Mundo ficciónIniciar sesiónPor conta de tudo que eu tinha tido o desprazer de passar na minha vida anterior, tudo que eu queria era ir embora de uma vez, mas o meu pai insistiu que eu ficasse ao menos mais três dias malditos. Ele não parecia querer ter a imagem de um pai que vende a filha por medo de retaliação do príncipe, então quis fingir que éramos uma grande família feliz, nos despedindo e me preparando para o futuro que me aguardava, só que no fim, era apenas três dias aturando a mulher que ele escolheu como esposa, preparando o casamento tão sonhado de Lydia.
Ele tentou me convencer do contrário enquanto me chamava para jantar ou tomar café em família, só que os anos que eu havia tido o desprazer de viver ao lado de Dante, me deu a sagacidade de entender a culpa e a procura por um perdão que alivia a consciência e eu não daria isso a ele. A nenhum deles na verdade.
A carta foi enviada ao príncipe herdeiro no dia em que aceitei, os três dias se arrastaram como se fossem uma verdadeira tortura e quando enfim eu fui permitida partir, tive que assistir os três hipocritas se despedindo de mim, com uma falsa ternura.
— Iremos ao casamento, sua mãe e eu — meu pai disse com aquele tom cansado e culpado — Lydia estará em lua de mel, então será difícil para ela, mas… nós iremos comparecer, é claro.
Soltei o ar em uma risada baixa.
— Não perca o seu tempo, pai, não é necessário. Minha mãe já está morta, seria difícil levar suas cinzas ao meu casamento, e certamente deixaria sua marquesa desconfortável — o veneno em minhas palavras era palpável e eu vi os olhos do meu pai se arregalaram de surpresa, mas não me deixei abalar, era o que eu queria, porque o rosto de Joana, da mulher que tinha se jogado na cama do meu pai no dia em que minha mãe descobriu que estava grávida de mim, foi impagável. Eu vi a revolta, a humilhação, e isso me deixou bem feliz.
— Alanis!
Ele tentou me repreender enquanto Joana se fazia de vítima agarrada ao braço dele, mas eu apenas entrei na carruagem e fechei a porta sem olhar para trás.
Eles não se importavam se eu estaria viva depois de me enviarem ao palácio, porque isso manteria a família bem e Lydia segura, então, eu não me importava em continuar mantendo esse maldito papel de princesa obediente, enquanto a mulher que causou a morte da minha mãe, desfilava do lado do frágil e inútil marques, que não era capaz de entender um golpe quando ele era realizado embaixo de seu nariz.
“Que se fodam, todos eles.”
Eu não me lembrava muito bem de como tinha sido a viagem de Lydia até o palácio. No passado, o marquês tinha evitado o assunto do príncipe já que eu não havia cedido. Ele decidiu acelerar o casamento entre Dante e eu, porque nada mais poderia ser feito e o plano era usar Lydia como uma forma de amenizar as coisas, eu ainda conseguia ouvir a voz de Joana dizendo — ele certamente ficará feliz em receber nossa linda Lydia como esposa, ela é superior a Alanis em tudo, mas eu me pergunto como minha bebê irá lidar com a vida no palácio, ela é tão jovem e indefesa.
Meu pai não sabia que eu estava ouvindo, mas eu estava e Joana sabia disso. Ela sempre fez questão de me jogar contra Lydia e de incentivar uma maldita competição, mas tudo que eu queria nessa época, era me casar e ser feliz em paz com Dante ao meu lado. Era a única coisa que eu não queria entregar a Lydia. Eu tinha aceitado todo o resto.
Fui boba, porque Dante não era meu, talvez nunca tenha sido e provavelmente Joana e Lydia não tinham nada haver com isso, porque nos jogos dos homens, as mulheres eram adereços e nada mais. Mesmo o amor de Dante por Lydia, não devia passar de um capricho. Ao menos era como eu via as coisas agora.
Então, me recostei à carruagem e me permiti adormecer. A viagem demoraria semanas, ao menos duas, e eu não estava disposta a apenas olhar pela janela por todos esses dias. Passei minhas noites escrevendo em meu diário, em alerta, enquanto durante o dia, eu dormia dentro da carruagem. Para minha surpresa o percurso foi tranquilo e a capital me esperava com lírios dourados enfeitando os muros, as casas e todo o caminho da entrada até o palácio. Eu vi as pessoas me parando nas ruas para ver a minha carruagem passar e me perguntei se tinha sido essa mesma vista que Lydia havia tido na outra versão que vivemos.
Eu vi os portões do palácio, cobertos por lírios, sendo baixados com cuidado e quando o atravessamos, me deparei com o jardim belíssimo que o enfeitava. O perfume das flores e das rosas, os tons que se misturavam e se moviam em um degradê perfeito, feito de flores que se espalhavam até onde os olhos já não conseguiam alcançar.
Arfei de felicidade e a porta da carruagem foi aberta.
— Lady Alanis, é um prazer recebê-la — uma voz grave me pegou de surpresa e eu ergui meus olhos para encarar um dos homens mais bonitos que eu já tive o prazer de conhecer. Os fios negros caiam por sua testa de forma descuidada, mas as ondas eram tão perfeitas que eu me senti hipnotizada por alguns segundos até que meus olhos encontraram os seus, um par de ametistas, eu diria. Olhos roxos e profundos.
— Príncipe Sylas… — eu o cumprimentei, porque não existia em todo o império sagrado, alguém que não soubesse que o herdeiro da linhagem demoníaca, se chamava Sylas — agradeço por sua gentileza em me receber.
Ele sorriu, um sorriso largo e malicioso.
— A jovem me conhece? Pensei que não saberia quem sou, já que nunca fomos apresentados.
As palavras dele soavam como uma simples pergunta inocente, mas eu entendia bem o que realmente queriam dizer: como você sabe quem eu sou?
Engoli em seco.
— Seus olhos — murmurei — está no império sagrado, apenas aqueles da linhagem de Argon possuem essa cor específica.
Ele assentiu.
— Bom, vejo que meu irmão escolheu bem sua noiva — ele me ofereceu o braço para me guiar enquanto dizia com sinceridade velada — e eu que pensei que ele tinha um fraco por rostinhos bonitos e sorrisos gentis. Pelo visto, esse império ainda não está perdido.
Uma cobra.
Sim, aquelas palavras vieram como o singelo sibilar de uma cobra, mas… talvez isso fosse apenas um presságio, do que me esperava nesse palácio.







