Mundo de ficçãoIniciar sessãoO sol de Dubai ainda não havia atingido seu ápice quando o carro preto e silencioso estacionou diante da casinha de Serena. O contraste era quase violento: a lataria polida refletia as paredes descascadas da vizinhança, como um lembrete visual de que ela estava sendo arrancada de um mundo para ser inserida em outro. Serena subiu no veículo levando suas poucas sacolas, sentindo o estofo de couro acolher seu corpo de uma forma que ela nunca experimentou. O trajeto até a Salaam Halid Street foi feito em um silêncio absoluto, quebrado apenas pelo som baixo do rádio comunicador do motorista.
Quando os portões monumentais se abriram, Serena sentiu um frio na espinha. A mansão Volttceri parecia ainda maior sob a luz direta da manhã, ela não havia reparado tamanha grandiosidade quando visitara a mansão pela primeira vez, no dia anterior. Madame Vouché já a aguardava nos degraus da entrada, com a mesma postura de ferro de sempre.
— Seja pontual com suas bagagens, senhorita. O dia dos meninos já começou há duas horas — disse a governanta, sem preâmbulos.
Serena mal teve tempo de deixar seus pertences em sua nova e luxuosa habitação. Em menos de quinze minutos, ela foi conduzida ao salão principal. O ambiente estava impregnado com um perfume floral caro, tão intenso que chegava a ser sufocante. No centro do salão, sentada em uma poltrona de veludo azul, estava Olga Volttceri.
A recepção não poderia ter sido mais gélida. Olga sequer desviou os olhos do tablet que segurava.
— Ela chegou, senhora — anunciou Vouché.
Olga ergueu o olhar lentamente, percorrendo Serena dos pés à cabeça com uma expressão de quem avalia uma peça de mobília de segunda mão que foi entregue por engano.
— O uniforme que mandei entregar está no seu quarto? — A voz de Olga era fina, cortante como um estilete.
— Sim, senhora. Eu o vi — respondeu Serena, tentando manter a voz firme.
— Pois use-o. Sempre. Não quero que você circule pela minha casa com essas roupas... populares. Seus horários são rígidos e sua discrição deve ser total. Se eu notar que você está tentando ser mais do que uma funcionária, ou se as crianças começarem a chorar por sua causa, você estará na rua antes do pôr do sol. Fui clara?
Serena sentiu o nó na garganta. — Sim, senhora.
— Ótimo. Agora saia da minha frente. Tenho uma prova de joias em dez minutos e não tolero interrupções.
Humilhada e ainda processando a hostilidade gratuita, Serena deu um passo para trás, prestes a seguir Vouché, quando uma presença poderosa preencheu o vão da porta. Khaleb entrou no salão. Se Olga era o gelo, Khaleb era o fogo — uma chama controlada, mas perigosa.
— Olga, você sempre tão acolhedora — disse ele, com um tom de sarcasmo que fez a esposa tencionar os ombros.
Ele caminhou em direção a Serena. Diferente de Olga, ele não a olhou com desprezo; ele a olhou com uma intensidade que a fez se sentir o centro do universo por um breve segundo. Ele parou a poucos centímetros dela, quebrando qualquer protocolo de distância profissional.
— Ignore minha esposa, Serena — ele disse, a voz baixando para um tom aveludado, quase íntimo. — Ela esquece que a beleza e a juventude são dons raros nesta casa. Fico feliz que tenha aceitado. Se precisar de qualquer coisa que Vouché não possa prover, meu escritório está sempre aberto para você.
O contraste era desconcertante. Enquanto Olga tentava diminuí-la a nada, Khaleb parecia querer inflar seu ego, mas havia algo na doçura dele que deixava Serena mais em alerta do que a grosseria de Olga. Era um acolhimento que parecia uma armadilha forrada de cetim.
— Obrigada, Sr. Volttceri — ela sussurrou, desviando o olhar.
— Vamos, a programação não espera — interrompeu Vouché, percebendo a tensão crescente entre o casal e a nova babá.
Serena foi levada à ala infantil, um setor da casa que parecia um castelo de vidro. Ali, Michael e Khalel estavam terminando a aula de francês. Quando o tutor saiu, Serena ficou sozinha com os meninos pela primeira vez.
Eles tinham seis anos, mas o olhar deles era de alguém que já carregava o peso de seis décadas. Estavam sentados eretos, com as mãos sobre os joelhos, observando Serena com uma apatia assustadora.
— Oi, meninos. Eu sou a Serena. Vou cuidar de vocês de agora em diante.
Eles se entreolharam, mas não sorriram. Não houve a euforia comum que as crianças demonstram diante de alguém novo.
— Você vai nos ensinar o quê? — perguntou Michael, o que parecia ser o mais sério. — Já sabemos falar três línguas e o Khalel já começou a estudar álgebra.
— Eu não vou ensinar álgebra — Serena sorriu, tentando quebrar o gelo. — Eu vim para brincar com vocês. Do que vocês gostam de brincar? Esconde-esconde? Pega-pega?
O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Khalel franziu a testa, genuinamente confuso.
— "Brincar"? — ele repetiu a palavra como se fosse um termo técnico que ele ainda não havia estudado. — Mamãe diz que o tempo é um investimento. Brincar é um desperdício de capital intelectual.
Serena sentiu o coração se despedaçar em mil pedaços. Ela olhou para os brinquedos impecáveis nas prateleiras: carrinhos que nunca haviam batido na parede, robôs que ainda tinham o cheiro da caixa, bolas que nunca haviam quicado na grama. Aquelas crianças eram pequenos robôs programados para a excelência, mas completamente analfabetos em termos de felicidade.
— O capital intelectual de vocês está seguro por hoje — disse ela, sentando-se no chão de carpete macio, ignorando o fato de que seu uniforme poderia sujar. — Hoje, vamos aprender uma coisa nova. Chama-se: "Como construir um forte com almofadas".
— Almofadas são para sentar, senhorita — Michael corrigiu, com uma seriedade dolorosa.
— Não hoje, Michael. Hoje elas são as paredes de um castelo invencível. E eu sou a dragão que vocês precisam derrotar.
Os meninos trocaram olhares de incerteza. Havia um brilho de curiosidade tentando romper a crosta de frieza que Olga havia imposto sobre eles. Serena percebeu naquele momento que seu trabalho seria muito mais difícil do que trocar fraldas ou dar banho. Ela teria que realizar um resgate emocional. Ela teria que desconstruir anos de negligência afetiva disfarçada de disciplina bilionaria.
Enquanto começava a empilhar as almofadas luxuosas de seda, Serena sentiu que estava sendo observada. Ela olhou para cima e viu, através da parede de vidro que dava para o corredor superior, a silhueta de Khaleb. Ele estava parado, com um copo de uísque na mão, observando-a brincar com os filhos. Ele não sorria, mas seus olhos brilhavam com uma satisfação predatória.
Ela percebeu que estava sendo testada por todos: por Olga, que esperava seu fracasso; pelos gêmeos, que não sabiam como amá-la; e por Khaleb, que parecia estar assistindo a um espetáculo preparado exclusivamente para ele.
Serena Hurvix tinha chegado à mansão para ser uma babá, mas agora entendia que era a única faísca de humanidade em um palácio de gelo. E, se não tomasse cuidado, aquela mesma humanidade seria o combustível para a obsessão de Khaleb.
— Venham, meninos — ela chamou, estendendo a mão. — O castelo não vai se construir sozinho.
Pela primeira vez, Khalel deu um passo à frente, abandonando a postura rígida. Foi um pequeno movimento, quase imperceptível, mas para Serena, foi a primeira vitória em uma guerra que estava apenas começando. Ela passaria o dia ensinando-os a rir, sem saber que, em algum lugar daquela mansão, os documentos de sua vida já estavam sendo minuciosamente analisados pelo homem que a chamara de "dom raro".
— Não deixe que ela transforme meus filhos em dois retardados, Vouché. Eu confiei os dois à você até hoje. Fique de olho neles. — Disse Olga, se retirando do recinto sem olhar para trás.A noite caiu sobre Dubai, e enquanto os meninos finalmente pegavam no sono — exaustos de uma forma que o estudo nunca os cansara — Serena se recolheu aos seus aposentos. Ela olhou para a banheira dourada, mas não conseguiu usá-la. O luxo agora parecia ter um peso diferente. Ela sentou-se na beira da cama imensa e olhou para suas mãos.
Ela tinha o emprego dos sonhos, o salário de uma vida e morava em um palácio. Mas, pela primeira vez, Serena sentiu medo. Medo de que, ao tentar ensinar os gêmeos a serem crianças, ela acabasse se perdendo no jogo de adultos perigosos que comandavam aquele lugar. O silêncio da mansão Volttceri não era mais pacífico; era o silêncio de quem espera o momento certo para atacar.







