Capítulo Um

Damon

Acordo com uma fisgada aguda no ombro, uma dor quente e incisiva, como se alguém tivesse cravado uma lâmina incandescente bem no centro da articulação e girado sem qualquer pressa. O incômodo vem acompanhado de um latejar persistente, pulsante, que se espalha pelo braço e sobe até o pescoço, roubando qualquer resquício de conforto que o sono poderia ter deixado. O teto do quarto ainda está mergulhado na penumbra, as cortinas pesadas bloqueando a luz agressiva do deserto lá fora. O ar está carregado, denso, impregnado com o cheiro da noite que ainda não terminou completamente.

Mal dormi. Algumas horas quebradas, superficiais, dessas que não descansam porra nenhuma. Mas, honestamente, não me importo. Valeu cada segundo. Cada gemido abafado, cada toque, cada corpo quente se contorcendo sob o meu. As garotas eram boas demais — bonitas, famintas, ansiosas para dizer que tiveram um pedaço da lenda. Se entregando fácil, sorrindo como se fosse um privilégio absurdo serem escolhidas, como se existisse algum tipo de significado naquilo. Não existe. Nunca existiu.

Me sento na ponta da cama devagar, soltando o ar pelos dentes enquanto o ombro protesta com mais intensidade. Minha respiração sai pesada, irregular, e meu corpo inteiro carrega os vestígios da noite: cheiro de cigarro grudado na pele, suor seco, perfume feminino doce demais misturado ao ar abafado do quarto. Passo a mão pelo rosto, sentindo a aspereza da barba e o cansaço acumulado nos músculos.

Lá fora, do outro lado da porta, vozes. A de Nick se destaca, alta, despreocupada, misturada com risadas femininas — agudas, provocantes, irritantes àquela hora. Eles ainda estão nessa. Provavelmente espalhados pela sala, transformando o lugar em um maldito motel improvisado. Não é novidade… mas ainda assim me incomoda. Aqui dentro, não.

Meu quarto é outra coisa.

Meu quarto não é extensão de festa, nem playground para ilusão barata. Nenhuma mulher dorme aqui. Nenhuma fica. Nenhuma acorda ao meu lado achando que isso significa algo além do que foi: uma noite, um corpo, um descarrego de tensão. Não existe espaço para expectativa dentro dessas paredes. Nunca vai existir.

Estendo o braço com cuidado até o móvel ao lado da cama, ignorando o puxão incômodo no ombro, pego o celular e ligo para Nick. Chama uma, duas vezes… ele atende rindo, como se o mundo fosse uma piada contínua.

— Se livra delas. Não quero ver ninguém quando sair daqui…

— Cobra, acordado já? — ele responde, a voz carregada de diversão. — Não quer uma rodada de sexo matinal, não? As meninas ainda estão aqui, praticamente implorando…

— Eu disse pra se livrar delas — corto, seco, sem elevar o tom, mas deixando claro o suficiente.

O silêncio do outro lado dura um segundo a mais do que o normal.

— Tá falando sério?

— Se você e Elliot quiserem continuar essa putaria, levem elas pra um motel ou pra casa de vocês. — Minha voz desce um tom, firme, afiada. — Eu não quero essas vadias aqui quando eu sair do quarto. Entendeu?

Mais um breve silêncio. Ele sabe reconhecer quando não tem espaço pra discutir.

— Beleza… beleza. Já entendi. Vou cair fora com o Elliot.

Desligo antes que ele tente prolongar a conversa.

Jogo o celular de volta no móvel e me levanto, sentindo o ombro reclamar mais uma vez, como se estivesse me lembrando de que ainda não estou inteiro. Caminho até o banheiro com passos pesados, empurrando a porta e fechando atrás de mim. Giro o registro do chuveiro e, segundos depois, a água quente despenca sobre meu corpo como uma cortina espessa.

Inclino a cabeça para trás, deixando a água escorrer pelo rosto, pela barba, pelos ombros tatuados, descendo pelo peito marcado de cicatrizes antigas — lembranças permanentes de cada luta, cada erro, cada vitória arrancada na base da violência. Quando a água atinge o ombro lesionado, o impacto arranca um grunhido baixo da minha garganta. Arde. Pressiona. Mas, aos poucos, transforma a dor em algo mais suportável, mais controlável.

Fecho os olhos e respiro fundo.

O calor solta um pouco da tensão dos músculos, engana o corpo por alguns minutos, faz parecer que está tudo sob controle. Mas eu sei melhor. Isso é só uma trégua curta. A dor vai voltar, mais cedo ou mais tarde, e quando voltar, vai cobrar caro.

E eu não tenho espaço pra isso.

A imprensa não pode nem desconfiar. Se essa merda vaza, viro alvo fácil. Carne fresca. Vão entrar no ringue comigo com os olhos brilhando, sentindo o cheiro de fraqueza como tubarão na água. E eu não lutei tudo que lutei pra virar presa de ninguém.

Abro os olhos devagar, encarando o vapor que começa a tomar conta do espelho.

Eu não sou presa.

Sou o cara que quebra, não o que é quebrado.

Sou predador.

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