Cap 6 A AURA DO PERIGO

O caminho até a casa de Asha foi silencioso, interrompido apenas pelo som dos meus passos arrastados na terra e pelos soluços baixos que ela tentava prender. Eu mantinha a cabeça baixa, não por vergonha dos olhares que ainda nos perseguiam, mas porque cada músculo do meu rosto protestava a cada movimento.

Assim que cruzamos a porta, Asha me guiou até uma cadeira e correu para buscar uma bacia com água morna e alguns panos limpos. Ela se aproximou devagar, ajoelhando-se na minha frente. Com uma delicadeza que contrastava totalmente com a brutalidade de Tamasi, ela começou a limpar o sangue seco no canto dos meus lábios.

— Pronto... — ela sussurrou, a voz trêmula de puro nervoso. — Agora desabafe, Alya. Que loucura foi aquela na rua? Que história é essa de joias da sua mãe? E o dote? Você perdeu o juízo de vez?

Deixei escapar um gemido dolorido quando o pano tocou o corte na minha bochecha, mas segurei o pulso dela delicadamente, fazendo-a parar. Olhei bem no fundo dos seus olhos.

— Minha mãe sabia exatamente com quem era casada, Asha. Ela sabia das traições do meu pai e sabia que ele e o veneno da Tamasi fariam de tudo para que ela adoecesse, só para tomarem o que era dela. Por isso, antes de partir, ela escondeu a maior parte da sua herança onde ninguém jamais procuraria. O suficiente para comprar a minha liberdade três vezes.

Asha arregalou os olhos, deixando o pano cair dentro da bacia. A água morna começou a manchar de vermelho.

— Se você tem esse tesouro escondido, por que não usou antes para fugir desse casamento com o velho Ghania? Por que não fugiu da Tamasi de uma vez? — ela perguntou, perplexa.

— Porque se eu aparecesse com uma fortuna do nada, Tamasi me acusaria de roubo e meu pai me arrastaria para a polícia. E também tem a Kiara... eu preciso protegê-la, não posso deixá-la para trás com aqueles monstros. Eu precisava de uma justificativa. Precisava de um nome forte, de um homem influente que ninguém ousasse questionar de onde veio o dinheiro.

Lembrei-me do quarto luxuoso. Do toque dominante, da pele e do olhar misterioso daquele asiático que tinha feito meu corpo queimar na noite passada. Ele era a peça perfeita para o meu tabuleiro.

— Eu vou usar o dinheiro da minha mãe para pagar o meu próprio dote, fingindo que foi o estrangeiro rico quem me enviou, e vou dizer que vou me casar com ele — revelei, sentindo um frio gélido, mas determinado, na boca do estômago. — Tamasi quer ouro? Ela vai ter o ouro dela. Em três dias, eu vou simular o meu próprio resgate.

Asha levou as mãos à boca, horrorizada com o tamanho do perigo.

— Ficou maluca, Alya? Se você disser que vai se casar com esse tal estrangeiro, ele terá direitos legais sobre a sua herança por direito de casamento! Nós nem sabemos o caráter dele. Como você sabe se ele vai aceitar esse acordo? E se a sua família exigir ver o homem? E se eles quiserem que ele apareça na vila para assinar os papéis? O que você vai fazer?

Olhei para o reflexo do meu rosto castigado no espelho velho pendurado na parede da sala. Limpei o resto de sangue que insistia em escorrer e respirei fundo, sabendo que estava caminhando na corda bamba entre a vida e a morte.

— Se eles exigirem a presença dele... — cerrei os punhos, engolindo a dor. — Eu vou ter que ir até o inferno para encontrar aquele desconhecido de novo. E rezar para que ele aceite terminar o que começamos naquela noite.

Olhei fixamente para a única pessoa em quem eu realmente podia confiar naquele lugar inteiro.

— Amanhã temos que ir à cidade de Pune para trocar as joias por dinheiro e depois voltar à boate para encontrá-lo. Asha, invente uma história diferente para a Kiara. Eu a amo, mas ela ainda é filha da Tamasi.

Eu sabia perfeitamente o controle manipulador que Tamasi exercia sobre ela, e não podia arriscar o meu único plano de sobrevivência. Asha balançou a cabeça de forma compreensiva, grata pela confiança profunda que eu estava depositando nela.

De repente, batidas violentas ecoaram contra a madeira da porta, fazendo o som estrondar pela casa. Asha e eu demos as mãos na mesma hora, sobressaltadas pelo susto.

— QUEM É? O QUE QUER? — Asha gritou, com a voz trêmula de pavor.

Ninguém respondeu, mas os socos na porta continuaram, ainda mais fortes.

— NÃO ABRIREI A PORTA! — Asha esbravejou novamente, tentando parecer firme.

— Sou eu, Kiabir! — a voz do outro lado finalmente respondeu.

Nós duas soltamos o ar dos pulmões de uma vez, aliviadas. Asha correu até a tranca e abriu a porta. Kiabir, o meu melhor amigo de infância, praticamente invadiu a sala ao me ver. Ele correu direto ao meu encontro e colocou as mãos trêmulas no meu rosto ferido. Seu semblante mudou imediatamente para uma expressão de tristeza profunda ao ver meus machucados.

— Foi aquela desgraçada da Tamasi... — ele constatou.

Afastando as mãos do meu rosto, ele deu um passo para trás e fechou os punhos com força, a voz carregada de uma raiva pura e contida. Eu desviei o olhar, incapaz de encarar seus olhos. Eu já sabia que ele estava ciente de todo o escândelo da vila. Asha, cruzando os braços, não segurou a língua:

— E onde você estava enquanto a Alya estava sendo brutalmente espancada no meio da rua?

Kiabir olhou para ela, defensivo, mas visivelmente abalado.

— Eu estava trabalhando! Só fiquei sabendo agora pelos boatos que se espalharam... — Ele voltou a se aproximar de mim, com o tom de voz completamente entristecido e trêmulo pelo nervoso. — Por que você fez isso, Alya? Existe mesmo um homem rico nessa história? Eu ainda posso ser o seu marido! Eu posso tentar negociar com a Tamasi de alguma forma...

Levantei os olhos para ele, sentindo um aperto no peito.

— Por mais que eu quisesse, Kiabir, a minha família nunca concordaria em me deixar casar com você. Tudo por causa da nossa situação financeira. Eles nunca aceitariam.

— Eu posso trabalhar por anos para pagar um dote digno para você! — ele insistiu, desesperado.

Abaixei a cabeça. Ele simplesmente não entendia o nível de ganância e exigência da minha família. Eles preferiam me ver morta a me ver casar sem uma montanha de dinheiro em troca. Asha entrou no meio da conversa, cortando as ilusões dele:

— Kiabir, você sabe muito bem que as coisas não funcionam assim. E você deveria ter feito alguma coisa quando soube que a Alya ia ser vendida para aquele velho Ghania! Mas você não fez nada!

— O que eu poderia ter feito? Me diga! — ele rebateu, os olhos pegando fogo de pura frustração e raiva.

— Por isso ela se entregou para outro! — Asha disparou.

Eu não estava mais aguentando aquela discussão dos dois em cima de mim, como se eu fosse um troféu ou um problema público. Minha cabeça latejava.

— Chega! Eu não quero mais falar sobre isso! — decretei, levantando-me da cadeira com dificuldade.

Kiabir moveu-se rápido e segurou o meu braço com firmeza, olhando no fundo dos seus olhos.

— Só me diga uma coisa: esse homem rico existe mesmo?

Respirei fundo, mantendo o silêncio, mas Asha deu um passo à frente, encarando-o com frieza:

— Isso é entre mim e a Alya. Desta vez, você e a Kiara ficam de fora. Mas sim, esse homem rico existe.

Kiabir soltou o meu braço lentamente, olhando para mim e depois para Asha, engolindo em seco a própria rejeição e o orgulho ferido. Sem dizer mais nenhuma palavra, ele deu as costas e saiu pisando fundo, batendo a porta atrás de si.

Eu olhei fixamente para a porta por onde ele havia acabado de sair, sentindo uma onda de tristeza e culpa esmagar o meu peito. Doeu vê-lo daquele jeito.

Asha aproximou-se, percebendo o meu semblante abatido, e colocou a mão no meu ombro para me confortar:

— Não se preocupe, o Kiabir vai entender depois... Temos apenas três dias para encontrar esse homem misterioso.

Eu me levantei devagar, ajeitando minhas roupas rasgadas com as manos trêmulas.

— Eu preciso ir para casa, Asha — comentei, preocupada. — Tenho que fazer as minhas tarefas domésticas. Eu não quero te causar problemas aqui. Se eu demorar mais, o Ravan vai acabar vindo atrás de você.

Asha me olhou com compaixão e pegou sua chave.

— Eu vou te acompanhar até em casa. Não vou deixar você andar sozinha por aí depois do que aconteceu.

CIDADE DE PUNE — BOATE

Enquanto o medo rondava a nossa vila, o cenário na vibrante cidade de Pune era completamente diferente. Longe dali, dentro das paredes escuras e luxuosas da boate, a realidade também não era fácil.

San-jin estava agachado, limpando o chão do estabelecimento. Ele e mais outros cinco rapazes faziam o trabalho pesado da faxina, enquanto um grupo de três funcionários observava tudo de longe, cruzando os braços e rindo da situação de forma debochada.

— Olha só... — Harsh comentou, com um sorriso sarcástico no rosto direcionado aos colegas. — O San-jin se deu bem ontem à noite, hein? Pegou a maior gata e dormiu ao lado dela. E agora está aí, de joelhos.

San-jin parou o que estava fazendo. Ele se levantou devagar, tensionando os músculos das costas, e cravou na direção dele um olhar mortal. Sua voz saiu em um tom cortante, baixo e aterrorizante:

— Você acha mesmo que eu gosto de viver assim?

Vikram, que apenas assistia à humilhação encostado no balcão, colocou um cigarro na boca. Ele acendeu, soltando uma lufada de fumaça cinzenta antes de dar um riso de canto.

— Não importa se gosta ou não. Esse é o seu trabalho aqui.

San-jin deu um passo à frente, a aura ao seu redor tornando-se ainda mais perigosa. Sua voz ecoou de forma sombria pelo salão vazio:

— Isso é um trabalho nojento... Mas preste bem atenção: isso não vai ficar barato. Um dia, todos vocês vão pagar por isso.

Ele sustentou o olhar, encarando cada um deles, um por um. O clima ficou tão pesado que o amigo de San-jin, que também estava limpando o chão ali perto, parou o serviço imediatamente. Ele olhou para o rapaz com o rosto pálido de puro medo.

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