Mundo de ficçãoIniciar sessãoCapítulo 8
Henrique Lancaster Fiquei no hospital por um longo período. Dias que pareciam meses, meses que pareciam anos. Débora me visitava todos os dias, sempre com aquele sorriso treinado, sempre com fotos do nosso casamento, da lua de mel… como se, mostrando tudo aquilo repetidas vezes, ela pudesse encaixar as peças que faltavam na minha cabeça. Mas não adiantava. Eu não lembrava de nada. Nada do último mês antes do acidente. Era assustador carregar um buraco dentro de mim. Um vazio silencioso, pesado, incômodo, como se uma parte da minha vida tivesse sido arrancada sem anestesia. E, estranhamente, toda vez que eu tentava alcançar aquela lacuna, o que queimava em mim não tinha o rosto dela. A sensação de paixão intensa, urgente, vinha sempre acompanhada de um vulto borrado, um perfume que eu não reconhecia, um toque que não era o de Débora. E eu sabia. Meu corpo sabia. Meu coração sabia. Não era por ela. Mas talvez eu nunca lembrasse. Talvez aquilo fosse ficar perdido no escuro para sempre. Optamos por não saber o sexo do bebê até o nascimento. Minha irmã Bárbara, que fazia faculdade em Nova York, chegou alguns dias depois. Ela nunca suportou a Débora, e, sinceramente, eu preferia nem tentar entender isso naquele momento. O simples fato de ter minha irmã ali já deixava o ambiente menos sufocante. Ela sempre dizia tudo que pensava. E, naquele dia, enquanto mexia nas coisas no meu quarto, ela soltou: — Você não acha estranho essa mania dela não deixar ninguém pegar na barriga? — Ela não gosta, Bárbara. É o corpo dela — respondi cansado. — Sei lá. Acho estranho. — Ela cruzou os braços, sempre desconfiada. — É porque você não gosta dela. Por isso acha estranho. Ela riu sem humor. — Não é como se você gostasse também, irmão. Aquilo me atingiu no estômago. — Deixa isso pra lá. Ela tá esperando um filho meu, achou que eu tinha morrido, e agora tem que lidar com um marido acamado. Não deve estar sendo fácil pra ela. — Para, Henrique. Você acha mesmo que ela liga? Ela não te ama. É só dinheiro. Te garanto que, se oferecer dinheiro quando o bebê nascer… ela some. — Claro que não, Bárbara. Isso é impossível. Impossível. Ou será que… não? E, se desaparecesse… seria mesmo tão ruim? Esses pensamentos me assombraram por dias. Depois de seis meses entre coma e recuperação, eu tentava retomar minha vida. Era estranho voltar a viver enquanto carregava um buraco enorme dentro de mim. O médico insistiu que ninguém deveria forçar nada. Que, se a memória tivesse que voltar, voltaria. Então tentamos seguir. Vida que segue, depois de um livramento desse… certo? Só que não. O vazio quase me consumia quando eu tentava forçar demais. A fisioterapia estava dando resultado, eu conseguia me levantar com apoio e dar alguns passos. O quarto do bebê estava pronto. A gestação seguia bem. E, ainda assim, Débora e eu parecíamos dois desconhecidos vivendo sob o mesmo teto. Ela dizia que eu precisava de espaço e passou a dormir em outro quarto. Eu não reclamei. No fundo… eu preferia assim. Com o tempo passando, a única coisa que realmente me animava era imaginar meu filho ou filha nos meus braços. Eu tinha certeza: sobrevivi por esse bebê. Eu precisava ser forte por ele. Débora decidiu passar alguns dias na casa dos pais, dizia estar indisposta por causa do final da gestação. Pedi que ela me avisasse quando chegasse a hora… e rezei para estar lá. Numa noite fria de inverno, eu estava com Bárbara: lareira acesa, vinho na mesa, e um jogo de Uno que ela fazia questão de ganhar para me irritar. A nevasca lá fora engrossava rapidamente quando meu celular tocou. Ao atender, ouvi a voz dela trêmula: — Amor… chegou a hora. Minha bolsa estourou. O chão sumiu dos meus pés. — Meu Deus… — sussurrei, tentando pensar rápido. — Débora, você precisa ir para o hospital. Eu vou… eu vou tentar sair daqui o mais rápido possível. — Eu liguei pro meu pai. Ele tá vindo me buscar. A doula também. O motorista tá de folga e minha mãe tá muito nervosa. Não vou arriscar que ela dirija nessa nevasca. — Certo. Você está certa, mas por favor, me avise de tudo. Assim que desliguei, Bárbara comentou: — Que dia propício pra ela dar à luz, não? — disse, com sarcasmo. — Por Deus, Bárbara, agora não! — levantei, sentindo o desespero tomar conta. — Me ajuda. Eu preciso ir. Meu filho não pode nascer sem mim. Ela abriu os braços, impotente. — Não temos como sair. A não ser que você saiba colocar correntes nos pneus. E mesmo que saiba… você não vai conseguir. — Inferno! — bati a mão na mesa. — O que eu faço?! — Eu vou ligar pro papai. Talvez ele consiga vir buscar a gente. — Liga. Agora! Ela ligou. Nosso pai atendeu dizendo que já estava a caminho. Esperei. Minutos. Horas. Neve caindo sem parar. Ele deveria ter chegado. Mas nada. Tentei ligar novamente. Sem resposta. Quando finalmente consegui falar com a mãe de Débora, já era madrugada. — Seu filho nasceu… — ela disse, a voz embargada. — É um menino. Meu coração disparou. Mas não era alegria. Era medo. Meus pais não atendiam. Nenhuma ligação retornada. Nenhuma notícia. Algo aconteceu no trajeto. Eu senti.Meu peito gritava isso. E a culpa queimava como fogo. Por eu ter insistido. Por eu ter pedido que eles viessem. Por eu ter colocado todo mundo numa tempestade de neve por orgulho. E enquanto o mundo lá fora era só neve silêncio… Algo dentro de mim estava prestes a ruir, e eu mal sabia como sair do lugar.






