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Capítulo 29 — A amizade

A reunião havia sido um sucesso.

Os parceiros deixaram a Zanobi Corporation satisfeitos, e os resultados começaram a aparecer antes mesmo do esperado.

No final da tarde, Umberto permanecia em sua sala revisando alguns contratos quando ouviu duas batidas na porta.

— Entre.

Vito entrou sorrindo, como fazia quase todos os dias.

— Ainda trabalhando?

Umberto nem levantou os olhos dos documentos.

— Alguém precisa manter esta empresa funcionando.

Vito soltou uma risada.

— E alguém precisa lembrar que você também é ser humano.

Umberto fechou a pasta.

— E o que você quer?

— Tirar você daqui. — Disse com um tom de persuasão.

— Impossível.

— Nada é impossível. — Insistiu.

Vito puxou uma cadeira e sentou-se à frente da mesa.

— Faz semanas que você não faz outra coisa além de trabalhar.

— Exagero seu. — Retrucou Umberto

— É mesmo? — Respondeu Vito com sarcasmo.

Ele começou a contar nos dedos.

— Você cancelou dois jantares, desmarcou uma pescaria, não foi ao passeio de lancha e ainda recusou um churrasco no último domingo.

Umberto sorriu de canto.

— Você anda controlando minha agenda?

— Alguém precisa. — Disse alfinetando o amigo.

Os dois riram, depois de alguns segundos, Vito voltou a falar.

— Vamos fazer alguma coisa neste fim de semana.

— Como o quê?— Perguntou Umberto sem entusiasmo.

— Praia! — Exclamou Vito com euforia.

— Não. — Umberto negou.

— Passeio de barco. —Insistiu Vito.

— Também não. — Disse Umberto recusando.

— Então vamos praticar algum esporte radical.— Vito sugeriu já sem ânimo.

Umberto arqueou uma sobrancelha.

— Você quer me matar?— Disse incrédulo.

— Quero fazer você viver um pouco. — Rebateu sem esperanças.

O silêncio foi quebrado por uma breve risada de Umberto.

Era raro vê-lo rir daquela forma.

— Está bem. — Disse finalmente concordando.

Vito abriu um sorriso vitorioso.

— Sério?

— Desde que você organize tudo.

— Fechado.

Ele levantou-se satisfeito.

— Pode deixar. Eu cuido de tudo.

Enquanto Vito deixava a sala, Humberto balançou a cabeça, sorrindo discretamente.

Ter um amigo como ele tornava os dias menos pesados.

O sábado amanheceu com um céu limpo e uma brisa agradável.

Depois de semanas mergulhado no trabalho, Humberto finalmente havia cumprido a promessa feita ao amigo.

Ainda nas primeiras horas da manhã, Vito passou para buscá-lo.

Como sempre, estava animado.

— Espero que você não desista no meio do caminho.

Humberto fechou a porta da mansão e sorriu discretamente.

— Eu deveria ser o único preocupado com isso.

Os dois entraram no veículo e seguiram viagem.

O destino era uma região cercada por montanhas e cachoeiras, conhecida pela prática de rapel.

Vito havia organizado praticamente toda a aventura.

Reservou o horário com a equipe responsável.

Providenciou os equipamentos de segurança.

Separou água, alimentos, um pequeno kit de primeiros socorros e até um kit de sobrevivência para uma eventual emergência.

Humberto, fiel ao seu jeito metódico, ainda fez questão de conferir cada item antes de saírem.

— Você acha mesmo que vamos precisar de tudo isso? — perguntou, observando a mochila.

Vito deu uma gargalhada.

— Espero que não.

— Então por que trouxe?

— Porque prevenção nunca é demais.

Humberto assentiu.

— Finalmente concordamos em alguma coisa.

Os dois riram.

Durante o percurso, conversaram sobre assuntos diversos.

Relembraram histórias da juventude, os primeiros anos da empresa e as dificuldades que enfrentaram para transformar a Zanobi Corporation no império que era hoje.

O restante da tarde transcorreu entre descidas, risadas e alguns desafios que Vito fazia questão de transformar em competição.

— Aposto que você não consegue descer mais rápido do que eu.

Umberto apenas sorriu.

— Eu não tenho mais vinte anos para entrar nessas disputas.

— Está com medo de perder?

— Estou com preguiça de discutir com você. Você parece criança.

Os dois caíram na risada.

Quando o sol começou a se esconder atrás das montanhas, decidiram encerrar o passeio.

Sentaram-se sobre uma grande pedra, de onde era possível contemplar a cachoeira e ouvir o som constante da água batendo nas rochas.

Por alguns minutos, nenhum dos dois disse uma palavra.

Aquele silêncio era confortável.

Vito quebrou o silêncio primeiro.

— Precisávamos fazer isso mais vezes.

Umberto concordou com um leve movimento de cabeça.

— Fazia tempo que eu não desligava da empresa. São tantas coisas que vão surgindo em efeito dominó.

— E conseguiu?

Ele olhou para a paisagem antes de responder.

— Por algumas horas... sim.

Vito sorriu, satisfeito.

— Então já valeu a pena.

Umberto respirou profundamente, deixando o vento fresco tocar seu rosto.

— Obrigado por insistir.

Vito levantou uma sobrancelha, brincando:

— Pode repetir? Acho que não ouvi direito.

Umberto riu.

— Não exagera.

Os dois se levantaram.

Recolheram os equipamentos e seguiram em direção ao veículo.

Enquanto caminhava lentamente pela trilha, Umberto observava a imensidão da paisagem ao seu redor.

O vento soprava suavemente entre as árvores, e o som da água correndo pela cachoeira parecia silenciar qualquer preocupação.

— É curioso... — disse ele, pensativo. — A gente passa tanto tempo correndo atrás dos objetivos que esquece de admirar as pequenas coisas da vida.

Vito caminhava logo atrás, ouvindo o amigo filosofar.

— Às vezes, basta parar por alguns minutos para perceber que a natureza ensina mais do que muitos livros.

Nesse instante, uma pequena abelha surgiu voando delicadamente ao redor deles.

Umberto sorriu.

— Olha que inseto lindo...

Sem pensar duas vezes, aproximou a mão e a trouxe para bem perto do rosto, admirando suas pequenas asas.

Vito arregalou os olhos.

— Umberto... não...

Era tarde demais.

— AAAAAI!

Umberto levou a mão ao nariz no mesmo instante.

A pequena abelha havia defendido seu espaço da única maneira que sabia.

Vito levou alguns segundos tentando manter a postura.

Não conseguiu.

Caiu na gargalhada.

— Ah, não, meu amigo! — disse entre uma risada e outra. — Você é o único homem que eu conheço capaz de ser derrotado por uma abelhinha!

Umberto fez uma careta, esfregando o nariz já avermelhado.

— Pode rir... eu deixo.

Vito respirou fundo, ainda segurando o riso.

— Depois dessa, acho melhor a gente voltar para casa antes que você resolva fazer amizade com um marimbondo.

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