Mundo de ficçãoIniciar sessão(Arthur Montenegro)
Eu saí do escritório com a cabeça latejando. A reunião tinha sido um inferno, acionistas exigindo respostas, números que não fechavam, pressão demais para um dia que já havia começado errado. Quando tudo sai do controle, eu trabalho mais. Sempre funcionou. O trabalho nunca me abandona, nunca me decepciona, nunca morre.
Cheguei em casa louco para entrar na banheira de hidromassagem e esquecer aquele dia. Foi então que vi o quintal. Parei no meio do corredor envidraçado, como se tivesse sido atingido por algo invisível. Theo estava lá fora. No quintal. O lugar que eu havia proibido. Meu primeiro impulso foi a raiva, automática. A regra era simples, eu fui explícito. Aquele espaço não fazia mais parte da rotina da casa. Não desde que… Meu olhar se desviou.
Lívia estava com ele. Ela corria atrás de Theo, fingindo ser alguma criatura imaginária, e meu filho gargalhava. Gargalhava de verdade. Não aquele sorriso contido que ele costuma me oferecer, mas um riso aberto, solto, vivo. Os pés dele tocavam a grama, o corpo inteiro parecia leve, como se por alguns minutos o peso do mundo não existisse.
Meu peito apertou. Aquela cena… Ela não era nova. A memória veio sem pedir permissão. Lindsay estava ali, no mesmo quintal, no mesmo ponto exato. O sol batia nos cabelos dela, e Theo, menor, frágil, ainda aprendendo a existir, corria em círculos enquanto ela o erguia no ar, girando e rindo deliciosamente. Seu sorriso era encantador. Eu me lembrava da forma como ela dizia que aquele quintal era sagrado e que ali a tristeza não tinha direito de entrar.
“Aqui ele pode ser só criança, Arthur — ela dizia — Aqui ele é feliz.”
Eu senti o ar faltar. Por um segundo, apenas um, deixei que aquela lembrança me engolisse e sem perceber, meus lábios se curvaram num sorriso, pequeno e ridículo. Um sorriso que eu não me permitia há anos. Então ouvi a gargalhada de Theo outra vez. E a realidade voltou como uma lâmina. Lindsay não estava ali. Nunca mais estaria.
O sorriso morreu no mesmo instante, minhas mãos suavam e eu endureci novamente. O passado não tinha o direito de me desarmar daquela forma. Abri a porta de vidro com força demais, e o som ecoou pelo quintal. Theo parou de correr com o susto. Lívia se virou rápido, e ficou parada como uma estátua, com os seus lindos olhos redondos e castanhos arregalados.
— Senhor Montenegro… — ela começou.
Eu caminhei até eles com passos firmes, o maxilar travado, ignorando por um segundo o olhar do meu filho. Eu precisava focar nela. Se olhasse para Theo, eu perderia o controle.
— Quantas vezes eu fui claro? — minha voz saiu ríspida, se não me controlasse poderia fazer uma besteira — O quintal é proibido.
Ela respirou fundo, mas não recuou nem baixou os olhos. Tinha algo nessa que mexia comigo. Seus olhos penetravam minha alma e me atingia como uma flecha.
— Eu sei da regra — disse — Mas ele estava triste e precisava disso.
A palavra precisava acendeu algo dentro de mim. Ela não sabia do que ele precisava.
— Você não foi contratada para decidir o que meu filho precisa — respondi — Foi contratada para obedecer. Theo segurou a mão dela.
— Papai… eu tava feliz — ele resmungou com a voz trêmula.
Aquilo doeu mais do que eu esperava, mas eu não podia demonstrar. Não podia ceder. Não ali, muito menos daquele jeito. Desviei o olhar dele e voltei-me para Lívia, ainda mais firme.
— Leve o Theo para dentro… Agora.
Ela hesitou apenas por um segundo. O suficiente para me desafiar sem dizer uma palavra.
— Eu assumo qualquer consequência — respondeu, antes de pegar meu filho no colo.
Fiquei parado, observando os dois se afastarem. O quintal voltou a ser apenas um espaço vazio, silencioso, morto como eu o havia deixado todos esses anos. Passei a mão pelo rosto, sentindo o peso daquela lembrança esmagar o presente. E sentindo a dor da perda me atingir com força.
Não era a desobediência que me enfurecia. Não era o desafio. Era o fato de que, por alguns segundos, aquela mulher tinha devolvido vida a um lugar, e a uma parte de mim, que eu havia enterrado junto com Lindsay. E isso… Isso eu não sabia como perdoar.
Essa garota estava mexendo comigo mais do que eu estava disposto a admitir. E, diferente das outras babás, eu não sabia exatamente como lidar com aquilo. Com as demais, tudo sempre foi simples: distância, autoridade, controle. Com ela, nada funcionava do mesmo jeito.
Havia algo no modo como me encarava, não era afronta declarada, tampouco submissão. Era um desafio silencioso. Um olhar firme, profundo, que atravessava minhas defesas sem pedir permissão. Bastava isso para me tirar do eixo, para despertar em mim uma energia que eu julgava extinta, uma inquietação quase juvenil que eu não sentia havia anos.
Pela primeira vez, eu não conseguia sustentar a postura do homem dominante, do CEO inabalável, do macho alfa acostumado a comandar tudo e todos. Diante dela, minhas certezas vacilavam. Eu me sentia desarmado, exposto e isso me incomodava mais do que deveria. O que aquela mulher tinha para exercer tamanho poder sobre mim? Eu ainda não sabia. Mas tinha certeza de uma coisa: cedo ou tarde, eu descobriria.







