Mundo de ficçãoIniciar sessãoCael Sterling
Me recosto na cadeira de couro com a paciência de quem está a um milímetro de cometer um homicídio. Meus olhos fixam na mulher à minha frente. Hailey Donovan. Cabelos dourados, curvas esculpidas para fazer qualquer homem perder o juízo e olhos verdes injetados de veneno. Ela sabe como me instigar, mas é ainda melhor em testar meus limites. Para o público, ela é a perfeição. Rosto angelical na TV, postura milimétrica nas passarelas, simpatia ensaiada para os repórteres. O retrato da doçura. Estão todos redondamente enganados. Hailey é uma predadora nata. Sabe usar as regras do jogo, contorcendo cada cláusula para encaixá-la nos seus caprichos. Manipuladora, ardilosa e acostumada a ouvir "sim". Menos de mim. Sou a única engrenagem no mundo dela que recusa comando. E essa falta de controle a corrói. — Já estamos juntos há quase dois anos, Cael. A mídia especula quando você vai me pedir em casamento — diz ela, desfilando pelo meu escritório, tentando me convencer de que dois mais dois são cinco. Apoio o peso na borda da mesa, rastreando seus passos. — Diga-me, querida... desde quando dou a mínima para o que a mídia especula? — Pense na minha carreira — ela rebate, parando abruptamente com os olhos faiscando. — Pense nas manchetes. Não entrei nesse relacionamento para ser seu brinquedo de luxo. Tínhamos um acordo. — Um acordo comercial que beneficia ambos os lados — retruco, gélido. — E que não mencionava alianças. Minha prioridade é meu filho, Hailey. O Theo não vai ver outra mulher ocupando esse espaço na minha vida. E... — Quem não está pronto é você — ela me interrompe, a voz afiada. — Desde o divórcio, você virou um covarde. Aquela mulher te esmagou e você não teve culhão para revidar. Entrei nessa história por interesse e continuo aqui pelo mesmo motivo. Mas se você não vai cumprir sua parte... isso não faz mais sentido. Ela avança até o sofá, agarra a bolsa com fúria contida, me lança um olhar transbordando ódio e sai do escritório. A porta de carvalho se fecha com um estrondo. Conto até cinco. Arranco a gravata do pescoço; ela parece um torniquete tentando me sufocar. Jogo o tecido em qualquer canto e passo as mãos pelos cabelos, pressionando as têmporas para aplacar a enxaqueca. Foram quatro horas trancado em uma reunião exaustiva, engolindo burocracia para liberar as obras do novo hospital da cidade. E quando saio, acreditando na ilusão de que terei paz, dou de cara com Hailey instalada na minha cadeira, me esperando com uma ideia brilhante: um pedido de casamento em público. Ela só pode estar brincando. Enxergo o desastre antes de o gatilho ser puxado. Não vou caminhar para o matadouro. Já cometi esse erro uma vez, e bastou para me vacinar contra a estupidez. Casar de novo? Nem no meu pior pesadelo. Minha primeira tentativa me ensinou que certas cicatrizes gangrenam. Serena Hanks. Fomos amigos de infância, confidentes. Me apaixonei por ela — meu maior erro e pior castigo. Namoramos por anos, nos casamos há seis. No começo, a ilusão funcionava. Serena era leve, vibrante. Achei que tinha um lar. Tudo corria bem... até a gravidez. No segundo em que o teste deu positivo, a máscara caiu. Eu sempre quis a paternidade, dizia isso com orgulho. E quando o Theo nasceu, minha vida finalmente fez sentido. Para Serena, o garoto foi uma sentença de prisão. Um fardo. O lembrete físico de tudo o que ela repudiava: rotina e obrigações. Lembro daquela noite com a nitidez de um trauma recente. Entro em casa e a encontro sentada na sala, com duas malas prontas ao lado da porta. O olhar dela era opaco. Ela me disse na cara que se sentia sufocada. Que a vida doméstica nunca foi seu sonho e que o papel de mãe não estava nos seus planos. Com a indiferença de quem descarta um café frio, avisou que estava indo embora. Theo tinha seis meses. E eu, estático no meio da sala com o peito rasgado, me deparei com o pior pesadelo de um homem: segurar um recém-nascido sozinho, sem entender onde meu mundo ruiu. Eu me humilhei. Sugeri terapia, prometi mudanças, implorei para ela não pulverizar a família que juramos proteger. Mas ela já tinha feito as malas na alma. Passou pela porta e me deixou de joelhos. Três semanas depois, a verdade explodiu na minha cara. Descobri Serena nos braços de outro. Sempre existiu outro homem; ela só não teve o caráter de admitir. O divórcio foi um banho de sangue. Serena forjou provas, costurou narrativas perversas e me pintou nos tribunais como um monstro controlador. Alega que eu a tratava como égua reprodutora, que só a queria para garantir um herdeiro para os Sterling. Me reduziu a uma caricatura em papel timbrado. Eu teria perdido tudo — inclusive a guarda do meu filho — se não fosse por David Maddox. Meu advogado e melhor amigo destroçou cada mentira dela com a precisão de um cirurgião. Ele salvou minha reputação e garantiu a guarda unilateral do Theo. Serena foi esmagada no veredito. Condenada a arcar com os custos processuais e os honorários do David — que custam uma fortuna. Perdeu qualquer direito de visita e, pouco tempo depois, desapareceu do mapa. Nunca mais ligou ou mandou sinal de vida. Nada. Isso faz quase quatro anos. Desde então, a regra é clara: ninguém entra na minha vida de forma definitiva. Não há cota de confiança disponível. Nem mesmo para Hailey. O que temos não é romance, é um contrato de conveniência mútua com benefícios físicos. Um arranjo prático, e ponto final. Theo não tem memórias da mãe. Era jovem demais para registrar o abandono e, honestamente, é o maior livramento da vida dele. Nunca vou permitir que ele passe por aquilo outra vez. Nunca vou deixar outra mulher entrar na rotina dele para depois descartá-lo como se fosse um erro de percurso. Meu filho é meu único norte. Sempre foi. Sempre será. E ninguém — absolutamente ninguém — cruza essa linha.






