Mundo ficciónIniciar sesiónEu ainda estava ansioso, andando de um lado para o outro enquanto minha mãe suspirava, como se isso fosse algo sem sentido.
— Querido, você vai afundar o chão desse jeito — ela disse com aquele tom condescendente que usava sempre que queria me fazer parar, mas dessa vez tinha sido diferente.
— Ela não me respondeu. Não respondeu ao meu pedido e todo o reino sabe que ela é apaixonada por aquele-...
— Aquele imprestável — meu pai completou o que eu não consegui concluir e eu assenti.
— Exato! Aquele imprestável que herdou um ducado falido e usou dos piores meios para se reerguer. — Sibilei enquanto deslizava os dedos por entre os fios acobreados que herdei do meu pai — ela sequer deve fazer ideia disso, mas o persegue por aí e…
— E ela seria uma completa idiota se recusasse um casamento com você — minha mãe concluiu como se fosse a coisa mais simples do mundo, mas não era.
Eu sabia como as pessoas me viam, o que elas diziam por aí, como se referiam a minha família e se eu fosse enxergar as coisas de forma mais literal, bom, não era como se elas estivessem erradas de verdade.
Meu pai era um híbrido e sua existência por si só já era algo que ia contra “as leis da natureza” que as pessoas prezavam, mas como se isso não bastasse, foi por minha mãe que ele se apaixonou, uma sacerdotisa que foi abençoada pela Deusa, um receptáculo para os futuros herdeiros das maiores nações. Claro, ela não sabia disso no começo e conheceu cada um de seus maridos enquanto descobria o seu próprio caminho, mas isso não queria dizer que as pessoas comuns aceitariam isso com facilidade.
Uma rainha, e tantos reis, tantos reinos, tantas raças distintas. Eu era seu filho precioso, assim como meus irmãos, mas para as pessoas à nossa volta, éramos estranhos. Poderosos, sim, mas extremamente perigosos e claro, algo desconhecido. E talvez o fato de eu ter arrancado a cabeça de um porco chauvinista que teve a ousadia de falar merda sobre a minha mãe no jardim do palácio que ela tanto ama, não ajudou muito na minha fama.
Eu me tornei em um piscar de olhos, em um demônio. Um ser abominável, um príncipe louco que era capaz das maiores atrocidades e dali para frente, era difícil manter os boatos sobre controle, mesmo que eu não fizesse nada, ainda surgiram boatos e tudo piorou depois do nascimento do meu irmão mais novo. As coisas demoraram a se acalmarem e a verdade já não importava. Isso nunca tinha me incomodado, a opinião de todos era irrelevante desde que soubessem seu lugar, mas agora, importava, porque ela importava.
— Ela… é diferente, eu juro — murmurei enquanto me sentava ao lado da minha mãe. O olhar dela era sério, quase entediado e eu sabia que era culpa da corte, da forma como as pessoas eram irritantes aos olhos dela — eu vi, mãe, eu vi de verdade e não posso deixar aquilo acontecer.
Ela colocou uma das mãos sobre a minha e me deu um sorriso leve, vivo, como ela raramente dava quando estava em nossa casa.
— Eu sei, meu amor, e tudo vai ficar bem.
Meu pai não parecia muito certo sobre isso, ele estava sentado na poltrona, encarando nós dois como sempre e parecia não querer me dar falsas esperanças. Eu sabia. Tinha sido a mesma cara que ele fez ao me ver chorando, abraçado a um filhote de Wyvern que estava prestes a morrer. O Sacerdote disse que ele ficaria bem, e eu esperei que meu pai repetisse aquelas palavras, mas ele nunca as disse. Ele me encarou, com aquela mesma expressão e esperou, com a mão em meu ombro. Ele esperou que o Wyvern morresse e me explicou que as vezes as coisas não ficam bem, mas que você precisa passar por isso.
Só que não ia ser assim dessa vez.
— Você fez o seu melhor — ele disse quando pareceu notar meu descontentamento, e eu neguei com a cabeça.
— Eu deveria ter feito mais. Talvez exigido ao pai dela, ter mandado uma ameaça de verdade… ou ido até lá!
Minha mãe arfou ao ouvir isso como se fosse um absurdo.
— Ir até lá? Eu jamais deixaria você pisar naquele enxame de insetos. Se Alanis Arch for esperta o suficiente para merecer estar viva, ela mesma virá até você! — As palavras mal haviam saído da boca da minha mãe, quando Sylas entrou pela porta, carregando um envelope com o selo do marquês.
— Uma resposta, temos uma resposta — ele disse a jogando sobre a mesa e eu travei.
Duas semanas tinham se passado desde que eu havia enviado a carta para o marquês e a essa altura, estava começando a perder a esperança de ter uma resposta. Mas havia chego. Ela havia respondido. Ao menos eu esperava que sim.
— Abra.
Minha mãe disse e eu queria, mas vendo as possibilidades à minha frente, eu travei. Uma parte minha tinha medo de saber a resposta. Tinha medo de receber aquele maldito – mas infelizmente esperado – não.
Meu pai, parecendo disposto a diminuir meu sofrimento, pegou a carta e a abriu. Os olhos voando pelas palavras enquanto seu rosto continuava inexpressivo, ao menos até que sua boca se abriu e eu tive o veredito.
— Ela diz estar vindo ao palácio para as aulas que antecedem o casamento. Pelo tempo que a carta demorou para chegar, a jovem Alanis deve chegar ao palácio dentro de no máximo quatro dias.
Eu senti o baque no meu corpo quando caí sentado no sofá com o alívio que me atingiu e minha mãe segurou minha mão com um sorriso.
— Eu te disse, ela certamente não insistiria em um casamento com um mero duque, quando o príncipe herdeiro diz desejar desposá-la.
Tudo era tão simples para minha mãe e às vezes eu a inveja por isso.
— Não se preocupe tanto, irmão — Sylas foi o primeiro a dizer com um sorriso no rosto — a mãe tem razão, ela sempre tem, lembra-se?
Sorri, porque normalmente isso era verdade, mas era difícil aceitar isso quando se tratava de Alanis. Tudo sobre ela me deixava ansioso, me fazia sentir urgência, como se o futuro a frente onde eu poderia estar com ela, estivesse prestes a se desfazer em segundos.
— Sim, é verdade… — eu tentei concordar mas a minha visão ficou turva e com todos esses anos, eu já sabia o que isso queria dizer.
— Lucien! — Eu ouvi minha mãe gritar meu nome, mas já era meio tarde, a luz tinha se desfeito em escuridão e eu só os ouvia de fundo.
— Tranque as portas, vamos levar ele para o quarto! — Meu pai dizia a Sylas e eu encarei a escuridão afundando naquele lugar, deixando meus pais e o meu irmão para trás enquanto ouvia aquele choro familiar.







