Mundo ficciónIniciar sesiónMeus olhos ardiam depois de ficar em claro por praticamente duas noites seguidas, e por um segundo, eu me permiti adormecer. Foi só um segundo, eu tenho quase certeza disso, quase, porque quando voltei a abrir meus olhos, a cama onde Lucien deveria estar dormindo, estava vazia.
— Puta merda… a mamãe vai me matar — resmunguei jogando a almofada que estava abraçado, no chão.
Eu tinha ficado responsável por cuidar do fodido, e agora, eu tinha deixado ele sair por aí, andando sozinho em um palácio gigantesco onde ele podia facilmente cair como uma donzela indefesa e ser atacado por qualquer maníaco. Me levantei o mais rápido que pude e endireitando o robe que eu vestia, comecei a procurar. Biblioteca, sala de música, o ateliê do quarto marido, o templo escondido que o pai de Lucien tinha criado como refúgio para ele, mas não, ele não ia facilitar. Não estava em nenhum lugar. Então, eu desci, sabendo que era sempre a pior opção. O jardim.
O lugar frio. Cheio de olhos por todos os lados.
— Porra… como esse garoto vai virar rei?
Varri o jardim com os olhos com a mesma agressividade que meu pai trucidava algumas gargantas em meio a guerra, e para a minha surpresa, encontrei aqueles cabelos negros ao fundo, de costas para mim e de frente para uma silhueta conhecida. Lucien.
Ele tinha corrido do quarto porque sabia que ela estava ali? Ele ainda não estava 100%, como podia ser tão insensato?
“Deve ser o amor…”
Aquela voz doce que às vezes invadia minha mente, sussurrou, mas eu a ignorei.Amor? Era besteira esperar algo como isso, ainda mais quando se teria um reino em suas mãos. Todos dependiam de você e das escolhas que você fará. Amor é uma perda de tempo. E o meu tolo irmão, que olhava para aquela garota como se ela fosse o centro do seu universo, bom, ele não precisava saber disso.
— Lucien — eu o chamei, interrompendo aquela cena melodramática e possivelmente capaz de ser distorcida por olhos maldosos e mentes mal intencionadas — irmão, então você está aqui, eu estava te procurando…
As pupilas de Lucien se fixaram em mim como se pudessem me atravessar, eu sentia o ódio dele a bem mais de dois metros de distância, mas ainda assim, eu o ignorei. E Alanis, que estava de costas, se virou para me encarar. Ela segurava uma das mãos de Lucien entre as suas, e seu rosto parecia agora corado, talvez pela surpresa, talvez por ter que me ver enquanto usava roupas de dormir.
— Estou atrapalhando o futuro casal?
— Não.
Ela disse.
— Sim.
Ele disse e eu ri, um riso que tentei engolir sem muito sucesso.
— Peço seu perdão, irmão, eu não queria interromper.
— Mas interrompeu — ele se adiantou em dizer como a criança mal humorada que eu ainda via. Exatamente igual a quando ele tinha dez anos e era eu quem o chamava para as aulas de sucessão.
— Não interrompeu, eu encontrei sua alteza o prín-... — Alanis começou a falar, tentando se safar da situação, mas Lucien a encarou com aqueles olhos pidões de gato que caiu da carruagem em meio a mudança e ela pigarreou antes de se corrigir — eu encontrei o Lucien por coincidência.
Ergui uma das sobrancelhas, já imaginando o que poderia ter acontecido entre os dois, mas me contive, mesmo querendo muito irritar meu irmãozinho, eu apenas assenti.
— Bom, nesse caso, foi uma bela coincidência, não concordam? Mas eu vou ter que ser chato e sugerir que os dois se separem e cada um volte ao seu respectivo quarto.
Lucien me fuzilou com os olhos sem pestanejar e Alanis assentiu como uma boa garota e eu me perguntei como esses dois poderiam se tornar os regentes do império, só que esse não era um problema meu.
— Eu vou voltar para o quarto primeiro — Ela se apressou em dizer e eu a vi soltar a mão de Lucien com certa dificuldade, mas assim que ela saiu de nosso campo de visão, ele se virou de costas para mim.
— Lucien! — Eu o chamei e ele me ignorou.
— Lucien! Por favor, não fique tão bravo comigo — tentei outra vez e ele se virou como um furacão cheio de raiva reprimida.
— Você me atrapalhou.
Eu tive que me conter para não sorrir.
— O que eu atrapalhei?
Era uma pergunta cínica, eu sabia disso, mas que tipo de irmão mais velho eu seria, se não zombasse um pouco do meu irmãozinho?
— Você… — ele parou antes de começar a me xingar e respirou fundo — esquece, eu não vou cair no seu joguinho.
Suspirei, porque quando o ruivinho começava a agir assim, queria dizer que as coisas estavam fora do controle dele.
— Certo, certo, eu não vou brincar, me fala, o que aconteceu?
Ele me olhou sobre o ombro, mas começou a andar de volta para o palácio.
— Eu a vi… e a chamei por seu nome.
Ergui uma das sobrancelhas.
— O quão estranho ela achou?
— Não muito — murmurou — mas ela parece ter medo de mim.
Assenti, porque no fim, isso era o esperado. Todos tinham. As pessoas gostavam de parecer desconstruídas, mas a verdade era que elas não eram e mesmo depois de duas décadas, ainda tinham muitas famílias que não aceitavam a nossa realidade.
Nossa mãe ainda tinha que encarar alguns estigmas (ao menos em reinos como esse) e isso não era diferente para nós, seus filhos. Lucien era só mais uma das vítimas, e o que mais poderia ser? Ele tinha tanto de seu pai e da nossa mãe, que chegava a assustar, tanto em beleza, quanto em poder. Lucien era o que os humanos normais consideravam monstruoso e não tinha nada que ele pudesse fazer quanto a isso.
— Você é um nobre — eu o lembrei — tem o sangue do império sagrado e a benção da deusa…
— Eu sei — ele grunhiu como se aquilo fosse uma maldição, e eu o confortei. Passei meu braço por cima de seus ombros e o puxei para perto.
— Venha, vamos subir… eu sei que vocês vão ficar bem, e sei que ela não vai ter medo de você, quando te conhecer.
Eu não sabia disso. Era um chute. Mas o meu irmãozinho não precisava saber disso.







