Capitulo 6

Livia

A gigante mansão Montenegro estava mais silenciosa naquela tarde, não um silêncio comum, mas um silêncio espesso, cortante, quase vivo. Era como se aquele silêncio guardasse segredos por trás de cada móvel da casa. Theo tinha acabado de dormir, o cansaço do dia havia o vencido. O dia tinha sido longo, cheio de histórias contadas sem pé nem cabeça, corridas pela casa, esconde-esconde e risadas soltas. Fiquei alguns minutos observando seu peito que subia e descia com a respiração tranquila e reconfortante, e senti o peso da responsabilidade por um serzinho pequeno que não era meu, mas tinha conquistado um pedaço do meu coração.

Fechei a porta com cuidado para não fazer barulho e segui pelo corredor iluminado apenas pelas luzes noturnas, o que fazia o ambiente ficar sombrio e gelado. Meus passos eram suaves, mas minha mente não tinha a mesma delicadeza. Arthur Montenegro e sua autoridade impassível, seu olhar frio, o quintal, sobretudo, o silêncio pesado que ficou depois do nosso confronto. Algo tinha mudado na casa, eu só não conseguia definir ainda o que era, mas eu conseguia sentir.

Berta ainda estava na cozinha, ajeitava os últimos detalhes do dia. Olhou por cima dos óculos de armação larga e preta.

— Ele adormeceu rápido hoje. — comentou casualmente.

— Cansado, mas em paz. — respondi aliviada.

— Isso é novidade — comentou como se aquilo fosse quase um milagre.

Aproveitei para preparar um chá, mais para matar o tempo do que por vontade. O vapor quente subiu e embaçou meus pensamentos que já estavam anuviados. Antes que eu pudesse reagir ao comentário de Berta, passos firmes ecoaram pelo corredor principal, adentrando a cozinha. Meu corpo reagiu antes mesmo da razão. Era ele, Arthur Montenegro. Imponente e autoritário.

Ele surgiu na porta da cozinha sem o traje social habitual. Usava uma camisa escura com mangas dobradas até os cotovelos e os primeiros botões abertos, deixando aparecer seu porte físico bem cuidado e malhado, o cabelo levemente desalinhado. Aparentemente mais acessível, mais humano e consequentemente, mais perigoso.

Não sei se foi sua aparência “humanizada” ou seu estilo galã gostoso, mas meu coração acelerou sem pedir permissão e meu rosto ficou quente, provavelmente vermelho. Eu sofria sempre quando tinha qualquer emoção, pois minhas maças do rosto não me deixavam disfarçar.

— Berta… Deixe-nos a sós por gentileza. — ele pediu tão calmamente que quase não reconheci.

Berta não respondeu, apenas seguiu para outro cômodo, mas antes me fixou um olhar firme que pareceu um aviso silencioso. Ficamos a sós e o ar ficou ainda mais denso e a cozinha pareceu pequena demais. Eu me senti esmagada por uma presença imponente quase assustadora.

— O Theo já dormiu? Como ele está? — sua voz pareceu mesmo interessada no bem-estar do garotinho.

— Sim… — falei hesitante — ele quis ouvir uma história inteira antes de pegar no sono.

— Ele sempre gostou de histórias — ele disse quase sorrindo e encostou os braços na bancada, mantendo uma distância significativa entre nós — Lívia… Você precisa entender uma coisa — ele fez uma pausa como se tivesse calculando o que poderia ou não dizer — aquela área externa, não é apenas uma regra arbitrária, não é uma maldade minha.

Encarei-o e senti angústia no seu olhar, percebi que ele precisava ser ouvido mais do que nunca. Seus olhos transmitiam dor. Havia algo diferente em sua voz.

— Eu imaginei… — resmunguei baixinho para ele continuar.

— Minha esposa morreu ali… — ele finalmente falou e deu um longo suspiro — foi repentino. Um mal-estar, um infarto fulminante. E o Theo estava no colo dela. — Percebi que um nó se formou na sua garganta, mas ele era orgulhoso demais para desabar, então manteve sua postura.

— Eu sinto muito… — falei de coração — sinto muito mesmo.

— Desde que tudo aconteceu, aquele lugar se tornou proibido — sua mandíbula se contraiu — é um espaço doloroso demais para revisitar. Aquele lugar deixou de ser um lugar seguro ou um lugar de felicidade.

Ouvindo suas palavras, tudo começou a fazer sentido. A proibição, o controle excessivo, o medo disfarçado de autoridade. Eu tinha ultrapassado essa barreira, tinha furado essa bolha. Talvez isso o tinha deixado vulnerável, o tinha desmontado.

— Mas o Theo associa aquele espaço com a felicidade — falei sem acusar — e talvez o senhor o associe a perda. Talvez o garoto não entende o que tudo isso significa para o senhor.

Arthur fechou os olhos com força e ao abrir, algo havia quebrado ali. Percebi lágrimas inundarem o fundo dos seus olhos.

— Eu não posso perder ele também — finalmente assentiu.

Aquelas palavras atravessaram meu peito, desmontaram minhas defesas. Eu não via ali o CEO autoritário e ignorante que todos conheciam. Era um homem aterrorizado, assustado com a perda e a dor que sentia.

— Aprisionar não é proteger — falei com calma — e amar, não é impedir o mundo de acontecer.

Ele voltou a me encarar e o silêncio imperou entre nós, mas não era um silêncio hostil, era, de algum modo, sensível e muito mais perigoso.

— Você fala como se soubesse o que realmente está acontecendo — ele comentou.

— Eu falo como alguém que já sentiu a dor da perda — respondi quase sem pensar.

— Quem você perdeu, Lívia? — seu olhar se estreitou.

Essa pergunta ultrapassou um limite que jamais deveria ter ultrapassado e despertou em mim lembranças perigosas, imagens do passado, do boletim de ocorrência, do sobrenome. O passado que me perseguiu até ali.

— Algumas coisas não se contam no primeiro capítulo — tentei ser o mais honesta possível, mantendo o clima leve.

— É justo. — ele respondeu com o que parecia ser um sorriso se formando no canto da boca.

Ele se afastou da bancada e passou por mim, tão perto que pude sentir seu perfume amadeirado misturado com feromônios. Meu corpo reagiu de um jeito que recusei analisar. Antes de sair, ele parou, quase de frente para mim.

— Amanhã… leve o Theo no jardim, mas fique sempre muito atenta. — recomendou.

Meu coração acelerou. O que tinha mudado? Por que ele estava agindo de forma tão acessível? Por que estava sendo tão sensível?

— Pode deixar. — assenti, quase num sussurro.

Ele assentiu e seguiu pelo corredor, deixando para trás uma sensação estranha, intensa e indefinida. Permaneci ali por mais alguns segundos, tentando recuperar o fôlego.

Naquela noite, ao deitar, eu percebi que Arthur Montenegro, não era só um homem difícil. Era um homem em ruínas, tentando manter de pé o que ainda restava de sua vida. E sem perceber, eu já não estava mais apenas cuidando de Theo. Eu estava entrando perigosamente no território emocional do grande Arthur Montenegro. E o mais assustador de tudo, era que, por mais que eu sentisse o perigo daquele ambiente, eu queria ficar.

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