Mundo de ficçãoIniciar sessãoCAPÍTULO 2 — Quando o mundo insiste em cair
"Emma Carter" Os corredores do Hospital St. Mary estavam mais silenciosos do que o normal, como se até o ar estivesse cansado. O som distante de máquinas e passos ecoavam suavemente, mas nada conseguia afastar o peso que apertava meu peito. Logo na entrada, o cheiro forte de desinfetante me atingiu e me trouxe de volta ao motivo de eu estar ali. Susan, minha mãe. A recepcionista me reconheceu e indicou o quarto com um gesto simples. Eu agradeci num sussurro e caminhei sem pressa. A cada passo, meu estômago apertava um pouco mais. Depois do que tinha acontecido naquele dia — a demissão, a traição, a humilhação — eu só queria um momento de paz. Mas paz não era algo que o destino estava disposto a me dar. Parei na porta do quarto 212 e respirei fundo. Me forcei a sorrir antes de entrar, mesmo que eu não tivesse mais nada dentro de mim além de dor. Minha mãe estava deitada, os olhos fechados, respirando devagar. A luz branca deixava sua pele ainda mais pálida, quase transparente. Por um instante, pensei em sair antes que ela percebesse minhas lágrimas. Mas ela abriu os olhos no mesmo momento. — Emma… — sua voz saiu baixa, mas doce, como sempre. — Oi, mãe — respondi, tentando manter a voz firme. Ela sorriu fraco. Um sorriso que sempre me dava força, mesmo agora, quando parecia tão diferente da mulher cheia de energia que eu conhecia. Segurei sua mão por alguns segundos. Era o suficiente. Ela estava cansada demais para conversas longas, e eu não queria forçá-la. O silêncio entre nós foi leve, mas carregado de tudo que eu não conseguia dizer, mas antes que eu pudesse comentar qualquer coisa, a porta abriu e a Dra. Smith entrou. Ela ajeitou os óculos finos e olhou para mim com um semblante que já dizia tudo. — Emma, podemos conversar lá fora por um instante? — pediu. Assenti, tentando não demonstrar meu desespero. No corredor, o barulho de passos e o brilho excessivo das luzes pareciam maiores do que antes. A médica respirou fundo antes de falar, como se buscasse as palavras certas. — O quadro da sua mãe piorou rapidamente — disse a Dra. Smith. — Os exames mostram que o tratamento atual não está mais surtindo efeito. Meu mundo parou ali. — O que isso significa? — perguntei com a voz quase falhando. — Precisaremos iniciar uma terapia mais intensa — continuou ela. — É a melhor alternativa para controlar o avanço da doença. Eu já sabia o que viria depois. O preço. — E… quanto custa? — forcei as palavras, mesmo sabendo que não estava pronta para ouvir. A médica hesitou — e isso foi pior do que qualquer número poderia ser. Quando finalmente respondeu, sua voz foi baixa, cuidadosa: — O novo protocolo… custa aproximadamente cem mil dólares por mês, Emma. US$ 100.000 mensais, o tipo de valor que só se vê em filmes. O tipo de valor que destrói qualquer chance, qualquer plano. O tipo de valor que mata antes da própria doença. Algo dentro de mim simplesmente desmoronou. — Eu sei que é difícil — disse a Dra. Smith, com genuína compaixão —, mas precisamos começar dentro de duas semanas. Duas semanas, quatorze dias. O tempo que o destino tinha decidido me dar para impedir o pior. Assenti, mesmo sem saber como respirar direito. — Eu… vou dar um jeito — menti, mais para mim do que para ela. A médica tocou meu ombro com gentileza antes de voltar para sua rotina corrida, e eu permaneci ali, parada no corredor, tentando impedir que minha mente desmoronasse pela quinta vez naquele dia. Voltei ao quarto apenas para dar um beijo na testa da minha mãe. Ela já estava adormecida. Talvez fosse melhor assim. Eu não teria forças para dizer a ela que o tempo estava se esgotando. Nem para fingir um sorriso outra vez. Saí devagar, com o coração batendo dolorosamente contra as costelas. Eu precisava respirar. Pensar. Fugir. Qualquer coisa. Assim que alcancei o corredor, meu celular vibrou na mão... um número desconhecido apareceu na tela. Hesitei por um segundo antes de atender. — Alô? — Emma… sou eu. Aquela voz. Meu estômago se revirou. — James. — Eu só queria conversar — ele começou, rápido demais. — Você saiu sem me ouvir. Não foi o que pareceu. Fechei os olhos, sentindo a paciência se esgotar. — Eu vi você na cama com a Kate. — Foi um erro — insistiu. — Um momento idiota. Não significou nada. Nada. — Um ano e meio não significou nada? — perguntei, sentindo a dor virar raiva. — Você anda distante — ele continuou. — Sempre cansada, sempre preocupada com sua mãe… eu me senti sozinho. Soltei um riso curto, amargo. — Então você dormiu com a minha melhor amiga. — Emma, não exagera. A Kate também se arrependeu. A gente pode conversar, tentar resolver. — Não — interrompi. — Não pode. — Você está sendo dramática. A palavra me feriu mais do que eu esperava. — Não me ligue mais — disse, com a voz firme apesar do tremor. — Nunca mais. Desliguei antes que ele dissesse qualquer outra coisa. Guardei o celular e comecei a andar sem direção pelos corredores do hospital, deixando meus pés me guiarem. Enfermeiros passavam, pacientes iam e vinham, mas tudo parecia distante, borrado, como se eu estivesse andando dentro de um sonho ruim do qual não conseguia acordar. Minhas mãos tremiam. Minha cabeça pesava. Eu estava tão perdida nos meus pensamentos que nem percebi que vinha alguém na direção contrária. Até que o impacto aconteceu... um choque forte, seco. E então algo quente se espalhou pelo meu braço. Olhei para baixo e vi um copo de café caído no chão, o líquido escuro formando uma pequena poça fumegante. — Você é idiota? — ele disparou. — Não olha por onde anda?






