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Capítulo 3: O Santuário das Sombras

Após o jantar, o silêncio na mansão Montenegro parecia mais tenso. Killian havia se retirado para o escritório, e eu aproveitei para subir e conferir os gêmeos. Sebastian e Beatrice já dormiam profundamente. Dei um beijo na testa de cada um e saí do quarto na ponta dos pés.

Foi então que vi. No final do corredor da ala privativa, uma porta que eu sempre só a via trancada estava entreaberta. Um brilho azulado e frio escapava pela fresta.

Aproximei-me, o coração martelando contra o peito. Empurrei a porta apenas alguns centímetros, o suficiente para o meu mundo desabar.

Lá dentro, em um relance rápido, vi o que parecia ser uma exposição de galeria, mas o tema era eu. Vi uma parede coberta por centenas de fotos minhas tiradas ao longo do tempo de longe — eu na biblioteca, eu chorando no ponto de ônibus, eu dormindo através da janela do meu antigo prédio. Vi um pedestal de vidro que exibia algo que me fez perder o fôlego: o prendedor de cabelo de borboleta que eu achei ter perdido no metrô há cinco anos.

Era um santuário de uma década. Killian não me contratou. Ele me capturou.

— A senhorita não deveria estar aqui.

O sussurro ríspido atrás de mim me fez soltar em um pulo. Girei o corpo, o coração na garganta, e dei de cara com Alfred, o mordomo.

Ele estava parado nas sombras, com a postura impecável e o rosto pálido, mas seus olhos brilhavam com uma advertência sombria. Ele fechou a porta com um estalo seco, escondendo o segredo de Killian, mas a imagem das fotos já estava queimada na minha mente.

— Alfred... o que é tudo isso? — perguntei, minha voz tremendo violentamente. — Por que ele tem fotos minhas de dez anos atrás? Por que ele tem minhas coisas perdidas?

O mordomo não recuou. Ele deu um passo à frente, sua sombra grande sobre mim sob a luz fraca do corredor.

— O senhor Montenegro é um homem de paciência infinita, Safira — Alfred disse, sua voz desprovida de qualquer emoção. — Mas ele odeia curiosidade. Sugiro que volte para o seu quarto e finja que nunca viu isso. Para o seu próprio bem.

— Você sabia? — apontei para a porta, horrorizada. — Você o ajudou a me vigiar?

Alfred apenas inclinou a cabeça, um gesto frio e mecânico.

— Eu sirvo à família Montenegro há quarenta anos. Eu protejo o que pertence a eles. E, há muito tempo, o senhor Killian decidiu que a senhorita pertence a esse lugar.

O som de passos pesados ecoou no início do corredor. O som de sapatos de couro caro contra o mármore. Killian estava chegando.

— Ele está vindo — Alfred sussurrou, e pela primeira vez vi um rastro de algo parecido com medo — ou talvez apenas respeito absoluto — em seus olhos. — Entre no seu quarto agora, Safira. Antes que ele perceba que a caça saiu da trilha.

Corri para o meu quarto, fechando a porta e trancando-a com as mãos trêmulas. Segundos depois, ouvi o som de Killian parando no corredor. O silêncio que se seguiu foi pior do que qualquer grito. Eu sabia que ele estava ali, parado do outro lado da madeira, sentindo o meu medo.

A noite foi um deserto sem sono. Passei cada hora olhando a porta, esperando que a maçaneta girasse, mas Killian permaneceu no silêncio do corredor. No dia seguinte, o sol que invadiu o quarto pela manhã não trouxe alívio. Eu me sentia como uma borboleta espetada por um alfinete em uma coleção luxuosa.

Ao descer para o café da manhã, minhas pernas vacilaram. Killian já estava à mesa, impecável em um terno cinza-chumbo, lendo o jornal como se não fosse o dono de um santuário de obsessão. Sebastian e Beatrice não estavam lá; Alfred os levou para o jardim. Estávamos sozinhos.

O silêncio era uma corda sendo esticada.

— Sente-se, Safira. Coma — ele disse, sem levantar os olhos. — Você está pálida.

— Eu não tenho fome — respondi, minha voz saindo mais firme do que eu esperava. — O que era aquilo ontem à noite, Killian? As fotos... as minhas coisas...

Ele largou o tablet e, finalmente, fixou aqueles olhos de tempestade em mim. Não havia vergonha neles. Havia apenas uma satisfação possessiva.

— Alfred me contou que você se perdeu no corredor. Eu imaginei que sua curiosidade a levaria até lá eventualmente. — Ele se inclinou para frente, entrelaçando os dedos sobre a mesa. — O que você viu é a história da minha vida e minha ruína nesses últimos dez anos. Cada passo seu, cada dor, cada vitória. Você acha doentio? Eu chamo de zelo.

— Você me vigiou como um animal! — exclamei, sentindo as lágrimas de raiva subirem.

— Eu vigiei para saber quando agir. E ontem à noite, enquanto você tremia atrás daquela porta, eu agi.

Ele deslizou um envelope pardo sobre a mesa de madeira. Com as mãos trêmulas, eu o abri. Dentro, havia fotos. Mas não eram minhas. Eram fotos de Roberto, meu padrasto. Ele estava sentado em uma calçada imunda, com as mãos enfaixadas e um olhar de terror absoluto, sendo colocado em um carro de polícia.

— O que você fez? — sussurrei.

— O que deveria ter sido feito há dez anos — Killian respondeu com uma calma glacial. — Roberto não vai mais incomodar você, nem sua mãe. Ele foi pego com uma quantidade de substâncias ilícitas que eu mesmo garanti que estivessem no bolso dele. Ele passará o resto dos dias em uma cela onde ninguém ouvirá seus gritos. E as mãos que tocaram em você... digamos que ele nunca mais conseguirá fechar um punho.

Um misto de horror e um alívio pecaminoso me atingiu. Eu estava livre do meu agressor, mas o homem à minha frente era muito mais perigoso do que Roberto jamais foi.

— Você acha que isso apaga o que você fez? — perguntei. — Que me comprar com a segurança da minha mãe e o fim do meu padrasto me faz esquecer que você é um perseguidor?

Killian se levantou e caminhou até mim. Ele não parou até que seus joelhos tocassem os meus. Ele se inclinou, as mãos apoiadas nos braços da minha cadeira, prendendo-me.

— Eu não quero que você esqueça, Safira. Eu quero que você entenda. O mundo lá fora te machucou. E eu sou o único que te manteve inteira, mesmo sem você saber. — Ele tocou meu lábio inferior com o polegar, um gesto carregado de uma tensão que me fez perder o fôlego. — Eu sei que você viu o quarto. Eu sei que agora você tem medo de mim. Mas o medo é apenas o começo da aceitação.

Ele se aproximou do meu ouvido, sua voz baixando para um tom perigosamente íntimo:

— Você não vai sair desta casa, Safira. Não porque eu te trancar, mas porque você vai perceber que o único lugar onde você está realmente segura... é sob o meu olhar. Agora, tome seu café. Temos um dia longo com as crianças.

Ele se afastou, deixando-me trêmula e confusa. Ele tinha acabado com o meu maior pesadelo, apenas para se tornar o dono de todos os meus sonhos futuros.

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