. Mas tirei. Troquei por outra. E depois outra. Nada parecia bom o suficiente. Ou... talvez, tudo estivesse bom demais. E esse era o problema. Eu queria me arrumar, mas fingir que não. Queria chamar a atenção dela, mas fingir que não me importava. Queria que ela me olhasse. De novo. Do mesmo jeito. Na cozinha, minha mãe me serviu café com pão, e eu agradeci num sussurro. Nem tentei forçar conversa. A cabeça já estava na escola. No pátio. Na escada. No olhar dela. E eu... torcendo pra tudo ser só paranoia minha. Talvez ela só estivesse cansada ontem. Talvez ela só precisasse de um tempo. Talvez ela estivesse esperando que eu procurasse. Peguei a mochila. Saí de casa. E o mundo parecia continuar exatamente do mesmo jeito. Menos eu. Quando cheguei na escola, meus olhos procuraram por ela instintivamente. Nada no pátio. Nada perto da lanchonete. Senti um frio na barriga. Mas tentei me distrair com o som de vozes conhecidas, os passos apressados, o barulho dos bancos de ferro sendo arrastados. Tudo igual a todos os dias. Tudo... sem ela. No corredor, vi Will encostado no armário dele, mexendo no celular. — Oi, bom dia — falei. Ele ergueu os olhos com um sorriso largo. — Bom dia, atrasada emocionalmente. Revirei os olhos, rindo. — O que foi agora? — Nada. Só tô dizendo que você tá com cara de quem passou a noite acordada pensando em alguém. Não respondi. Ele me encarou por dois segundos. E, como sempre, entendeu mais do que eu disse. — Se quiser conversar... depois da aula, tá? Eu te pago um suco — disse, baixinho. — Mas toma cuidado com quem você entrega seu coração, Allie. Às vezes ele volta diferente. Quase engoli seco com aquilo. Mas antes que eu pudesse responder, o sinal tocou. Quando entrei na sala, ela estava lá. Na última fileira. Sentada, de fone no ouvido. O olhar fixo na janela. Meu coração apertou. Eu quase sorri. Quase. Mas ela não olhou pra mim. Nem por um segundo. Passei por ela devagar. Me sentei no meu lugar. A mochila pesada nas costas. E o peso do silêncio entre nós... ainda mais. Durante a aula, olhei discretamente pra ela algumas vezes, esperando um olhar em retorno. Nada. Nem um olhar de canto. Nem um gesto. Ela estava ali. Mas parecia distante como um lugar que eu não podia mais alcançar. E o pior é que... ontem, ela tinha me deixado entrar. Hoje, eu nem sabia onde estava a porta. Fiquei quieta. Fingindo atenção. Mas cada palavra do professor virava ruído. E eu só conseguia pensar: o que aconteceu com a garota que me fez querer cair? O sinal tocou, encerrando mais uma aula em que eu estive fisicamente presente, mas emocionalmente muito longe de qualquer equação no quadro. Enquanto os alunos se levantavam e o barulho dos passos enchia o corredor, fiquei na carteira por alguns segundos a mais, fingindo arrumar as coisas, tentando não parecer que meus olhos buscavam alguém específico. Mas era inútil. Porque eu só pensava nela. Ever saiu antes de mim. Passou pela porta sem me olhar, com os fones ainda nos ouvidos, a mochila pendurada num ombro só e aquela postura que dizia "nada me atinge", embora eu soubesse que isso era só uma armadura bonita. Quando finalmente levantei, segui devagar até o armário, tentando não me deixar engolir por aquela decepção que crescia no fundo da garganta. Will apareceu do nada, do jeito leve e intrometido que só ele sabia fazer sem parecer inconveniente. — Tá viva? - perguntou, com uma expressão que misturava humor e cuidado. Assenti. — Só... cansada. Ele olhou bem nos meus olhos, como se procurasse alguma coisa ali dentro. — Tem certeza? — Não. Mas tá tudo bem. Ele não insistiu. Nunca insistia. Will era bom nisso: estar por perto sem invadir, entender sem pressionar. E naquele momento, isso já bastava. — Quer que eu fique depois da aula? A gente pode ir tomar algo, espairecer. Sorri de leve. — Hoje não. Preciso resolver umas coisas. Ele fez um gesto com os ombros, tipo "ok", e se afastou. E eu fiquei ali, me perguntando se resolver coisas incluía entender o que eu era agora, depois daquela noite na casa dela. No fim do último tempo, quando a turma começava a se dispersar e eu recolhia minhas coisas quase por instinto, percebi algo diferente. Um papel dobrado dentro do meu estojo, como se tivesse sido colocado ali com cuidado. Meus dedos pararam por um segundo. Desdobrei o papel com a respiração suspensa. A caligrafia era dela. Rápida, inclinada, quase descuidada. Mas estava ali. Reconhecível. Reconfortante. "Ginásio. Depois da aula. Só a gente." Nada mais. Nenhuma explicação. Nenhum pedido de desculpa. Nenhuma emoção explícita. Mas a forma como ela escreveu "só a gente" parecia mais íntima do que qualquer outra coisa que eu pudesse ter lido naquele dia. Guardei o papel dobrado de novo e, pela primeira vez naquele dia, senti algo diferente da angústia. Talvez fosse raiva. Talvez fosse ansiedade. Mas, no fundo, era esperança. Não do tipo bonita e romântica. Do tipo real. Desajeitada. Doída. Mas ainda assim... esperança. Quando cheguei na lateral do ginásio, não sabia o que esperar. O que aconteceu ontem parecia estar entalado no meio da garganta, e confesso que uma parte de mim ainda tava pronta pra cobrar. Mas, pra minha surpresa, a Ever já estava encostada na parede com a maior cara de paisagem do universo. Como se nada tivesse acontecido. Como se a noite anterior não tivesse sido o turbilhão que foi. — Tá atrasada - ela falou, com um sorriso de canto. — Você também me ignorou na frente de todos, mas parece bem à vontade agora. Ela deu de ombros, fingindo inocência. — Achei que a gente podia dar uma volta. Você conhece algum lugar legal por aqui? Um que não envolva professores gritando ou o cheiro de desinfetante do colégio? Pisquei, meio em choque. Ela realmente tava mudando de assunto assim? Depois de tudo? — Cê tá falando sério? — Tô. — Ela ergueu a sobrancelha, debochada. — É proibido querer te tirar pra respirar? Cruzei os braços. — Você some, me trata como uma desconhecida e agora aparece com esse papinho leve? Ela se aproximou, com aquele jeito descarado de quem sempre escapa das discussões com piadas. — Cê tá brava comigo, né? — fez uma carinha forçada de cachorro abandonado. — Vai me bater? — Não sei... tô considerando. Ela fingiu se afastar, como se eu fosse pular em cima dela. — Calma, calma! Tô só tentando fazer as pazes. A gente pode ir em algum lugar, sei lá, tomar um sorvete, olhar o céu, fugir pro México... Sou aberta a sugestões. — Ever... — A gente pode ser só amigas, se você preferir — disse com ironia — amigas que se encaram por tempo demais, se provocam até alguém perder o controle... Você que tá cheia de fogo, não eu. — Idiota! — dei um soco leve no braço dela, e ela fingiu que sentiu dor. — Ai! Agressão. Anotado. A risada escapou de mim antes que eu conseguisse impedir. E a dela veio junto, despreocupada, barulhenta, bonita. E naquele momento... era impossível continuar brava. Ela sabia disso. Sabia exatamente como me desmontar. — Tá — falei, recuperando o fôlego. — Quer ver as estrelas hoje à noite? Ela ergueu uma sobrancelha, surpresa de verdade. — Tipo... ver as estrelas de verdade? Céu, grama, silêncio? — É. Lá de casa dá pra ver bem. Fica mais escuro que aqui. Ela fez uma pausa, como se considerasse. — Eu topo. — Sem sumir no dia seguinte? — Sem sumir — ela disse, levantando a mão em juramento. Eu sorri, sentindo a tensão se desfazer por um instante. Mas foi só por um instante mesmo. Pouco depois, fui até a frente da escola, onde Will me esperava com Jenn e outros colegas. Quando cheguei, ele já falava empolgado com um garoto que eu nunca tinha visto. Ele era alto, pele clara, cabelo preto com ondas largas que caíam levemente sobre a testa, o estilo todo descolado, camiseta vintage e colar prateado. Will me puxou pelo braço, animado. — Allie, vem cá. Esse é o Valentin. Chegou essa semana. O tal do Valentin me olhou com aquele sorriso calmo, confiante, e segurou minha mão com delicadeza exagerada, inclinando-se um pouco pra beijá-la. — Enchanté, ma belle. O grupo riu, e eu só fiquei ali, paralisada por dois segundos, sem saber se achava ridículo ou encantador. — Você... é sempre assim? - perguntei, tentando não rir. — Só com garotas especiais. O Will revirou os olhos, rindo. — Cuidado com esse charme francês fajuto. Ele vai te chamar de "ma belle" até você esquecer seu próprio nome. Ficamos conversando ali por um tempo. O Valentin era engraçado, meio misterioso, tinha uma vibe sedutora que não forçava nada, só existia. E por mais que eu fingisse que não, eu estava gostando da atenção. No meio da conversa, senti a presença dela. Olhei pro lado e vi Ever passando. Ela pisava duro, o olhar fixo pra frente, as mãos fechadas nos bolsos da jaqueta. Ela passou direto. Nem um olhar. Nem um desvio. Nada. E aquilo... me atingiu mais do que eu queria admitir. Depois da aula, a pedido insistente do Will, fui tomar sorvete com o grupo. A gente sentou num banco da praça perto do colégio, cada um com seu copinho, jogando conversa fora. O assunto da vez? A tal festa que vai acontecer na terça. — Você vai, né, Allie? — Jenn perguntou, com aquele olhar já sabendo da resposta. — Claro que não. Eu odeio essas festas. — Mas essa vai ser diferente — Will disse. — Vai ter banda, fogueira, talvez até aquele DJ do centro. — E um céu cheio de estrelas - Valentin completou, piscando pra mim. — Seria interessante ter você por lá. — "Interessante"? — repeti, levantando uma sobrancelha. — Sua presença tornaria a noite mais... inspiradora. Jenn e Will riram, mas eu só balancei a cabeça. — Gente, não. Eu não vou. Fim de papo. — Ela vai sim - Will cantou. - Eu vou arrastar você de casa, se precisar. Sorri, mas por dentro... minha cabeça já tava longe. Cheguei em casa e fui direto pra pia. Comecei a lavar a louça que minha mãe tinha deixado acumulada desde cedo. Coloquei uma playlist qualquer e deixei o som preencher o vazio que eu fingia não sentir. Lavei pratos, varri o chão, organizei as almofadas do sofá. Mas tudo que eu fazia só servia pra esconder uma coisa: Eu não conseguia parar de pensar nela. Na risada. Nas provocações. Na forma como ela virou o rosto quando passou por mim. No silêncio que dizia mais do que qualquer frase longa. Pensei em mandar mensagem. Desisti. Peguei o celular de novo. Desisti de novo. E então... ele vibrou. Uma notificação. Mensagem de Ever. Era uma foto. Um caderno com a capa personalizada, com desenhos feitos à mão, e na frente estava escrito em caneta preta: "Você cria. Você sente. Você que lute." A legenda veio logo abaixo: "Vi isso numa papelaria e lembrei de você. É meio a sua cara, confessa." Sorri sozinha. Meus dedos deslizaram rápido. "Você me viu no meio de uma frase engraçada com fonte Tumblr? Que honra." Ela respondeu na hora: "Ué, quer que eu veja você onde? No outdoor do perfume novo da Chanel?" "Tanto faz, desde que não seja passando por mim como se eu fosse invisível." Ela demorou mais um pouco pra responder dessa vez. "Tô tentando não complicar as coisas. Mas você também não ajuda com esse sorriso." "A culpa é sua. Você vive tentando me fazer rir." "É porque quando você sorri, eu esqueço do resto." E depois disso, nenhuma de nós respondeu por um tempo. Mas eu sabia. Amanhã tudo ia mudar de novo. Acabamos não nós vendo, ela havia me chamado para sair e depois apenas deixou para lá.. talvez ela não gostasse tanto de mim. No dia seguinte, acordei com aquele peso esquisito. Era terça. A tal festa. Mas eu tinha certeza de uma coisa: não ia. Quando cheguei na escola, Will me esperava no portão, com Jenn e Valentin. Ele me cumprimentou com um sorriso, e Valentin, como sempre, segurou minha mão com charme exagerado: — Ma belle. Dormiu bem? Revirei os olhos, mas sorri. Passei o olhar pelo pátio, pelas escadas, pela entrada da sala. Procurei. Disfarcei. Procurei de novo. Mas ela não estava ali. A Ever não veio. E, por mais que eu fingisse que não... isso mexeu comigo mais do que qualquer elogio em francês. O dia passou devagar, como se estivesse testando minha paciência. Na escola, fiz de tudo pra parecer ocupada. Me envolvi nas aulas, prestei atenção nas provas que iam chegar, até ajudei a Jenn com um resumo de química, mas... nada me distraía de verdade. Meu olhar escapava o tempo todo. Pro corredor. Pra porta. Pra entrada da sala. Mas ela não apareceu. Nenhuma mensagem. Nenhum áudio. Nenhum "oi". Ever tinha simplesmente desaparecido. E por mais que eu tentasse convencer a mim mesma de que estava tudo bem... não estava. No intervalo, encostei na mureta com meu suco na mão, tentando parecer casual, mas a ausência dela era um silêncio berrando no fundo da minha cabeça. — Ela não veio — Jenn disse, encostando ao meu lado. — Não sei nem de quem você tá falando — respondi, mesmo sabendo que era mentira. Ela me olhou de lado, sem comentar nada. Will apareceu logo depois, com aquele jeitão animado e uma sacola de salgadinhos. — Hoje à noite, hein. Nada de fugir — falou, jogando um pacote no meu colo. Assenti, sem muita vontade. Às sete, eu ainda tava em casa, sentada na beirada da cama, encarando o guarda-roupa aberto como se ele fosse resolver minha vida. Minha mãe saiu pra trabalhar no fim da tarde, e a casa ficou só pra mim. Eu tinha um milhão de opções, e nenhuma fazia sentido. Acabei escolhendo um vestido preto simples, de alças finas e saia solta. Nada colado, nada chamativo. Prendi o cabelo num coque bagunçado, passei um gloss, um delineador discreto... e pronto. Já tava bonita o bastante pra alguém que queria fingir que nem se importava. Jenn e Will chegaram de carro, rindo, animados, como se estivessem indo pra um festival. — Tava pronta faz tempo, confessa — Jenn disse. — Tava quase desistindo, na verdade. — Ainda bem que não — Will sorriu, me puxando pro banco de trás. Chegando na festa, a música já pulsava forte, o som grave batendo no peito. A casa era enorme, provavelmente de algum amigo da Stacia porque, claro, Stacia tava lá. E onde ela tava... todo o resto girava em volta. Assim que descemos do carro, vi Valentin encostado na porta, uma garrafa na mão, camiseta branca dobrada na manga, colar pendurado no pescoço e um sorriso fácil no rosto. — Ma belle — ele disse, me olhando como se a noite fosse só nossa. — Oi, Valentin. Ele me deu um beijo na mão, de novo, e caminhamos juntos até a sala, mas eu mantive a distância. Por mais bonito que ele fosse, e por mais que todo mundo parecesse encantado por ele... meus olhos só procuravam uma coisa. Ou melhor, uma pessoa. E então, eu vi. Sentada num sofá escuro, com uma garrafa na mão, o cabelo preso num coque bagunçado. Ela vestia uma calça preta justa, coturno pesado e uma blusa de alça fina que deixava parte das costas à mostra, uma jaqueta de couro jogada ao seu lado. Nada de vestido, nada de look "fofinho". Era ela - provocante, indomável e, ainda assim, completamente fora do normal. Uma garota loira, que eu nunca tinha visto, estava sentada no colo dela, rindo alto, jogando o cabelo pra trás como se estivesse numa propaganda. Ever mantinha o braço solto atrás da cintura dela, com um copo na outra mão e a postura de quem tava ali só pra ver o mundo pegar fogo. E em volta delas, a rodinha da Stacia. Todo mundo ali como se aquilo fosse normal. Mas não era. Porque Ever não bebia. Ever não era de festas. Ever... não era assim. Pelo menos pelo pouco que me compartilhou. Mas o que me pegou mesmo foi o olhar. Porque ela me viu. Tenho certeza que viu. Mas fingiu não ver. Virou o rosto com naturalidade, tomou mais um gole da garrafa e riu de algo que alguém disse na roda da Stacia. E aquilo... me acertou como um soco invisível. Meu estômago virou. — Quer beber alguma coisa? — Valentin perguntou. Assenti. Eu precisava de qualquer coisa que aliviasse o incômodo que tava crescendo no peito. Mais tarde, a música aumentou, o centro da sala virou uma pista improvisada, e Valentin me puxou pra dançar. No começo, só ri, tímida. Mas ele era insistente, e eu... queria esquecer por alguns minutos. Então fui. Dancei. Deixei o som ocupar minha cabeça. Deixei o corpo se mexer com o ritmo. Sabia que ela observava cada um dos meus movimentos, eu queria irritar, então dançava cada vez mais colada, cada vez mais ousada. Valentin chegou mais perto. Colocou a mão na minha cintura, deslizou até minhas costas. — Você dança bem, sabia? — Eu danço como quem tá fugindo — respondi. — Tá fugindo de mim? — Tô fugindo de mim. Ele riu, e a mão dele desceu um pouco mais, os dedos tocando minha pele descoberta. E foi nesse momento que tudo parou. Um barulho seco. Um impacto. E depois... gritos. Valentin caiu pra trás, a mão no rosto, sangrando um pouco no canto da boca. E na frente dele... Ever. Com o punho fechado, o peito arfando, o olhar em chamas. — Não encosta nela, seu lixo — ela rosnou. A roda se abriu, as pessoas começaram a filmar, a gritar, a puxar os dois pra longe. Eu estava parada. No meio do caos. Sem entender nada. Valentin xingou, alguém tentou segurá-lo, Ever se desvencilhou de um dos caras da roda da Stacia e, sem dizer mais nada, saiu da casa como um furacão. Sem olhar pra mim. Sem falar com ninguém. Desapareceu. Minutos depois, me sentei no canto da cozinha da casa, com um copo de água na mão, a respiração pesada e a cabeça girando. Jenn apareceu, assustada. — Que merda foi essa? — Não sei. Peguei o celular e, sem pensar duas vezes, mandei uma mensagem pra ela: "Ever, o que aconteceu? Por que você fez aquilo?" Visualizado. Nenhuma resposta. Fechei os olhos. Respirei fundo. E pela primeira vez naquela noite... eu realmente me senti sozinha. Eu cansei de tudo aquilo, cansei daquela festa, cansei daquele lugar e me desloquei para casa. Ever tinha estragado tudo. Cheguei em casa e apenas me joguei na cama. O despertador tocou antes mesmo do sol ir embora totalmente. Eu já estava meio acordada, o corpo cansado, mas a cabeça girando num looping doentio desde a noite anterior. Levantei devagar, como se o ar estivesse pesado. Me arrastei até o banheiro, me encarei no espelho, olheiras, o cabelo bagunçado demais até pro meu padrão, o olhar perdido. Suspirei. "Vai passar", menti pra mim mesma. Coloquei o uniforme quase no piloto automático, prendi o cabelo num rabo alto e joguei a mochila nas costas. Saí de casa tão cedo que minha mãe nem tinha acordado ainda. Melhor assim. Não aguentaria perguntas.