CAPÍTULO 5

ALANIS ARCH

Depois de ser escoltada pelo herdeiro de um plano infernal, me sentei na minha cama e encarei a porta do meu quarto como encararia um portal para outro mundo. Eu sabia que estava no palácio imperial, mas isso não tornava tudo simplório como deveria ser qualquer outro noivado. Era muito diferente da minha vida anterior, onde fiquei presa a mansão do ducado, como uma mera empregada que vez ou outra servia de senhora da casa para o público. Bom, isso até que Dante se cansasse de bancar o bom marido e resolvesse assumir de vez o papel de viúvo de Lydia. Eu sempre me perguntei como meu pai, um marquês, nunca se opôs ao tratamento que eu recebia publicamente dos Shannet, mas com o tempo, me acostumei com a ideia de que não podia esperar nada daquele homem. Nem mesmo o mínimo.

Agora eu tinha que encarar uma outra realidade, uma onde eu não seria morta por Dante, mas ainda teria que lidar com um príncipe possivelmente psicótico. Todos sabiam dos boatos que circulavam pelo império e embora não se pudesse confiar em tudo que as pessoas diziam, a família imperial tinha os seus problemas e como filha de um marquês, eu sabia bem sobre isso. 

Melhor não pensar demais” eu disse a mim mesma e deixando toda aquela ansiedade de lado, eu me levantei, aproveitei um banho quente que estava pronto na banheira, esperando por mim, e me deitei. O meu plano era tirar um pequeno cochilo, mas quando afundei naqueles travesseiros macios, eu não consegui controlar, os meus olhos pesaram. Eu estava quase adormecendo quando tive a impressão de ver um sorriso gentil e cabelos de um ruivo acobreado, deitado ao meu lado, antes que eu pudesse ser pega pelo sono. Um toque quente e então… uma boa noite de sono pela primeira vez em dias.

Quando acordei, meu corpo estava enfim descansado, mas lá fora já era noite. Me senti culpada por perder as refeições, mas considerando a viagem, eu sabia que o rei e a rainha iriam me perdoar, ou ao menos eu esperava que sim. 

O silêncio que se espalhava pelas paredes do palácio deixava claro para mim que já estavam todos adormecidos a essa hora, mesmo assim, eu vi o jardim pela janela do quarto e não resisti. Vesti um robe simples e desci sem pedir permissão. Eu sabia que o palácio não era a minha casa, mas como noiva do príncipe herdeiro, ao menos o jardim me era permitido visitar – ou pelo menos, eu esperava que sim.

Eu mal havia pisado para fora do palácio quando o perfume das flores inundou meus pulmões. Era tão fresco, tão adocicado que me deixava feliz e me trazia antigas memórias de volta. De repente, me lembrei de quando criança, dos sonhos onde eu estava em um jardim cheio de tulipas, do sorriso do que seria o meu marido (que por muitos anos imaginei que seria Dante), da forma como ele me girava e ria enquanto as pétalas caiam por toda parte. Era primavera, eu conseguia ouvir o som de um piano forte sendo tocado ao fundo e uma parte minha sabia que era um de nossos filhos tocando. Minha mãe dizia que era um sinal de que eu seria muito feliz.

Sorri por um instante com aquelas memórias doces, tão doces quanto aquele perfume, mas um vislumbre ao fundo me pegou de surpresa. Uma silhueta esguia, cabelos bagunçados, um rosto que parecia esculpido em mármore por algum artista apaixonado. O tecido branco da camisa meio aberta, destacava uma tez pálida, e por algum motivo, os olhos de um verde profundo, guardavam uma tristeza que eu não conseguia entender, mas me atingiu como uma lança afiada.

Eu nem me dei conta de que estava me aproximando dele até estar a poucos pés de distância. O rosto delicado virou e eu o vi me encarar com surpresa, o ar ficou preso no meu peito e por um instante eu esqueci como respirar.

— Alanis… — o meu nome saiu por seus lábios rosados como se fosse um pecado e isso me pegou de surpresa.

— Como… como sabe quem eu sou? — Perguntei tentando voltar ao eixo, mas ele sorriu, um tão lindo que me desarmou por alguns segundos. 

— Seria estranho não saber como a mulher com quem eu quero me casar.

Pisquei, tentando processar as palavras que tinham saído daquela boca perfeitamente rosada, porque a imagem do príncipe herdeiro que eu tinha em mente e do homem à minha frente, eram completamente conflitantes. 

“Alanis… quando você vai aprender? A beleza não o impede de ser louco!” Eu tive que lembrar a mim mesma enquanto endireitava a postura e me curvava levemente.

— Peço perdão, vossa alteza imperial, eu não sabia quem o senhor era e cometi uma gafe. 

— Lucien — ele disse o próprio nome com sutileza, a ponta dos dedos tocando meu queixo e me fazendo erguer a cabeça o suficiente para olhar em seus olhos — você deveria me chamar pelo meu nome, não acha? 

Meu coração errou uma batida e tive que me lembrar que eu não podia me deixar levar por um rostinho bonito e palavras doces, mas era difícil quando saia da boca de uma estátua viva.

— Claro, como o senhor preferir — eu tentei dizer com cuidado, mas o sorriso nos lábios dele morreu como se eu o houvesse esfaqueado no coração e em seus olhos verdes, eu vi uma melancolia que me fez questionar se eu tinha falado algo errado. 

— Me desculpe… Você também tem medo de mim, não é? — Aquela pergunta veio cheia de uma dor que fez o ar pesar.

— Não! Não! Eu só estava tentando ser respeitosa com vossa alteza e-... — Eu me apressei em dizer e vi em seus olhos que ele não acreditava em mim.

— Está tudo bem… 

Ele tentou dizer, mas eu neguei com a cabeça e por um segundo, me esqueci de como ele era chamado por todo o império, me esqueci dos crimes que ele supostamente havia cometido, porque ver aqueles olhos de jade tão cheios de tristeza, fazia meu coração que era fraco pra beleza, se despedaçar.

— De verdade, Lucien, eu não tenho medo de você. 

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App