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Hélio Valente movia-se como uma sombra no meio da tempestade. Isadora só conseguiu fechar os olhos, enterrando o rosto na curva do pescoço dele enquanto atravessavam a escuridão do jardim. O cheiro de Hélio — uma mistura de chuva, pele e um aroma masculino intenso — parecia entorpecer seus sentidos, fazendo-a esquecer por um instante que aquele homem era um estranho que acabara de arrancá-la da beira da morte.

Quando a porta de um SUV preto escondido atrás dos arbustos se abriu, Hélio não foi gentil. Ele praticamente lançou Isadora no banco traseiro frio antes de saltar para o banco do motorista. O motor ronronou baixo, quase inaudível, e o veículo disparou, deixando para trás a Barra da Tijuca.

Durante trinta minutos, o silêncio dentro do carro foi tão denso que Isadora podia ouvir o próprio coração disparado. Hélio não disse uma palavra. Seus olhos permaneciam fixos no retrovisor, monitorando cada movimento atrás deles com a atenção de um predador.

Por fim, chegaram a um apartamento cobertura em uma área isolada, com vista para a linha escura da costa do Rio. O lugar era minimalista, frio e marcadamente masculino. As paredes eram cinza-escuras, e os móveis de couro pareciam caros, porém funcionais.

— Entre — ordenou Hélio, de forma direta, após trancar a porta com um sistema de segurança biométrico.

Isadora ficou parada no meio da ampla sala de estar. Seu vestido de seda marfim estava encharcado, colando em seu corpo como uma segunda pele. Ela tremia — não apenas de frio, mas também sob o olhar de Hélio, que agora a percorria da cabeça aos pés. Não havia piedade naquele olhar; era o de alguém avaliando algo valioso.

— Você está completamente molhada — disse ele, em tom baixo. Aproximou-se, os passos pesados ecoando no piso de madeira. — Tire o vestido.

Isadora se sobressaltou. Seus olhos se arregalaram.

— O quê? Não!

Hélio parou diante dela. A proximidade era tão grande que Isadora sentiu o calor que emanava do corpo dele. Ele era muito mais alto, seus ombros largos envolvendo-a, criando uma sensação ao mesmo tempo intimidadora e… inexplicavelmente atraente.

— Não seja tola, Isadora. Você vai entrar em hipotermia — disse ele, erguendo a mão e segurando seu queixo com firmeza, obrigando-a a olhar para cima. — Ou quer que eu faça isso por você?

Isadora engoliu em seco. Havia algo nos olhos escuros de Hélio — algo mais perigoso do que a arma em sua cintura. Com mãos trêmulas, ela alcançou o zíper nas costas do vestido. Hélio não desviou o olhar. Ele continuou observando, como se a desafiasse a demonstrar coragem.

O tecido de seda caiu no chão com um som suave, deixando Isadora apenas com sua lingerie de renda delicada. Sob a luz suave, sua pele clara parecia brilhar com as gotas de chuva restantes. Ela se sentia exposta — não apenas fisicamente, mas emocionalmente.

Hélio pegou uma camisa branca limpa em seu quarto e a jogou em direção a ela.

— Vista isso. Depois sente-se. Precisamos falar sobre o contrato.

Após se trocar — a camisa larga dele cobrindo até a parte superior de suas coxas, mas ainda delineando sua silhueta — Isadora sentou-se no sofá de couro frio. Hélio voltou sem a jaqueta tática. Usava apenas uma camiseta preta justa, revelando os músculos dos braços marcados por tatuagens tribais. Em sua mão, havia duas folhas de papel e uma caneta prateada.

Ele colocou os documentos sobre a mesa de centro e sentou-se diante dela, cruzando as pernas com aparente tranquilidade, embora ainda vigilante.

— Este é o seu bilhete para continuar respirando, Isadora — disse ele, com a voz suave e áspera ao mesmo tempo. — Um casamento por contrato. Esse status legal me torna seu guardião legítimo. Se Otávio ou sua família tentarem tocar em você, não estarão lidando apenas com mercenários, mas com a lei protegendo uma esposa.

Isadora leu os termos com os olhos ainda úmidos:

Acesso total: A Parte Dois (Isadora) deve permanecer ao alcance da Parte Um (Hélio) 24 horas por dia.

Confidencialidade absoluta: Nenhuma comunicação externa sem autorização.

Obrigação pública: A Parte Dois deve agir como esposa fiel em público, se necessário.

Direito de posse: Durante a vigência do contrato, a segurança e as decisões de vida da Parte Dois ficam totalmente sob responsabilidade da Parte Um.

— Direito de posse...? — murmurou Isadora, olhando para ele, assustada. — Você está me transformando em sua prisioneira?

Hélio inclinou-se para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos. Aproximou o rosto do dela, o hálito com leve aroma de menta e tabaco tocando seus lábios.

— Estou te tornando minha, Isadora. Há uma grande diferença — sussurrou. Ele ergueu a mão e afastou uma mecha molhada do cabelo dela, colocando-a atrás da orelha. O toque quente em sua pele fez Isadora estremecer. — Lá fora, você é um alvo. Aqui, sob minha proteção, você é uma rainha em uma gaiola de ferro. Eu vou te dar uma proteção que nem o dinheiro do seu pai pode comprar. Mas o preço é... sua obediência.

O coração de Isadora batia descompassado. A tensão entre eles era quase palpável. Ela sabia que deveria sentir apenas medo, mas havia algo sombrio dentro dela que reagia à presença dominante daquele homem. A traição de Beatriz e Otávio destruíra seu mundo — e agora Hélio Valente era a única âncora que restava, por mais perigosa que fosse.

— Por que você está fazendo isso? — perguntou ela, rouca. — Um ex-soldado de forças especiais como você não faria isso por pena.

Hélio ficou em silêncio por um momento, os olhos deslizando até os lábios levemente entreabertos dela.

— Otávio Menezes tem uma dívida de sangue comigo. Destruí-lo tirando seu bem mais valioso — você — é um bônus bastante satisfatório.

Ele estendeu a caneta para Isadora.

— Assine. Torne-se minha, e eu colocarei a cabeça deles diante de você em uma bandeja de prata.

Isadora olhou para a caneta, depois para o homem à sua frente. Sabia que, ao assinar aquele contrato, não estaria apenas entregando seu nome — estaria entregando a si mesma a um homem possivelmente mais perigoso do que aqueles que a perseguiam.

Mesmo assim, com a mão ainda trêmula, pegou a caneta e assinou o papel.

Hélio recolheu os documentos. Um leve sorriso — quase um sorriso de vitória — surgiu em seu rosto rígido. Ele se levantou e estendeu a mão para ajudá-la, mas, em vez de soltá-la, puxou Isadora contra seu peito.

A mão grande dele segurou sua cintura, trazendo-a para perto o suficiente para que ela sentisse o batimento firme do coração dele. Hélio inclinou a cabeça, seus lábios roçando a orelha dela.

— Bem-vinda ao seu novo mundo, minha esposa — murmurou. — Agora, vamos fazer esse casamento parecer bem real para qualquer um que ouse observar.

Ele beijou o pescoço de Isadora, um gesto intenso e cheio de posse, arrancando dela um leve gemido enquanto suas mãos se agarravam aos ombros fortes dele.

Ela sabia que, a partir daquela noite, não havia mais volta.

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