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Capítulo 6 - Conflito

O despertador silencioso em seu pulso vibrou às cinco da manhã. Serena despertou em um sobressalto, desorientada por um segundo pela imensidão da cama de cetim. O quarto estava imerso em um azul profundo, a luz da pré-alvorada de Dubai filtrando-se pelas cortinas automáticas. Não havia o som dos vizinhos ou o cheiro de café passado da sua antiga vizinhança; apenas o silêncio pressurizado da mansão.

Ela levantou-se e vestiu o uniforme imposto por Olga: um conjunto de alfaiataria impecável, cinza-chumbo, que parecia drenar a cor de sua pele, mas que lhe conferia uma aura de autoridade doméstica. Após prender o cabelo em um coque baixo e firme, ela subiu para a ala infantil.

Ao entrar no quarto dos meninos, a enfermeira noturna, uma mulher de meia-idade com olhos cansados chamada Martha, já estava de pé. Michael e Khalel estavam sentados na beira de suas camas, vestindo pijamas de seda idênticos, esperando como pequenos soldados por ordens superiores.

— Bom dia, meninos — Serena saudou com um sorriso genuíno, tentando injetar calor naquele ambiente estéril.

— Bom dia, Senhorita Serena — responderam em uníssono, as vozes desprovidas do entusiasmo típico da infância.

O banho foi uma operação logística. Serena percebeu que eles não brincavam com a água; eles se lavavam com uma eficiência assustadora, como se o prazer de uma bolha de sabão fosse algo proibido. Ela os ajudou com os botões das camisas polo e os conduziu ao café da manhã, onde uma mesa farta de frutas exóticas e cereais integrais os aguardava. Olga não estava presente. Khaleb também não.

Após o desjejum, Serena organizou os tablets, cadernos e materiais de caligrafia. Às oito em ponto, ela os entregou ao professor Abner na porta da sala de aula. O clique da porta se fechando marcou o início das obrigações intelectuais dos gêmeos e o início do tempo livre de Serena.

Em vez de se recolher, ela caminhou até a brinquedoteca. Ao abrir as portas duplas, Serena sentiu um aperto no peito. O ambiente era um santuário de consumo: uma pista de trenzinho alemã que ocupava metros quadrados, prateleiras repletas de figuras de ação de edição limitada, uma casa de árvore indoor construída em madeira nobre e cestos de vime cheios de blocos de montar que pareciam nunca ter sido espalhados pelo chão. Era uma loja de brinquedos de luxo onde ninguém tinha permissão para tocar na mercadoria.

Ela se aproximou de uma caixa de soldadinhos de chumbo pintados à mão e sentiu a textura fria do metal. Estava encantada e, ao mesmo tempo, horrorizada. Tantos recursos, tanta tecnologia, e tão pouco rastro de imaginação.

— É um museu de desperdícios, não acha?

A voz de Khaleb veio de trás dela, profunda e súbita. Serena virou-se rapidamente, o coração martelando contra as costelas. Ele estava encostado no batente da porta, com as mãos nos bolsos de sua calça de linho, observando-a com uma curiosidade que a deixava desconfortável.

— Sr. Volttceri... eu não o vi entrar. Só estava pensando em como integrar tudo isso à rotina deles. É tudo tão... perfeito.

— Perfeito demais para ser usado — Khaleb deu alguns passos para dentro, o cheiro de seu perfume caro misturando-se ao cheiro de plástico novo dos brinquedos. — Olga escolhe cada item com base na estética e no valor educativo. Ela esquece que o propósito de um brinquedo é ser destruído por uma criança feliz.

Serena criou coragem e perguntou o que a intrigava desde que chegara: — Quem cuidava deles antes de mim? Quem brincava com eles aqui?

Khaleb soltou um suspiro curto, desprovido de humor. — Madame Vouché. Ela fez o que pôde, mas ela tem uma mansão inteira para gerir e uma esposa exigente para aplacar. Antes dela, houve uma sucessão de babás técnicas que duravam menos de um mês. Nenhuma delas se sentava no chão como você fez ontem.

Ele se aproximou mais, parando diante de uma estante. — Conte-me, Serena... como era a sua brinquedoteca? Como foi crescer longe desse mármore todo?

Serena soltou um riso involuntário, olhando para as próprias mãos. — Minha brinquedoteca era o quintal, senhor. Minhas bonecas eram feitas de pano e meus "brinquedos de luxo" eram caixas de papelão que viravam naves espaciais ou castelos. Eu não tinha o império de iates do seu avô, mas eu tinha todo o universo dentro de uma garagem de terra batida. Minha mãe trabalhava muito, mas quando chegava, ela se tornava o dragão ou a rainha. A simplicidade de tudo o que vivi... era o que me tornava rica.

Khaleb a observava com uma intensidade predatória, mas seus olhos mostravam uma sombra de inveja. — Eu cresci com um berço de ouro que parecia uma gaiola. Meu avô me levava para os barcos não para nadar, mas para aprender sobre logística e contratos. Aos dez anos, eu sabia a diferença entre um motor Caterpillar e um MTU, mas não sabia o nome de nenhum vizinho da minha idade. Eu tive tudo o que o dinheiro podia comprar, Serena, e ainda assim, sinto que tive menos do que você.

A confissão dele criou uma bolha de intimidade perigosa entre os dois. Khaleb deu um passo em sua direção, sua mão pairando no ar como se quisesse tocar o rosto dela, mas foi interrompido pelo som seco de saltos no corredor.

Madame Vouché apareceu na porta, sua expressão era uma máscara de eficiência que não escondia a desaprovação ao ver o patrão tão próximo da nova funcionária.

— Sr. Khaleb, perdoe a interrupção. Senhorita Serena, a aula dos meninos termina em exatamente cinco minutos. Você deve estar à porta da sala de aula para recebê-los e conduzi-los ao almoço. A pontualidade é essencial hoje, pois teremos o jantar formal à noite.

— Sim, Madame Vouché. Já estou indo — Serena respondeu, sentindo o alívio e a tensão lutarem em seu íntimo.

Khaleb apenas assentiu para a governanta, mas seu olhar permaneceu em Serena até que ela cruzasse a porta.

O restante do dia foi um borrão de atividades coordenadas, mas o peso do "jantar formal" pairava sobre a cabeça de Serena. Às vinte horas, ela recebeu a instrução de que deveria acompanhar os meninos à mesa principal.

O salão de jantar estava iluminado por um lustre de cristal que parecia uma cascata de diamantes. A mesa de carvalho estava posta para quatro pessoas. Olga estava na cabeceira, vestindo um vestido de seda esmeralda que realçava a palidez de sua pele e a frieza de seus olhos. Khaleb estava na outra ponta, impecável em um terno sob medida.

Serena sentou-se entre os meninos, sentindo-se como um peixe fora d'água. O silêncio era interrompido apenas pelo tilintar dos talheres de prata contra a porcelana chinesa.

— Michael, mantenha os cotovelos fora da mesa — Olga disparou, sua voz cortando o ar como uma lâmina. — E Khalel, você não terminou seu relatório de francês hoje. Por quê?

— Nós estávamos construindo um castelo de almofadas, mamãe — disse Khalel, com um brilho de empolgação que Serena reconheceu com pavor.

Olga parou o talher no ar. Seus olhos se cravaram em Serena, transbordando veneno. — Um castelo de almofadas? Eu pago uma pequena fortuna para que eles sejam educados, não para que transformem minha sala em um acampamento de refugiados.

— Foi uma atividade lúdica, Olga — Khaleb interveio, sua voz calma, mas carregada de uma autoridade que fez o clima esfriar ainda mais. — Eles são crianças. Deixe-os ter um pouco de diversão.

— Diversão é para os fracos, Khaleb. Eu não quero que meus filhos cresçam com a mentalidade de uma babá de classe baixa — Olga retrucou, olhando diretamente para Serena com desprezo. — O que você acha que está fazendo, garota? Acha que esse salário é para você brincar? Você está aqui para servir. Para garantir que eles sigam a linhagem dos Volttceri, não para torná-los comuns.

Serena sentiu o sangue ferver, mas antes que pudesse responder, Khaleb colocou sua taça de vinho na mesa com uma força que fez o líquido oscilar perigosamente.

— Serena está fazendo mais por eles em dois dias do que você fez em seis anos, Olga. Se você prefere crianças que agem como robôs, compre bonecos. Mas nesta casa, enquanto eu pagar as contas, ela terá autonomia para ensiná-los a rir.

A tensão entre o casal era palpável, um abismo de ódio disfarçado de casamento. Olga empurrou o prato, levantando-se com uma elegância furiosa.

— Veremos quanto tempo essa sua "autonomia" dura quando a realidade bater à porta. — Ela olhou para Serena uma última vez. — Aproveite seu banho de ouro, Serena. Mas lembre-se: o ouro é um metal muito pesado. Ele pode te afogar.

Olga saiu da sala, deixando um rastro de perfume floral e humilhação. Serena olhou para baixo, o coração batendo forte. Khaleb, por outro lado, apenas retomou sua refeição como se nada tivesse acontecido.

— Continue comendo, Serena — ele disse, com uma suavidade assustadora. — O jantar está apenas começando.

Serena olhou para os meninos. Eles estavam de cabeça baixa, a breve alegria do "castelo de almofadas" completamente apagada por mais uma briga dos pais. Ela percebeu que a mansão Volttceri não era apenas um labirinto de luxo; era um campo de batalha, e ela acabara de ser usada como arma.

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