🥀 Capitulo 3🥀

Hannah Brooks

Sete e cinquenta da manhã de uma terça-feira. O sol lá fora está radiante, mas a cozinha dos meus pais parece um tribunal soviético. E, para variar, eu sou a ré.

— Família ajuda família, Hannah. Você não pode simplesmente lavar as mãos e fingir que não é contigo — minha mãe dispara, usando aquela voz chorosa de quem ensaiou o drama no espelho.

— Eu não estou lavando as mãos — respondo, mantendo o tom de voz dois tons abaixo do dela para não perder a razão. — Só não vou financiar o hospício.

— Mas, filha, a sua irmã precisa...

— Não, mãe. Ela *quer*. São verbos bem diferentes.

Olho para a Amelie, que está encostada na geladeira com cara de poucos amigos. Ela não trabalha, não estuda e a maior realização da vida dela até hoje é fingir que é influenciadora digital para pouco mais de cem seguidores no I*******m.

Agora, a nova pauta da mesa de café da manhã é que eu deveria trancar a minha faculdade — a mesma que eu pago trabalhando meio período — para dar o dinheiro das mensalidades de entrada em um carro para ela.

Solto uma risada curta, sem a menor vontade de rir.

— Cadê as câmeras? Onde é que o apresentador do programa de pegadinhas vai entrar para me dizer que isso é piada?

— Você não entendeu que eu *preciso* de um carro? — Amelie aumenta o tom de voz, cruzando os braços. — Todas as minhas amigas já dirigem. Algumas têm até apartamento. Não é justo eu ainda morar com os nossos pais!

Arqueio uma sobrancelha. A capacidade dela de se fazer de vítima devia ser estudada pela ciência.

— E desde quando o seu padrão de vida virou um problema meu?

— Você é minha irmã mais velha! Devia me apoiar por querer ser independente! — Ela bufa, batendo o pé como uma criança de cinco anos que não ganhou o doce no supermercado.

— Eu apoiaria a sua independência com o maior prazer do mundo... se ela não saísse do meu bolso. Não vou queimar o meu futuro para virar o seu banco particular, Amelie. Esquece.

Minha mãe bota a mão no peito, ultrajada com a minha falta de "espírito familiar".

— Querida, ninguém está pedindo para você desistir do seu futuro. Estamos sugerindo que você atrase um pouco. Um ano, talvez dois. Só para dar um empurrãozinho na sua irmã.

— Ou ela pode fazer o que qualquer pessoa de vinte anos faz: criar vergonha na cara e arrumar um emprego.

Pego minha mochila na cadeira e jogo nos ombros antes que o teto da casa desabe de vez.

— Preciso ir. Tenho uma aula agora. Uma aula que eu pago, aliás.

Saio batendo a porta da frente antes de ouvir o próximo argumento magnífico.

Caminho pela calçada em direção ao ponto de ônibus, respirando o ar puro da manhã para limpar o estômago. O show de horror de minutos atrás não é novidade; é o roteiro padrão daquela casa. A única diferença é que eu cansei de baixar a cabeça. Aquela chantagem emocional barata que funcionava quando a gente era criança perdeu a validade.

A verdade é que a Amelie nunca teve uma responsabilidade na vida. A maior delas foi cuidar de um cacto que ganhou de aniversário — e que conseguiu matar afogado em duas semanas. Ela foi criada achando que o mundo tem uma dívida histórica com ela, e meus pais são os fiadores desse delírio.

O ônibus dobra a esquina bem na hora. Subo, passo a roleta e me espremo em um dos bancos do fundo. Coloco os fones de ouvido no volume máximo. Pelo menos nas próximas duas horas, o resto do mundo está no mudo.

Cael Sterling

— Eu só preciso que você o busque na escola e o leve direto para casa, Mia. — Minha voz sai controlada demais, no limite exato antes de eu arremessar o celular contra o vidro da janela. — O Xavier levou o carro para a revisão. Só isso. Não quero meu filho enfiado em lanchonete comendo lixo industrializado.

Do outro lado da linha, o silêncio dura dois segundos. O tempo exato para eu prever o contra-ataque.

— E desde quando eu sigo o teu cronograma, Cael? — ela retruca, destilando deboche. — Eu sou a tia, tenho direitos. Se eu decidi que o Theo vai comigo naquela lanchonete nova perto do colégio, ele vai. Aceita que dói menos.

Fecho os olhos, pressionando o polegar contra a têmpora para conter a enxaqueca. Discutir com a Mia é o equivalente a negociar com uma adolescente mimada — com a diferença de que ela tem um limite bancário sem teto e zero medo das consequências.

— Eu sou o pai dele, Mia. — Reduzo o tom, deixando a ameaça implícita. — E estou dizendo que você não vai...

— E eu sou a tia — ela corta, sem o menor respeito pela minha autoridade. — Vamos comer hambúrguer. Beijo, tchau.

A linha fica muda.

Olho para a tela apagada do celular, estático. Passo a mão pelo rosto, empurrando o cabelo para trás enquanto tento resgatar o que me sobra de sanidade.

Eu amo a minha irmã. Amo aquela praga insuportável e teimosa. Mas responsabilidade, definitivamente, não é o forte da Mia.

No escritório, ela é uma máquina.

Brilhante, cirúrgica, destrói a concorrência sem piscar. Mas no segundo em que passa da porta giratória para o mundo real, a vida pessoal dela vira um desastre iminente. Trinta anos, solteira convicta, zero planos de sossegar. Mia é a encarnação da "tia legal" — não só para o Theo, mas para a Savannah e o Ethan, filhos do meu irmão mais velho, Sebastian.

Ela é a tia legal porque sabota todas as regras que os pais impõem.

O ápice dessa inconsequência aconteceu a meses atrás.. Numa sexta-feira, sem dar um único aviso, Mia passou na escola, pegou a Savannah e o Ethan e simplesmente evaporou. Nenhuma mensagem, nenhuma ligação, celular desligado.

A Savannah tem onze anos. O Ethan, treze.

O Sebastian e a Ayla entraram em completo desespero. Passamos dois dias no inferno, sem pista nenhuma. Já estávamos com a polícia de prontidão quando a criatura resurgiu na noite de domingo, sorrindo como se tivesse levado os sobrinhos para dar uma volta no quarteirão.

A Savannah voltou com o cabelo pintado de azul-turquesa.

O Ethan, com um piercing no nariz.

A briga em família quase quebrou o teto da casa. Gritos, ameaças de processo, promessas de cortar o contato. E a Mia? Ficou ali, servindo de escudo para os dois, discursando sobre "liberdade de expressão" e "fases do amadurecimento". É um argumento lindo, até você ser o pai que passou quarenta e oito horas achando que os filhos tinham sido sequestrados.

No fim, ninguém fez nada. Se proibirmos a Mia de ver os moleques, ela faz algo três vezes pior só pelo desafio.

Com o Theo ela ainda não cruzou essa linha, provavelmente porque ele é pequeno demais para os delírios de rebeldia estética dela. Mas ela já cruzou o país com o meu filho sem a minha autoridade.

Eu estava do outro lado do mundo fechando um contrato de milhões quando descobri que meu filho de três anos estava em um voo doméstico com uma maluca. Quase infartei.

Ela é um perigo público.

E o pior de tudo? O resto da família ainda compra o teatro dela e finge que está tudo bem.

》☆☆☆☆☆☆《

Mia Sterling

Estaciono o carro em frente à escola do Theo com o sorriso de quem acabou de vencer uma guerra invisível. Vai ter hambúrguer, sim, e com o combo completo de batata frita. Quer o Cael queira, quer não.

Desligo o motor, jogo os óculos escuros para o topo da cabeça e saio para o asfalto quente. Por um segundo, cogito se não estou mesmo criando um pequeno monstro anárquico, mas espanto o pensamento. A vida já é séria demais; o garoto merece um pouco de gordura trans e subversão assistida.

Caminho até a entrada cumprimentando metade dos funcionários pelo nome. Como sou eu quem busca o Theo em noventa por cento das vezes, se um dia eu faltar, a secretaria provavelmente liga para a polícia achando que o apocalipse começou.

Entro no corredor principal, engolindo aquele eco clássico de gritaria infantil. Na sala do Theo, o caos da saída está no auge: peças de Lego voando, risadinhas e mochilas de rodinha colidindo. Meu sobrinho está sentado no tapete, concentrado como se estivesse fechando uma fusão de empresas.

Troco duas palavras com a professora — mantendo o teatro de "adulta responsável" que nós duas sabemos que é pura conveniência — e ela elogia o desenvolvimento dele. Inflo o peito com um orgulho que não é meu por direito, mas que eu confisco de qualquer forma.

Me aproximo do tapete e os olhos verdes do Theo me acham.

O rosto dele vira uma antena parabólica de felicidade. Ele levanta num pulo desengonçado e se j**a contra as minhas pernas, quase me derrubando.

— Tia Mia! Tia Mia! Olha o que a gente fez!

O garoto me desarma. Sempre. Deixo que ele me puxe até a pilha de Lego que desafia todas as leis da física e da gravidade.

— Uau, rapazes. Isso aqui é engenharia de ponta — comento, impressionada. — Trabalho em equipe?

Os três meninos abrem sorrisos idênticos.

— Eu vou construir prédios que nem meu pai quando crescer! — o David avisa, estufando o peito.

— Ele vai ter orgulho, meu amor — respondo, apertando a bochecha dele.

— E eu vou ser um super-herói que nem o papai! — o Henry, meu afilhado, decreta com a certeza absoluta de quem já escolheu o destino.

— Não tenho a menor dúvida. Mas agora, a conversa está ótima e nós precisamos voar.

Theo faz exatamente o mesmo bico dramático que o Cael usa quando perde um prazo na empresa — a genética Sterling não falha —, mas obedece. Ele se despede com abraços rápidos, promete terminar a fortaleza amanhã, e nós saímos.

Eu sei que essas crianças me idolatram. Sou a melhor madrinha e a melhor tia do mercado, mesmo sendo, historicamente, a pior influência da família.

No estacionamento, o Theo me lança aquele olhar de canto, calculista.

— A gente vai na lanchonete do Batman? — ele tenta soar casual, mas falha miseravelmente.

— Com certeza. Porque eu quero e porque eu posso.

O sorriso que ele me dá é daqueles que pagam qualquer fatura de cartão de crédito. Eu amo esse moleque com força. Ajudo o Cael a segurar o tranco desde os seis meses dele.

Já limpei muito vômito na madrugada, cantei músicas idiotas para baixar febre e segurei o mundo quando o mundo dele cabia no meu colo. Ele me escolheu como porto seguro, e eu assinei o contrato sem ler as letras miúdas.

Amo meus sobrinhos como se fossem meus. Talvez porque, no fundo, eu sempre soube que a contagem pararia neles.

Tecnicamente, a adoção existe, eu sei. Não sou tapada. Só não está nos planos. Mas a verdade nua e crua, aquela que guardo trancada a sete chaves, é que a fábrica fechou. Há cinco anos, meu útero foi parar no lixo de um hospital em Berlim por causa de uma complicação que quase me levou junto.

Minha família não faz a menor ideia. Eu morava fora, fingindo que minha vida era um filme europeu cult, enquanto meu corpo desmoronava nos bastidores. Passei por tudo sozinha: a cirurgia, a recuperação e as noites encarando o teto, tentando entender como processar o luto de um sonho que morreu sem fazer barulho.

Detesto alugar os outros com os meus dramas. Meus irmãos já me tratam como se eu fosse feita de cristal só por ser a caçula; se descobrem isso, me trancam numa redoma de vidro. Eles protegem exagerando, eu sobrevivo fingindo que sou invencível.

Caminhamos de mãos dadas até a lanchonete temática colada na escola. O lugar é um surto psicodélico de super-heróis, animes e decorações exageradas, cheirando a óleo de fritura, açúcar queimado e milk-shake industrializado. Um paraíso.

Assim que passamos pela porta, Theo solta a minha mão.

— Tia, posso ir lá dar oi para a Naná? — ele já está inclinado, pronto para a arrancada.

— Vai lá, velocista. Mas sem atropelar oos clientes.

Fico de longe olhando ele correr até uma das garçonnetes e travar as pernas dela com um abraço. Ela toma um susto, o corpo tensiona por reflexo, mas relaxa no segundo em que vê que é ele.

O nom dela é Hannah. "Naná" é o apelido de bastismo do Theo.

Ela é nova, bonita, mas carrega aquela cara de cansaço crônico de quem b**e cartão na vida real e acorda cedo demais para pagar boleto. Mesmo assim, o sorriso dela para o Theo é legítimo

Nossa rotina aqui começou há uns seis meses, logo depois que o Theo mudou de escola. Teve uma tarde específica que sacramentou o esquema. O Cael tinha prometido buscá-lo, mas teve uma crise na Sterling e sumiu. O Theo murchou de um jeito que quebrou meu coração. Ficou mudo, encarando o copo de suco como se o mundo tivesse acabado.

Foi aí que a Hannah apareceu. Ela trouxe o hambúrguer, mas trouxe também um bloco desenho, três giz de cera quebrados e uma miniatura de brinde que tirou do próprio bolso. Sentou ali, falou meia dúzia de abobrinhas e fez careta até arrancar uma risada dele.

Uma amizade esquisita: um menino carente de promessas paternas e uma garota exausta do mundo, mas que ainda tinha um resto de luz para doar. De um jeito torto, aquele dia salvou um pedaço de nós três.

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