CAP 3

Elisie Charpentier

Eu passei o dia olhando o vestido que Henri separou. É, ele que escolheu a minha roupa.

Ele deixou em cima da minha cama, exposto e ousado só para me mostrar que nem a minha roupa eu poderia escolher. Se eu inventar de colocar outra coisa, é capaz de ele fazer uma cena e ainda fazer algo que nunca fez. Me tocar.

O vestido é uma peça vermelha, longa e com brilhos quase imperceptíveis. Ele tem é de apenas um ombro, com um caimento leve e uma fenda lateral. É bonito, confesso, mas eu não escolheria para um jantar numa mansão. Isso é para algum evento maior.

Mas, terei que usar isso mesmo.

O dia passa com lentidão e uma sensação de nervosismo que me consome. Eu quase não comi nada hoje por causa disso. O estômago não para de revirar. Henri fez questão de ter uma pessoa para me arrumar e virá uma cabeleireira para fazer o serviço. Cabelos e maquiagem. As minhas unhas já estão feitas. Eu mesmo faço e estão num tom nude lindo.

Eu gosto!

Por sorte, Henri não está em casa hoje e saiu todo feliz. Pelo jeito, o motivo do jantar na mansão Bellamy é um cargo novo para ele na máfia. Uma mudança de posto. Henri está andando nas nuvens e pelo que entendi, é uma certa tradição esse jantar para anúncios de trabalho.

Não faço ideia de como ele conseguiria isso.

Lucien Bellamy é um homem poderoso na França. Ele que comanda todos os negócios da máfia. Ele é a lei, é a imagem e é a soberania completa. Ninguém o confronta, ninguém o contesta e muito menos recua numa ordem dele. Todos o temem. Eu confesso que nunca o vi pessoalmente, mas dizem que ele tem olhos negros e um semblante de homem perigoso.

O Don que manda e desmanda nas famílias francesas. É misterioso. Perigoso. Ousado. Ambicioso. O tipo de homem que mata com a mesma calma com que serve um vinho. Dizem que ele nunca sorrir. Jamais. E outra coisa que dizem é que ele é impulsivo.

Ele não tem medo de nada.

— Senhora! — Eu olho na direção. — A cabeleireira chegou.

— Perfeito! — Eu vejo as horas e são pouco mais das cinco da tarde.

Pouco depois a mulher entra e vejo malas e bolsas. Já noto que isso vai demorar, mas temos tempo.

— Muito prazer, senhora Dumas. Eu sou Violet. — Eu aceno. — Pode ficar tranquila que sou uma profissional exemplar. Esse é o vestido que irá usar?

— Sim, é esse! Será um jantar importante.

— Perfeito! Eu vou mostrar uns modelos de penteados e a senhora me diz o que gosta mais. Tudo bem?

E nisso, eu vou vendo as fotos. Eu escolho um coque baixo, com uma franja caída levemente, mas presa por detrás da orelha. São minutos de laquê, puxa aqui e ali. Tem secador, chapinha e eu fico aqui, apenas pensando e vendo que logo vai chegar a hora de irmos.

Está marcado para às 21h. O nervosismo aumenta mais.

Depois, tem a maquiagem e tem toda uma preparação de pele. São horas aqui e tento relaxar um pouco.

— A sua sobrancelha é linda... quer manter o natural dela?

— Prefiro! — Ela acena.

E aqui, eu continuo até avançarmos.

O cheiro de laquê ainda está forte no quarto, e por um instante, me sinto sufocada. Violet termina de ajeitar a última mecha do meu coque e sorri satisfeita com o resultado, como se tivesse acabado de criar uma obra-prima.

— Pronto, senhora Charpentier. Está perfeita.

Perfeita.

Engraçado ouvir isso quando por dentro eu me sinto um redemoinho. Mas sorrio de volta, porque é o que esperam de mim.

Quando ela se despede, o silêncio volta a ocupar o espaço. Só o tique-taque do relógio preenche a distância entre eu e a noite que se aproxima. As horas parecem arrastar os pés, como se soubessem que cada minuto me empurra mais para um ponto sem volta.

Caminho até o espelho.

O reflexo mostra uma mulher elegante, quase inatingível, mas os olhos... ah, os olhos denunciam tudo. Estão cansados, vigilantes e com algo que parece mais coragem do que medo.

Toco de leve a lateral da fendä do vestido, ajusto o tecido e observo como o vermelho parece vivo, pulsante como sangue que ainda esquenta nas veias.

Na penteadeira, coloco o batom que usei, o mesmo tom que Henri gosta. Ou, melhor, o tom que ele mandou eu usar.

Hoje, deixo que ele pense que venceu.

Pego minha bolsa. Dentro dela, o conteúdo que muda destinos. É pequena, delicada, mas guarda algo que pesa mais do que ouro. Seguro firme, como se temesse que ela criasse asas. Ninguém precisa saber o que está ali. Ainda não.

Quando termino de me vestir, o relógio marca oito e meia. Faltam trinta minutos.

Eu me sento à beira da cama e fecho os olhos. Tento respirar fundo, mas o ar parece grosso.

Tudo o que ouço é o som do meu coração.

É hoje.

A minha vida muda hoje!

Repito a frase como um mantra. Não há espaço para hesitação.

O som da porta principal me desperta. Passos firmes ecoam pelo corredor.

Henri chegou.

Levanto-me depressa e caminho até a escada. Ele aparece com o mesmo terno de sempre, mas há algo diferente no olhar. Um brilho arrogante, quase embriagado de poder.

Ele segura o casaco sobre o ombro e me observa de cima a baixo, em silêncio, por longos segundos.

Depois, a boca abre...

— Está... apresentável.

A palavra cai como uma sentença fria.

Eu apenas aceno, evitando qualquer provocação. Não vale a pena tentar discutir ou apenas falar com esse homem.

Já cansei!

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