CAPÍTULO 3

Ele se afastou e me encarou através das lentes escuras, mas nem o vidro mais escuro foi suficiente para esconder o brilho dourado que queimava em seus olhos.

De repente, ele se afastou mais e me soltou.

No mesmo instante, recuei, saltando para fora da cama como se o toque dele me queimasse.

O olhei em choque, cobrindo o pescoço com a mão, sentindo a pele latejar e arder, como se tivesse sido marcada a fogo brando. A raiva corria nas minhas veias, quente e violenta, inundando cada parte do meu ser.

Um sorriso frio, cortante e vazio surgiu nos lábios dele.

Seu rosto era uma máscara inquebrável; por trás daqueles óculos, eu não conseguia ler nada, não conseguia decifrar o que se passava naquela cabeça perturbada.

— Você veio me matar? — perguntou, e o sorriso se tornou melancólico, quase triste. — Bem… Você chegou atrasada, pequena. Meu pai já me matou há muito tempo, quando tirou de mim tudo o que eu mais amava e desejava.

Fiquei paralisada por um segundo, absorvendo aquelas palavras, mas a fúria falou mais alto. A dor dele não importava. Nada do que ele sentia importava para mim.

— E por que me marcou, então? — gritei, a voz ecoando pelo quarto, carregada de toda a minha revolta. — Você não tinha esse direito! Ninguém tem!

Sua expressão ficou séria, dura como pedra. Ele deu um passo à frente, imponente, fazendo o ar parecer mais pesado.

— Para você sentir o quanto estou morto por dentro — respondeu, baixo, firme, sem piscar. — Para você conhecer o inferno que eu estou passando todos os dias. Não era isso que você queria? Me causar dor? Agora… a dor é nossa.

Fiquei calada, franzindo o cenho, sentindo uma confusão dolorosa.

Esse macho era um enigma completo. Um quebra-cabeça de peças tortas, embaralhadas, que eu não conseguia organizar, muito menos entender.

Minha loba se remexeu dentro de mim, uivando baixo e melancólica.

Ela estava sentindo. Sentindo através do vínculo recém-criado, porque ele deixou que eu sentisse. Ele abriu as portas da própria dor e me jogou para dentro. Eu sentia o vazio, a escuridão, a perda que consumia ele há anos.

“Sério que você se importa com ele?” Sibilei mentalmente, gritando com a minha própria essência, com a parte de mim que já começava a trair tudo o que eu jurava. “Ele é o culpado! Ele é o responsável por tudo! Ele merece toda a dor do mundo!”

Ele me deu as costas, ignorando completamente a minha existência e toda a fúria que eu emanava.

Caminhou até a mesa de canto e serviu-se de um copo de uísque, com movimentos lentos, preguiçosos, como se estivesse sozinho naquele ambiente e não tivesse acabado de mudar a minha vida para sempre.

— Pode ir embora se quiser, “companheira” — disse, e a palavra saiu da sua boca carregada de ironia, como se fosse um xingamento, como se fosse a pior das maldições que existia.

O olhei, sentindo o ódio borbulhar ainda mais forte, misturado com uma raiva que eu não sabia explicar.

— Eu não vou embora sem o que vim buscar — cerrei os punhos, as unhas cravando fundo na palma da mão até sangrar um pouco. — Eu vim acabar com você, e vou matar você, custe o que custar.

Ele nem sequer se virou imediatamente.

Apenas caminhou até a poltrona de couro escuro e se sentou, recostando-se com todo o tempo do mundo, o copo ainda na mão. Tomou um gole longo, apreciando a bebida amarga, e finalmente seus olhos pesados se voltaram para mim.

Senti cada pelo do meu corpo arrepiar, mesmo sob a proteção daqueles óculos escuros que ele teimosamente usava. Mesmo sem ver claramente seus olhos, eu sabia: ele me inspecionava de cima a baixo, desvendando segredos, avaliando cada movimento meu, cada tremor que eu tentava esconder.

— Bem… o que está esperando? — perguntou, com uma voz arrastada e cheia de tédio, como se estivesse esperando por um espetáculo que ainda não havia começado. — Ou vai ficar aí parada o dia todo me encarando?

Tomou o último gole de sua bebida e bateu o copo de leve sobre a mesa de centro. O som seco e firme ecoou pelo ambiente silencioso.

Rosnei para ele, deixando os dentes à mostra, a fúria tomando conta de cada célula do meu corpo.

E quando percebi, já havia pulado em sua direção, as garras esticadas e prontas para rasgar qualquer coisa que estivesse no caminho. Eu queria sangue. Eu queria que ele sentisse o que eu sentia.

Mas ele foi mais rápido.

Muito mais rápido.

Com um movimento simples, quase preguiçoso e fácil, ele me agarrou pelo pulso, desviou do meu ataque com um leve giro e me imobilizou antes que eu pudesse sequer piscar.

Num segundo, eu estava no ar, pronta para atacar… no outro, seu rosto estava perto do meu, tão perto que eu podia sentir o calor da pele dele e o cheiro forte de uísque misturado com algo selvagem, úmido e único — o cheiro que me viciava e me enojava ao mesmo tempo.

Um sorriso sombrio, intenso e cheio de malícia surgiu em seus lábios.

Tudo nele era atraente e perturbador. Perigoso e magnético. Uma armadilha da qual eu não conseguia escapar.

Minha loba uivou de animação dentro de mim, querendo se aproximar ainda mais, querendo se entregar, querendo o contato.

E eu… eu lutava com todas as minhas forças contra isso. Lutava contra o desejo insano que meu próprio corpo sentia por esse homem que eu deveria odiar com todas as minhas forças.

— Precisa ser mais rápida… — Ele sussurrou, a voz rouca arrepiando cada nervo meu. — Parece uma filhote inexperiente desse jeito… Tão... desengonçada.

Me debati com toda a minha força, tentando me soltar, tentando acertá-lo com o outro braço, com os pés, com qualquer coisa. Mas, num piscar de olhos, a posição mudou completamente: eu já estava sentada no colo dele, completamente aprisionada entre suas pernas largas, com suas mãos grandes e firmes segurando-me na cintura, me mantendo exatamente onde ele queria.

Perto demais. Muito além do seguro.

Tentei me afastar, me arrastar para trás, sair de cima dele, mas ele não deixou. Apertou-me um pouco mais, firme, me mantendo imóvel e presa ao seu corpo.

— Melhor ir embora enquanto pode, fêmea — Ele disse, e o tom de voz mudou, ficando mais sério, mais baixo, quase um aviso mortal, um rosnado baixo contra a minha pele. — Não me teste. Você não vai gostar do resultado.

Prendi o fôlego, meu coração batendo tão forte que eu tinha certeza que ele podia ouvir as batidas desesperadas contra o meu peito.

Ele correu o olhar devagar, do meu rosto, descendo pelo meu pescoço, passando pela marca que ele mesmo tinha feito, percorrendo todo o meu corpo, como se estivesse gravando cada detalhe na memória… ou como se estivesse apenas avaliando algo que não queria, mas que não conseguia tirar os olhos.

E então, sem aviso, sem explicação, ele me largou.

Me empurrou para longe com força bruta, como se eu fosse algo sujo, indesejado ou descartável.

Saltei para trás, cambaleando e caindo de joelho no chão frio, me arrastando alguns centímetros para longe dele como se ele fosse fogo queimando tudo o que tocava.

Senti o rosto queimar, ardendo de vergonha.

De raiva de mim mesma.

De confusão.

Eu era uma assassina profissional. Treinada para matar, para agir, para não sentir medo, não sentir nada que não fosse foco e dever.

Mas ali, naquele chão de madeira fria, perto dele… eu parecia apenas uma iniciante. Uma menina perdida e estúpida que não se reconhecia mais.

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