Eliza*
A cozinha estava tomada por um cheiro familiar de comida caseira e rotina, aquele tipo de cheiro que acalma, mesmo quando a cabeça insiste em não colaborar.
Eu organizava os pratos sobre a mesa enquanto Regina ajeitava os talheres com a precisão de quem fez aquilo a vida inteira. Tudo parecia normal demais… e talvez fosse exatamente isso que me deixava inquieta.
Desde a visita da assistente social, aquela conversa entre Regina e ela não saía da minha cabeça.
Eu tentava disfarçar, mas meus olhos voltavam para Regina o tempo todo.
Ela percebeu.
— Se for pra ficar me olhando assim, menina, é melhor falar logo — disse, sem parar o que estava fazendo.
Corei na hora.
— Desculpa… eu só… — respirei fundo. — Fiquei pensando na conversa que você teve com a assistente social.
Regina parou. Virou-se pra mim com calma, sem ofensa, sem pressa.
— Quer saber o que eu disse?
Assenti.
Ela se aproximou um pouco mais, apoiando as mãos na mesa.
— Eu disse a verdade. — Olhou nos meus olhos. — Disse