Mundo de ficçãoIniciar sessãoElisie Charpentier
Aqui no meu quarto, eu estou trancada e deitada na minha cama.
Sim, eu tenho um quarto separado e foi a melhor decisão da vida. Enquanto eu trabalho nos assuntos aqui, eu fico pensando em até quando eu vou viver assim. Eu tenho o que preciso, mas não sei ainda por onde começar.
Não é fácil, nunca foi. Na verdade, eu não lembro de nada que tenha sido fácil na minha vida.
Eu nunca fiz algo simples como pessoas normais.
Eu nunca tive a experiência de ir ao cinema. Nunca fui de sair para encontrar amigas, afinal, eu nunca tive isso. Amigas! Como deve ser, hein? Eu nunca fiz festas, comemorei alguma coisa boa de verdade e sorrir com o sentimento de felicidade já nem sei se tive. Chorei mais do que sorri.
A diferença de antes para hoje é que não sou surrada. Apenas isso!
— Caramba... isso está ótimo! — Falo olhando umas fotos. — Vai servir muito bem.
Sinto que dias de mudanças virão!
— Ele vai me pagar por tudo...
Preciso de mudanças e das boas.
Eu passo horas do meu dia aqui dentro. Eu sei que Henri vai dormir por longas horas e nem vai lembrar de nada. Ele nunca lembra. Eu não conheço mais nada daquele homem. Mas, infelizmente, estou presa com ele.
Às vezes, eu nem acredito que já são cinco anos.
Se passa um filme na minha mente e eu não vejo um motivo sequer para sorrir. Depois de ver tudo, eu guardo bem escondido e penso numas coisas. Tenho algo a decidir e rápido. O que me ajuda a pensar é nadar. Por isso, eu pego uma tolha e coloco um maiô com um short em baixo. Isso é para evitar qualquer problema.
Eu vou descendo enquanto uso protetor solar e chego à piscina. A tarde está bem fresca hoje.
— Precisa de alguma coisa, senhora?
— Faz uma limonada para mim, por favor. — Ela acena. — Daquele jeitinho.
— Oui, madame...
Eu continuo o meu caminho e lavo os pés no espaço reservado. Ao chegar perto da piscina, eu toco a água e está perfeita. O primeiro mergulho vem e eu suspiro com a água fresca. Quero aproveitar essa pequena paz que é tanto frágil como perigosa. Eu não faço ideia de como Henri vai acordar. Sempre tenho medo de ele perceber.
E se isso ocorrer, ele será capaz de tudo. Não gosto nem de imaginar.
O dia vai passando e eu passo um tempo aqui. Depois, eu saio mais leve e com umas decisões em mente. Nadar sempre esclarece tudo. No quarto, eu volto para a parte dois do ritual de fingimento. Eu tomo um banho caprichado, esfrego bem a minha pele com a esponja ao ponto de deixar marcas.
Sensibilidade visível.
Depois, é a vez da maquiagem. Eu uso batom vermelho e sombra sem brilho para fazer certas manchas falsas nos lábios e nos pulsos. E até uma leve no pescoço. A pomada para assadura está visível aqui, tem remédio para dor e eu coloco um vestido branco e longo para não disfarçar nada.
Odeio isso. Mas faço por desespero. É o meu ritual.
Jamais quero voltar para a cama daquele homem. Por mim, não volto nunca mais.
Ao sair do quarto com os meus itens nas mãos, eu desço as escadas e me acomodo no sofá. Com os itens de tricô, eu vou planejando um cobertor sem pressa alguma e fico aqui um bom tempo. A casa enorme e silenciosa parece me deixar mais nervosa e tensa do que já estou.
Algumas vezes, eu encaro o relógio de parede ali, porque eu sei a hora que ele, provavelmente, irá acordar. A questão não é tanto a hora, é como.
— Com licença, senhora... — Uma das empregadas se aproxima. — O que deseja para o jantar hoje?
— Faça o prato preferido do meu marido...
— O ensopado de carne e vinho tinto. — Eu aceno. — Mais alguma coisa?
— Ele também gosta do frango com cogumelos. — Ela acena. — A torta de maçã está feita?
— Acabei de finalizar!
— Ótimo! Ele vai adorar tudo...
— Oui, madame... — Ela pede licença e sai.
Esses pratos parecem tirar qualquer estresse do Henri e demorei para aprender. Por sorte, a governanta da casa é bem conhecida dele e eu tive umas dicas de ajuda dela. Foi ela que me ajudou a estudar e a entender o Henri. Nunca confrontar, nunca cobrar, nunca impor, nunca mostrar a sua raiva e nunca, jamais grite com ele.
O resto se conecta.
O tempo passa aqui e começo a sentir um cheiro de comida. O aroma é bom, mas já comi tanto aquilo que não me dá vontade. De repente, ouço certos barulhos que vem de cima e eu já sei que ele acordou.
O frio na barriga vem forte!
Depois, vem passos na escada e eu continuo o meu tricô.
— Ah! Você está aí...
— Boa noite! Como se sente?
— Bem! — Ele chega mais perto.
Henri está banhado, perfumado e por sorte não cheira a álcool. O semblante parece mais suave e torço para que fique assim.
— Eu fiz um belo estrago em você pelo visto. — Ele comenta, me olhando toda.
— Como sempre..., mas me recupero! — Forço um sorriso.
Que vontade de fugir daqui. Não suporto mais isso. Não faço ideia de como vou aguentar mais tempo.
Ele se acomoda no outro sofá e como sempre, mexe no celular. Pouco depois, ele sente o cheiro da comida e puxa o ar com força, mostrando satisfação. Eu me mantenho calada, apenas pensando e observando.
Ele não diz nada por bastante tempo. Fica apenas no celular, mas de repente, ele se remexe.
— Elisie... — Eu o olho. — Amanhã temos um jantar importante. Se prepare!
— Posso saber os detalhes?
— Será na casa de Lucien Bellamy. — Isso me surpreende demais. — Se prepare... não fale nada, não olhe nada e vá bem-vestida.
— Tudo bem!
Ele solta um riso.
— Com certeza esse jantar é para uma promoção de cargo... — Ele suspira. — Finalmente! Demorou demais...
Eu não comento mais nada, mas por dentro, digo a mim mesma que esse jantar vai mudar tudo.
É isso que eu preciso.
Vai mudar a minha vida para sempre.
Quando o jantar fica pronto, somos avisados e ele vai à frente todo animado. Ele puxa a cadeira, pega os talheres e começa a comer. Ele não espera ninguém. Eu me acomodo à sua direita e não vejo o meu prato ainda.
— Aqui, senhora... — Vejo algo diferente. — Como pediu por causa do inchaço, fiz um frango ao molho com batatas e legumes cozidos.
— Nossa! Obrigada.
— Inchaço? — Henri questiona.
— As minhas regras estão vindo... eu sempre fico inchada!
E o susto vem.
— Eu ainda me pergunto como eu estou casado com você. — Ele bateu na mesa. — Cinco anos e nenhuma porra de filho! — Eu paraliso aqui e ele j**a os talheres no prato. — Com certeza é infértil, Elisie. Você só tem beleza... apenas isso! E nem é isso tudo. Não tem mais nada... nada! Não serve para porrä nenhuma...
Eu engulo em seco.
— Me desculpe... — Eu não o olho.
Eu sempre me tremo quando sou tomada por um susto.
— Essa porra não resolve nada... pelo menos tenho outras formas de me ocupar! Ao menos isso... senão estava louco!
Torço para que ele não fale mais nada, mas ele continua enquanto encaro o meu prato.
Doente, infértil, imprestável, miserável e outros nomes são jogados em cima de mim. Não posso revidar, contestar e nem nada parecido.
Mas isso vai acabar. Creio que amanhã acabe de vez.
E ele vai pagar por isso!







