Mundo de ficçãoIniciar sessãoSe a entrada da mansão era intimidadora, o quarto que Killian reservou para mim era uma armadilha de conforto. Era maior que todo o meu antigo apartamento. As paredes eram de um tom creme suave, com cortinas de seda que iam do teto ao chão. A cama era vasta, coberta por lençóis de algodão egípcio que pareciam nuvens.
Mas o que me paralisou foi a penteadeira. Sobre ela, havia um frasco do meu perfume favorito — um que eu só conseguia comprar em amostras grátis — e um porta-joias de veludo. Ele não tinha apenas me contratado; ele tinha me estudado. Cada detalhe daquele quarto gritava que eu não era apenas uma funcionária. Eu era uma convidada de honra em uma prisão de ouro. — Gostou? — A voz de Killian ecoou na porta. Ele estava encostado no batente, observando minha reação com aquela paciência predatória. — É... demais, senhor Montenegro. Eu não preciso de tudo isso. — Precisa. Você não terá mais nada que seja menos que o melhor — ele afirmou, com uma possessividade que me fez estremecer. — Venha. Os gêmeos estão esperando. Fui conduzida até a ala leste. No quarto de brinquedos, duas crianças idênticas estavam sentadas em um tapete felpudo. — Safira, estes são Sebastian e Beatrice — apresentou Killian, e notei que o olhar dele se suavizava apenas um milímetro ao olhar para os filhos. Sebastian tinha os olhos azuis do pai, mas um sorriso curioso. Beatrice era mais séria, observadora mais com uma inteligência que parecia avançada demais para os seus quatro anos. — Você é a moça dos livros? — Sebastian perguntou, levantando-se. — Papai disse que você conhece todas as histórias. Sebastian correu até mim e segurou minha mão. — Ele disse que você ia morar aqui para sempre. Olhei para Killian, surpresa. Para sempre? Ele apenas desviou o olhar, um sorriso enigmático nos lábios. Passei a tarde com eles, e, pela primeira vez em anos, minha mente não estava no vício da minha mãe ou nas ameaças do meu padrasto. Sebastian e Beatrice eram apaixonantes, embora houvesse neles uma carência que só o dinheiro não conseguia resolver. O Jantar À noite, Killian insistiu que eu jantasse com eles na mesa principal, e não na cozinha. O clima era estranhamente descontraído, apesar da imponência da sala de jantar. — Sebastian, use o guardanapo — Killian instruiu, mas o tom era quase divertido enquanto o menino tentava, sem sucesso, equilibrar uma ervilha no garfo. — Safira, você gosta de patinação no gelo? — Beatrice perguntou, com a boca suja de molho. — Eu nunca tentei, querida. Na minha rua não tinha onde patinar — respondi, rindo baixo. Killian parou o garfo no meio do caminho. Seus olhos se fixaram em mim. — Agora tem. Há uma pista de gelo privativa na propriedade sul. Podemos ir amanhã. — Não precisa se dar ao trabalho... — comecei, mas ele me cortou com um olhar intenso. — Não é trabalho, Safira. É uma compensação pelos dez anos que você passou sem o que merecia. O jantar seguiu entre risadas das crianças e perguntas curiosas de Sebastian sobre "como era o mundo lá fora". Killian falava pouco, mas sua presença preenchia todo o espaço. Ele limpou pessoalmente uma mancha de suco no rosto de Beatrice, um gesto tão humano que quase me fez esquecer o homem sombrio do escritório. Quase. Pois, toda vez que eu levantava o olhar, encontrava os olhos dele em mim. Ele não estava comendo. Ele estava me observando viver. — Amanhã, as roupas novas chegam — Killian disse, enquanto as crianças eram levadas pelo mordomo para dormir. — Quero que se sinta em casa, Safira. Mas lembre-se: "casa" agora é onde eu estou. Ele se levantou e caminhou até mim. Antes de sair, ele inclinou-se e beijou o topo da minha cabeça — um gesto breve, mas que queimou como fogo. — Durma bem, minha pequena. Você está finalmente segura. Fiquei sozinha na mesa, o coração disparado. Eu estava segura do meu padrasto, sim. Mas quem me protegeria do homem que me vigiava há uma década e agora me tinha sob seu teto?






