Mundo de ficçãoIniciar sessãoSerena caminhava pelo corredor de mármore branco, mas seus pés pareciam não tocar o chão. A frase de Khaleb ainda ecoava em sua mente, vibrando como um gongo: "Bem-vinda à família". Havia uma nota de posse naquela voz, algo que ia além de um simples contrato de trabalho. Ela sentia como se tivesse acabado de assinar um pacto do qual não conhecia todas as cláusulas.
Ela seguiu Madame Vouché em silêncio. O perfume da governanta — algo que lembrava lavanda seca e cera de mobília cara — flutuava no ar. O corredor parecia infinito, decorado com tapeçarias que narravam conquistas navais e vitrines de vidro que protegiam sextantes de ouro e bússolas antigas. Finalmente, pararam diante de uma porta dupla de carvalho. Ao abrir, o som de vozes infantis e o riscar de lápis no papel preencheram o ambiente.
Era uma sala de aula particular, equipada com o que havia de mais moderno em tecnologia educacional, mas que mantinha a frieza de um laboratório. Dois meninos de rostos idênticos e cabelos meticulosamente cortados estavam sentados diante de um jovem de expressão séria.
— Michael e Khalel não frequentam a escola comum, como o restante da sociedade — explicou Madame Vouché, e Serena notou um vinco de desapontamento no canto de seus lábios. — A Sra. Olga acredita que a convivência com o "mundo exterior" poderia corromper o entendimento dos meninos sobre sua linhagem e responsabilidades futuras.
Serena sentiu um aperto no peito. As crianças eram lindas, mas pareciam pequenas estátuas de porcelana.
— Este com os meninos é Abner, o tutor em tempo integral. Ele é responsável pela alfabetização e ciências. Ele permanece aqui durante toda a manhã; do meio-dia em diante, a responsabilidade de gerir a agenda e o bem-estar deles é inteiramente sua.
Vouché entregou a Serena uma prancheta de couro com uma lista impressa. Serena leu, sentindo uma onda de exaustão apenas por observar os horários: hipismo às 14h, natação às 15h30, francês às 17h, seguidos por karatê e teoria musical. Não havia um único bloco de tempo rotulado como "Brincar". Nenhum espaço para ser apenas criança.
— Onde está o tempo para eles serem... eles mesmos? — Serena perguntou, a voz falhando levemente.
Vouché parou e olhou para ela. Por um breve segundo, a máscara da governanta caiu, revelando uma profunda tristeza. — Nesta casa, Senhorita Hurvix, eles não são ensinados a serem "eles mesmos". São ensinados a serem Volttceris. A Sra. Olga acredita que a ocupação constante evita a carência. Eu, pessoalmente, creio que apenas evita que eles percebam o quão vazia a mansão pode ser.
Uma onda de melancolia atingiu Serena. Ela olhou para os gêmeos, que agora a encaravam com uma curiosidade contida, como se ela fosse uma espécie nova de animal entrando no zoológico particular deles. Como os pais podiam renunciar ao privilégio de ver aqueles meninos crescerem?
O tour continuou, e a grandiosidade da mansão começou a se tornar opressiva. Vouché mostrou a biblioteca com escadas de correr, a sala de jogos que parecia um cassino futurista e a brinquedoteca onde os brinquedos pareciam novos demais, intocados, sem a marca de mãos sujas de terra ou de imaginação.
— Por fim, seus aposentos — anunciou a governanta, abrindo uma porta em uma ala reservada, conectada à casa principal por uma passagem coberta de vidro.
Serena parou na soleira, e um som de surpresa escapou de seus lábios. Não era um quarto; era uma residência completa, maior e mais luxuosa do que a casa onde ela morara toda a sua vida.
— Cada funcionário de confiança tem direito a uma habitação particular — Vouché explicou, entrando no espaço com passos precisos. — A manutenção é sua responsabilidade. Não são permitidas visitas sem minha autorização prévia. Não é permitido alterar a mobília ou remover itens. Se algo quebrar, eu devo ser a primeira a saber. Sua alimentação será providenciada pela nossa cozinheira-chefe, mas você tem uma cozinha funcional aqui para uso livre. Alguma pergunta?
Serena não conseguia formular palavras. Suas paredes em casa eram descascadas; aqui, eram brancas como nuvens, adornadas com nichos de mármore que abrigavam edições de luxo de Dan Brown e P.J. Tracy. O sofá de camurça preta parecia convidativo, e o tapete felpudo cor de marfim implorava por pés descalços. A cozinha tinha eletrodomésticos de última geração e uma geladeira de porta dupla que brilhava sob a iluminação embutida.
Mas foi o quarto que tirou seu fôlego. A cama era monumental, coberta por lençóis de cetim que prometiam o primeiro sono sem preocupações em anos. Atrás de uma porta de correr, o banheiro revelava uma banheira dourada de pés esculpidos. Serena nunca soubera o que era um banho de imersão; para ela, água sempre fora uma conta a ser economizada.
— Não... nenhuma pergunta — balbuciou Serena, sentindo-se uma intrusa em um cenário de filme.
— Acompanhe-me — ordenou Vouché, levando-a de volta para o coração da mansão, em direção ao seu próprio escritório.
A sala de Madame Vouché era o centro de comando da casa. Pastas perfeitamente etiquetadas — Mercado, Manutenção, Salários, Impostos — alinhavam-se nas estantes. O brasão dos Volttceri, com sua âncora imponente, estava presente em cada detalhe, lembrando a todos quem era o dono do mar e de quem ali vivia.
— Sente-se, Senhorita Hurvix.
Serena obedeceu, sentando-se em uma cadeira de couro que abraçava seu corpo. Vouché abriu uma pasta de couro e deslizou um documento sobre a mesa.
— Como você viu, esta casa exige rigor. O seu trabalho é dedicação exclusiva aos meninos. Agora, sobre a compensação financeira...
Ao ver o número impresso no contrato, o coração de Serena saltou. — O quê? Tudo isso? — O valor era quase vinte vezes o que ela conseguia juntar em um mês de faxinas e cuidados esporádicos. Era uma quantia que não apenas pagaria suas dívidas, mas mudaria o curso de sua história.
Vouché deu um sorriso tão discreto que poderia ser confundido com um espasmo. Ela se viu naquela jovem, anos atrás, antes de o mármore desta casa absorver sua própria juventude.
— Você estará disponível para eles durante todo o dia. À noite, uma enfermeira noturna assume para que os meninos durmam sob supervisão médica, e ela também cobre seus fins de semana e feriados. No entanto... — Vouché inclinou-se para a frente. — Se a senhorita optar por permanecer na mansão durante esses períodos, o valor será recalculado com os adicionais. Alguma dúvida agora?
Serena ainda encarava os zeros no papel. Ela poderia finalmente consertar o telhado da casa de sua mãe... ou melhor, ela nem precisaria mais daquela casa.
— Nenhuma dúvida — respondeu firme, a determinação substituindo o choque.
— Então, você aceita os termos?
— Sim, eu aceito.
— Perfeito. O contrato tem um período de experiência de três meses. Se o Sr. Khaleb e a Sra. Olga estiverem satisfeitos, ele se renova automaticamente. O motorista irá buscá-la amanhã às sete horas em ponto. Esteja com sua mudança pronta. Se mora de aluguel, aconselho a entregar o imóvel. Você não precisará dele.
Serena assentiu. O motorista já a esperava para levá-la de volta para sua última noite na casa da infância.
A viagem de volta foi um borrão. Serena observava as luzes de Dubai através do vidro fumê do carro de luxo, sentindo-se como uma Cinderela moderna, mas sem a ilusão de um conto de fadas. Ela sabia que aquele dinheiro comprava sua liberdade da pobreza, mas também comprava sua alma para os Volttceri.
Ao chegar em sua casinha modesta, o contraste foi doloroso. As paredes pareciam mais estreitas, o cheiro de mofo mais forte. Ela olhou para os móveis velhos que pertenciam à sua mãe. O que fazer com eles? A casa era própria, uma herança que ela não tinha coragem de vender, mas que agora parecia uma âncora de um passado de escassez.
— Depois eu resolvo isso — sussurrou para o vazio.
Ela pegou as sacolas de mudança de alta resistência que Vouché lhe entregara. Sua vida cabia em poucas sacolas: algumas peças de roupa que não eram "adequadas" para a mansão, fotos amareladas da mãe e um urso de pelúcia gasto que era sua única lembrança física do pai.
Em duas horas, a casa estava vazia de vida, mas cheia de fantasmas. Serena deitou-se no colchão fino pela última vez, o silêncio da vizinhança humilde parecendo mais alto do que nunca. No dia seguinte, ela acordaria em um mundo onde as banheiras eram douradas e os olhares eram predatórios. Ela fechou os olhos, mas a última imagem que viu antes de dormir não foi o dinheiro, nem os gêmeos. Foi o olhar escuro e fixo de Khaleb Volttceri, esperando por ela no topo daquelas escadarias de mármore.
A caçada estava prestes a começar.







