Capítulo 7

Capítulo 7

Henrique Lancaster

A primeira sensação que tive foi dor. Não uma dor comum, mas algo profundo, que pulsava dentro do meu crânio como ondas contínuas. Um peso esmagava minha cabeça, minhas pálpebras pareciam soldadas, e cada tentativa de abrir os olhos fazia o mundo girar descontrolado.

Eu não sabia onde estava.

Não sabia há quanto tempo estava ali.

Só sentia frio… e solidão.

Um barulho distante começou a cortar o silêncio. Vozes. Passos apressados. Algo arrastando na areia. Senti mãos fortes tentando me virar, levantar minha cabeça, alguma língua estranha sendo falada por alguém, não era espanhol, muito menos inglês. Era algo mais gutural, carregado.

Alguém bateu de leve no meu rosto.

— Ei… ei! — a voz era masculina, urgente. — Está vivo! Acho que está vivo!

Quis responder, mas minha boca não se mexeu. Nem um som saiu.

As vozes ficaram mais agitadas, mais próximas. Outro toque no meu ombro, depois braços me puxando. Meu corpo não reagia. Eu só sentia o balanço.

Depois disso, meu mundo escureceu outra vez.

A segunda vez que acordei, ou melhor tentei, não foi muito diferente. Senti um cheiro forte de ervas, algo queimando, e tecidos ásperos tocando minha pele. A superfície onde eu estava deitado era dura, talvez madeira. Um pano foi posto sobre minha testa, úmido, frio.

— Ele tá com febre ainda — disse alguém, mais suave, feminina. — Se for infecção dos pulmões, Deus me livre…

Tentei mover a mão, mas ela parecia presa a algo pesado. Ouvi mais vozes. Risadas. Pratos sendo colocados sobre uma mesa. Balbúrdia de gente simples.

Então, tudo apagou de novo.

Eu não tinha noção do tempo. Podiam ter sido dias, semanas ou horas. Cada vez que emergia da escuridão minha mente parecia pior. Como se estivesse lutando dentro de uma névoa espessa. Às vezes eu ouvia chuva. Às vezes ouvia crianças correndo. Em uma delas, senti alguém trocar a bandagem do meu braço, alguém pingando um líquido amargo entre meus lábios. Eu tossi. Ardeu. Depois dormi novamente.

Uma terceira vez acordei com um cheiro diferente, parecia algo de hospital. Desinfetante forte. Luz branca demais. Um bip constante.

Mas não consegui me manter desperto. Tudo sumiu outra vez.

Enquanto isso…

Meus pais não descansavam.

Assim que receberam a notícia do desaparecimento do jato, o mundo deles virou do avesso. Meu pai interrompeu negociações, cancelou viagens, colocou toda a equipe da LC atrás de informações. Helicópteros foram enviados, equipes de busca, barcos, mergulhadores. Milhões foram gastos sem pensar duas vezes.

Minha mãe entrou em desespero. Ela já tinha perdido um filho no passado, algo que quase ninguém sabia, e a ideia de perder outro parecia arrancar o ar dela todos os dias.

O bebê que Débora carregava se tornou o único motivo dela não enlouquecer de vez. Mas nem isso segurou a tristeza que tomou conta da mansão.

Foram dias.

Semanas.

Depois, meses.

Notícias surgiam, dizendo que pedaços da fuselagem tinham sido encontrados. Depois eram boatos. Depois nada.

As buscas oficiais foram encerradas. As não oficiais, financiadas pelos Lancaster, continuaram.

Até que três meses depois, uma ligação mudou tudo.

Meu pai estava no escritório quando recebeu um telefonema de um pescador espanhol, de um vilarejo remoto, dizendo que tinha encontrado “um homem alto, de olhos claros, com relógio caro e pulseira com as iniciais H.L.” meses atrás, mas achou que ele não sobreviveria para ser alguém importante.

Meu pai derrubou a caneta.

Minha mãe começou a chorar antes mesmo de ouvir o resto.

Eles embarcaram no mesmo dia para o vilarejo.

Acordei completamente pela primeira vez quando ouvi uma voz em inglês, clara, autoritária.

— Henrique… Henrique, você consegue me ouvir?

Piscando devagar, percebi um teto branco. Equipamentos ao meu lado. Cheiro de hospital moderno, diferente daquele lugar onde eu acho que estive, e depois tudo foi me contado.

Tentei virar a cabeça, mas uma dor aguda me fez gemer.

Uma figura se aproximou. Um médico. Britânico pelo sotaque.

— Calma. Você está seguro. Está em Londres. Foi transferido para cá há alguns dias. Chegou em coma. Seu corpo estava desidratado, com infecção pulmonar grave e múltiplas contusões.

Eu piscava devagar, tentando juntar imagens, momentos… qualquer coisa que fizesse sentido.

— Quanto… tempo? — Minha voz saiu um sussurro fraco, arranhado.

— Cerca de três meses desde o acidente.

Três meses.

Três.

Meu coração acelerou. Era impossível. Não podia ter passado tanto tempo.

Minhas mãos tremeram.

— Meus pais…?

A porta se abriu antes que ele respondesse.

Minha mãe entrou primeiro, desabando em lágrimas tão fortes que eu senti uma culpa que não sabia explicar. Ela correu até a cama, segurou meu rosto com as duas mãos.

— Meu filho… meu Deus… meu filho…

As palavras mal saíam. Meu pai estava atrás, tentando manter a postura, mas os olhos vermelhos entregavam tudo.

Ele se aproximou devagar, colocando a mão grande em meu ombro.

— Henrique… — sua voz falhou. — Você voltou pra nós, filho.

Eu tentei sorrir, mas minha boca tremia.

Eles ficaram ali por um tempo que eu não consegui medir. Minha mãe me acariciava o cabelo como se eu fosse uma criança de novo. Meu pai explicava que tinham procurado por mim sem descansar um dia. Que só uma pista os levou àquele vilarejo esquecido. Que quase perderam a esperança.

Eu absorvia tudo como alguém que está ouvindo sobre a vida de outra pessoa.

Quando finalmente ficamos a sós, o médico voltou.

— Henrique, preciso fazer algumas perguntas. São importantes.

Assenti, ainda fraco.

— Você se lembra do acidente?

Tentei puxar a imagem. Nada. Só flashes borrados: o barulho, o estrondo, a dor, a água… e depois escuridão.

— Não muito — respondi.

— E antes disso? A última semana… talvez mês… lembra?

Fechei os olhos, tentando forçar alguma coisa.

Mas era como tentar segurar fumaça.

— Eu lembro de ir trabalhar… acho. E da mansão… eu casei com a Débora?…

O médico anotava tudo.

Mas havia algo faltando.

Um vazio estranho.

— Você lembra de… algo mais?

Tentei outra vez.

Uma sensação passou por mim, como se algo muito importante estivesse escondido à força.

Mas não vinha imagem nenhuma.

— Não… não lembro — falei, frustrado. — Tem algo que eu deveria lembrar?

O médico respirou fundo.

— Sua memória recente foi afetada. É comum após longos períodos de coma e traumas cranianos. Pode ser temporário, pode ser permanente. Não podemos afirmar ainda.

Meu peito apertou. Eu não sabia exatamente o que tinha perdido, mas sabia que tinha perdido alguma coisa importante. Algo que ardia como uma ausência.

Meus pais insistiram para eu descansar. Saíram com a promessa de voltar pela manhã.

Quando a porta fechou e o quarto ficou silencioso, uma inquietação tomou conta de mim.

Tentei puxar qualquer lembrança.

Qualquer rosto.

Qualquer detalhe.

Nada.

E ao mesmo tempo, algo queimava no fundo da mente, como uma sombra que eu não conseguia alcançar.

Uma mulher.

Mas sem rosto.

Sem voz.

Sem nome, deve ser a Débora? Só pode, afinal eu me casei com ela, meus pais afirmaram.

Apenas uma sensação, quente, forte, arrebatador, que desaparecia sempre que eu tentava segurar e afirmar que era ela a mulher, estranho, muito estranho.

Eu não sabia quem era.

E que, de alguma forma inexplicável…

Eu tinha perdido algo que não conseguia lembrar.

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