A Noiva do Silêncio
A Noiva do Silêncio
Por: Wednesday Adaire
1

A tempestade que atingiu o Rio de Janeiro naquela noite não era apenas uma chuva de verão comum; era um dilúvio que parecia querer lavar os pecados impregnados no mármore Carrara da mansão da família Cavalcanti.

No distrito da Barra da Tijuca, as palmeiras se curvavam sob o chicote do vento, e o som dos trovões ecoava pelas paredes de vidro da sala de estar como o rugido de uma fera aprisionada.

Isadora Cavalcanti caminhava apressada pelo corredor da ala oeste. O tecido frio de seda do vestido de grife que vestia roçava em suas pernas, um lembrete constante da vida privilegiada que sempre levara. Mas, naquele momento, todo aquele luxo parecia sufocante.

Ela só precisava pegar seu celular. Havia deixado o aparelho sobre a mesa de carvalho no escritório de seu pai depois de um jantar de negócios que durou horas — um jantar no qual, como sempre, fora tratada apenas como uma peça de exibição, bonita e silenciosa.

Ao se aproximar da sólida porta de madeira de teca, Isadora percebeu que ela não estava completamente fechada. Um feixe de luz amarelada escapava para o corredor escuro e, junto com ele, vozes que fizeram os pelos de sua nuca se eriçarem.

— Isadora precisa ser eliminada, Beatriz. Ela viu a lista de envios na mesa hoje à tarde. Ela não é tão ingênua quanto você pensa — a voz grave e rouca de Otávio Menezes cortou o silêncio.

Isadora parou bruscamente. Seu coração disparou contra as costelas, o ritmo irregular doía em seu peito. Otávio era o braço direito de seu pai, um homem que ela sempre associara a charutos caros dançando entre dedos manchados por um sangue invisível.

— Eu sei! Mas ela é minha prima, Otávio! Se meu pai — ou pior, se os outros acionistas — descobrirem que uma Cavalcanti foi executada dentro desta casa... — a resposta de Beatriz Cavalcanti veio carregada de frieza irritada. Não havia afeto em sua voz, apenas cálculo. — O escândalo seria irreparável. Nossa herança depende da estabilidade da empresa.

— Então não faremos isso aqui — retrucou Otávio, e Isadora quase pôde ouvir o sorriso cruel em sua voz. — Faça limpo. Um acidente na Linha Amarela. Um caminhão sem freio, o carro perde o controle... amanhã de manhã, Isadora será apenas uma tragédia na manchete do jornal. Uma herdeira que se foi cedo demais.

O ar pareceu desaparecer dos pulmões de Isadora. O mundo de certezas onde crescera — o nome da família respeitado, a segurança dos muros altos, a lealdade de sangue — desmoronou em segundos.

Ela olhou para as próprias mãos: tremiam violentamente. O celular que acabara de pegar da mesa lateral ainda estava no modo de gravação de voz — um hábito bobo que usara mais cedo para registrar referências de tecidos. Sem perceber, estava gravando sua própria sentença de morte.

O medo a paralisou, mas o instinto primitivo de sobrevivência gritou mais alto. Ela precisava sair dali. Agora.

Ao tentar recuar, porém, o salto de seu sapato bateu em um vaso de porcelana decorativo. O som, embora pequeno, ecoou como um tiro no corredor silencioso.

— Quem está aí?! — gritou Otávio, seguido pelo som de uma cadeira sendo arrastada.

Isadora não pensou. Correu.

Não em direção à saída principal — onde os seguranças, ela agora percebia, eram mais leais ao dinheiro de Otávio do que à sua vida —, mas para a varanda dos fundos, voltada para o amplo jardim tropical. Seus pulmões ardiam enquanto atravessava a escuridão. A chuva a atingiu como chicotes assim que abriu a porta de vidro.

Ela estava prestes a pular no gramado quando uma mão grande, envolta em uma luva tática preta, surgiu das sombras de um pilar. Antes que pudesse gritar, foi puxada para trás com força brutal. Um braço de aço envolveu sua cintura, erguendo-a do chão, enquanto a outra mão tampava sua boca com firmeza quase violenta.

O corpo de Isadora ficou preso entre a parede fria de concreto e um peito largo, duro como aço. O cheiro de chuva, fumaça e um perfume amadeirado com um toque metálico invadiu seus sentidos.

— Fique quieta. Não faça nenhum som — a voz sussurrada em seu ouvido era um barítono grave, carregado de autoridade absoluta. Não era um pedido; era uma ordem.

Isadora ergueu o olhar, lutando contra as lágrimas e a chuva. Sob o clarão de um relâmpago que rasgou o céu do Rio de Janeiro, viu o rosto do homem. Um rosto esculpido nas sombras: maxilar marcado, barba por fazer e olhos tão escuros que pareciam dois abismos. Ele não era um dos convidados. Vestia roupas funcionais e carregava um fuzil compacto preso ao corpo por uma bandoleira.

— Quem é você? — sussurrou ela quando ele afrouxou o aperto, embora ainda a mantivesse firme.

— Alguém que você não vai querer como inimigo — respondeu o homem, os olhos varrendo o jardim em busca de movimento. — Meu nome é Hélio Valente. E se você quiser viver até o amanhecer, precisa parar de tremer e fazer exatamente o que eu mandar.

Passos pesados ecoaram na varanda acima deles. Feixes de lanternas começaram a varrer a vegetação. Isadora fechou os olhos, agarrando a jaqueta tática de Hélio como se fosse a única coisa real em meio ao caos.

— Eles... eles vão me matar. Beatriz, Otávio... — sua voz falhou.

Hélio olhou para o celular pressionado contra o peito de Isadora. Viu a luz vermelha da gravação ainda acesa. Um lampejo de algo — talvez respeito, talvez apenas interesse estratégico — cruzou seu olhar frio.

— Você tem a prova. Mas não tem o poder para usá-la. Sem mim, Isadora, você é só um belo cadáver esperando para ser enterrado — disse ele, aproximando o rosto do dela. A chuva escorria por sua testa, mas ele sequer piscava. — Eu posso te tirar daqui. Posso te manter viva, escondida em um lugar onde nem os homens de Otávio vão te encontrar.

— O que você quer em troca? — perguntou Isadora, a voz um tom mais agudo. Sabia que homens como Hélio não agiam por caridade.

Hélio sorriu — mas não havia calor naquele gesto. Era o sorriso de um jogador que acabara de receber a mão vencedora.

— Proteção total exige acesso total. Para te manter segura vinte e quatro horas por dia, sem que seu pai chame a polícia por sequestro ou Beatriz use a lei contra nós, precisamos de um vínculo impossível de quebrar — ele a puxou mais para perto, o calor do corpo dele sendo a única coisa que a impedia de congelar. — Você vai assinar um contrato. Nós vamos nos casar. Amanhã.

O mundo de Isadora girou.

— Casar? Com um estranho? Isso é loucura!

— Loucura é morrer por causa dos segredos da sua família — rebateu Hélio, ouvindo latidos ao longe. O tempo deles estava acabando. — Escolha, Isadora. O altar ou o necrotério. Não tenho a noite toda.

Isadora olhou para a mansão que antes era seu lar e agora era sua sentença de morte. Depois, encarou o homem perigoso diante dela. Nenhuma das opções oferecia segurança real — mas uma delas oferecia uma chance de sobreviver... e de se vingar.

— Eu aceito — sussurrou.

Hélio não perdeu tempo. Com agilidade impressionante, tomou Isadora nos braços e saltou o muro lateral, desaparecendo na escuridão da tempestade antes que as lanternas os alcançassem.

O acordo havia sido selado pela chuva e pelo medo.

Isadora Cavalcanti acabara de se tornar a noiva de um fantasma.

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