A babá e o bilionário : fora das regras
A babá e o bilionário : fora das regras
Por: B. R. Vale
prólogo : observador e capítulo 1

Dez anos atrás

O vidro fumê do carro era a única coisa que me separava o meu mundo dela. Do lado de dentro, o cheiro de couro italiano, o silêncio e o poder que o sobrenome Montenegro carregava. Do lado de fora, a chuva fina de outono e ela.

Ela não sabia que eu estava ali. Nunca soube

Ela atravessou a rua rindo, os cabelos ruivos liso úmidos grudando no rosto, segurando o celular que estava lendo. Tão jovem. ela não tinha ideia de tão linda que estava...

— Ela é apenas uma estudante, senhor — a voz do meu motorista saiu cautelosa, quase um aviso.

Eu não respondi. Meus olhos não deixavam o rastro dela. Naquele momento, eu não via apenas uma garota. Eu via a peça que faltava no meu coração. Eu não sentia amor; eu não sabia o que era isso. O que eu sentia era um aperto forte no peito que só poderia ser descrito como fome, que me levaria uma década para ser saciada.

Eu poderia ter descido do carro. Poderia ter forçado um encontro, comprado o seu tempo, usado o meu dinheiro para cercá-la naquele momento. Mas eu conhecia as regras do jogo. Se eu a tomasse agora, ela murcharia. Eu precisava que o mundo a cansasse. Eu precisava que a vida a deixasse sem saídas, até que o único caminho fosse eu.

— Dez anos — sussurrei para o vidro frio, vendo-a desaparecer na entrada da biblioteca. — Eu posso esperar dez anos para ter você exatamente onde eu quero.

Ela era o meu segredo mais bem guardado. Minha maior obsessão. E, enquanto ela caminhava sem olhar para trás, mal sabia que cada passo que dava, cada escolha que fazia, estava sendo silenciosamente orquestrada por mim.

Eu não queria ser o herói da história dela. Eu queria ser o dono de cada respiração que ela desse.

O cronômetro havia começado a correr. E Killian Montenegro nunca perdia um prazo.

Capítulo 1: O Convite do Abismo

Dizem que o desespero tem um cheiro específico. Para mim, ele cheirava a café barato e ao mofo do apartamento da minha mãe

Eu encarava o aviso de despejo sobre a mesa, as letras vermelhas parecendo gritar comigo. Eu tinha exatamente três dias para conseguir uma quantia que, na minha atual situação, parecia um bilhão. Eu era uma estudante de pedagogia com um currículo impecável e uma conta bancária desastrosa.

Até que o telefone tocou.

— Senhorita Safira? — A voz do outro lado era fria, profissional, o tipo de voz que nunca precisou pedir por nada. — Estou ligando da Mansão Montenegro. O senhor Montenegro analisou seu perfil e gostaria de uma entrevista imediata para a vaga de governanta e babá do seus herdeiros.

Eu travei. Eu nunca tinha enviado meu currículo para os Montenegro. Ninguém "enviava" currículos para a família que praticamente era dona da metade do país. Eles escolhiam. Eles caçavam.

— Eu... eu estarei aí — respondi, minha voz falhando.

Uma hora depois, eu estava parada diante de portões de ferro tão altos que pareciam querer tocar o céu nublado. A mansão Montenegro não era uma casa; era uma fortaleza de mármore que escondia segredos.

Enquanto eu caminhava pelo corredor principal, escoltada por um segurança que não disse uma única palavra, senti um arrepio estranho subir pela minha espinha. A sensação era de que mil olhos estavam fixos em mim, embora o corredor estivesse vazio. Era uma sensação familiar, um peso que eu sentia às vezes na rua, em bibliotecas, em cafés... como se eu estivesse sendo observada por anos.

Bobagem, Safira. É apenas o nervosismo, pensei, apertando as mãos suadas no tecido do meu vestido simples.

O segurança parou diante de duas portas de carvalho maciço.

— Ele está à sua espera.

Ele nem precisou anunciar meu nome. Quando as portas se abriram, o escritório estava mergulhado em uma penumbra luxuosa. O cheiro de sândalo e tabaco caro me atingiu primeiro. E então, eu o vi.

Ele estava de pé, de costas para mim, olhando pela imensa parede de vidro que dava para os jardins. Killian Montenegro. Seus ombros eram largos, cobertos por um paletó que parecia custar mais do que a minha vida inteira.

— Sente-se, Safira — ele disse. Sua voz era um barítono profundo que vibrou dentro do meu peito.

Ele não se virou de imediato. Ele esperou que eu me sentasse, que eu ficasse desconfortável no silêncio, que eu sentisse o peso da sua presença. Quando ele finalmente girou a poltrona, eu perdi o fôlego.

Seus olhos eram azul, como um oceano, tão profundo e intenso e eles não me olharam com a curiosidade de uma funcionária. Eles me olharam com o reconhecimento de quem finalmente havia encontrado algo que estava perdido.

— Você está atrasada — ele murmurou, um meio sorriso sombrio brincando em seus lábios. — Dez anos atrasada, para ser exato.

Eu franzi a testa, o coração martelando contra o peito.

— Dez anos? Eu não entendo, senhor Montenegro. Eu nunca o vi antes na minha vida.

Killian se inclinou para frente, apoiando os cotovelos na mesa de ébano. O olhar dele era predatório, possessivo, e por um segundo, eu tive a nítida sensação de que não estava em uma entrevista de emprego. sim estava entrando em uma gaiola de ouro.

— Você não me viu, Safira. Mas eu nunca tirei os olhos de você.

As palavras dele — “Eu nunca tirei os olhos de você” — flutuaram no ar como uma promessa perigosa. Eu deveria ter levantado e saído correndo dali. Mas eu não podia. Minhas pernas pesavam e, no fundo da minha mente, a imagem da minha realidade lá fora era muito pior do que qualquer coisa que aquele homem pudesse representar.

— O senhor... deve estar me confundindo — gaguejei, tentando manter a postura. — Eu sou apenas uma estudante. Preciso do emprego para pagar minhas contas e...

— E para tirar sua mãe da rua? — Killian interrompeu, sua voz cortante como uma lâmina. — Ou para impedir que o seu padrasto, o homem que você chama de Roberto, quebre mais uma das suas costelas na próxima vez que ficar bêbado e não encontrar dinheiro em casa?

O sangue fugiu do meu rosto. Eu senti como se ele tivesse me despido, não das roupas, mas da minha alma. Ninguém sabia do vício da minha mãe. Ninguém sabia que as marcas roxas que eu escondia com base e golas altas eram as mãos de Roberto.

— Como você sabe disso? — minha voz saiu como um sussurro.

Killian se levantou. Ele contornou a mesa com passos lentos, como um lobo que já sabe que a caça não tem para onde fugir. Ele parou a poucos centímetros de mim. O calor que emanava dele era opressor.

— Eu sei quantas vezes você chorou no banheiro da biblioteca da faculdade. Sei que você deixa de comer para comprar os remédios dela, que ela vende logo em seguida por uma dose. — Ele estendeu a mão, mas não me tocou. Seus dedos apenas pairaram perto do meu rosto. — Eu sei que você vive no inferno, Safira. E eu estou aqui para te oferecer o céu. Mas o meu céu tem regras.

— Quais regras? — perguntei, hipnotizada por aquele olhar azul.

Killian se inclinou, sussurrando perto do meu ouvido, e o cheiro de sândalo me embriagou.

— Regra número um: Você não sai desta propriedade sem a minha autorização. Regra número dois: Você não esconde nada de mim. Nem um pensamento, nem uma dor. Regra número três... — Ele finalmente tocou meu queixo, forçando-me a encará-lo. — Você é minha. Não apenas a babá dos meus filho, mas minha maior prioridade. Em troca, sua mãe será internada na melhor clínica do país hoje mesmo. E quanto ao seu padrasto...

Ele fez uma pausa, e um brilho sombrio, cruel passou por seus olhos.

— Digamos que Roberto nunca mais terá mãos para tocar em nada que me pertence.

Um calafrio de medo e alívio percorreu meu corpo. Era errado sentir aquela paz sabendo que ele estava sendo possessivo e possivelmente perigoso? Talvez. Mas, pela primeira vez em dez anos, eu não senti que estava carregando o mundo sozinha.

— Por que eu? — perguntei, com o coração na garganta. — Por que esperar dez anos por alguém como eu?

Killian deu um sorriso curto, sem qualquer sinal de bondade.

— Porque algumas coisas são bonitas demais para serem compartilhadas, Safira. E eu sempre soube que você seria a minha ruína... ou a minha redenção.

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