CAP 7 HORAS CONTADAS

— Cara... não questiona eles. Só limpa — sussurrou o amigo, tentando evitar o pior.

Raj deu um sorriso de lado, ajeitando a postura com deboche.

— É melhor ouvir o seu amiguinho.

Harsh resolveu cortar a distância. Ele caminhou a passos firmes até parar bem na frente de San-jin, encarando-o de baixo para cima com desdém.

— Você ainda se acha alguém importante, né? Você não está mais na Coreia — Harsh disparou. — Você não é nada, garoto. Se não fosse pelo seu tio ganancioso ter te jogado nessa vida e roubado o seu lugar, você não estaria tendo que se prostituir aqui na boate. Olha pelo lado bom: pelo menos você aprendeu a falar a nossa língua direito.

Harsh abriu um sorriso sarcástico e provocativo. O ódio ferveu no sangue de San-jin. Ele não desviou os olhos por um segundo sequer, pronto para enfrentar a provocação de peito aberto.

— Eu não tenho medo de vocês — San-jin rebateu, a voz carregada de uma fúria fria. — Eu já sobrevivi a coisas muito piores do que vocês três juntos.

— Cara, cala a boca! Por favor! — o amigo de San-jin implorou ao fundo, a voz tremendo de pavor ao prever o estrago.

Harsh estreitou os olhos, a diversão sumindo de seu rosto ao ser desafiado daquela forma. Ele deu mais um passo, colando o peito no de San-jin.

— Você não tem medo da morte, é? — Harsh sibilou, testando o limite do rapaz.

San-jin soltou um riso amargo, sem um pingo de hesitação em seu semblante.

— Eu já morri por dentro há muito tempo... Então me mata de uma vez! — ele aumentou o tom de voz, desafiando o rival abertamente diante de todos. — Você só sabe falar, Harsh. Fala, fala, mas não faz absolutamente nada!

Os dois se encararam fixamente, faíscas de puro ódio flutuando entre eles. Harsh sentiu o orgulho ser ferido diante dos outros capangas. Avançando um passo rápido, ele segurou San-jin pelo colarinho da camisa com violência.

— Você quer ver eu acabar com você agora mesmo, seu desgraçado? Você não tem ninguém aqui! — Harsh esbravejou, erguendo o punho livre, pronto para partir para cima.

— Chega! Pode parar com isso agora mesmo, Harsh! — uma voz autoritária ecoou pelo salão.

O chefe da boate entrou no recinto no exato momento em que o soco seria desferido. Ele caminhou calma e elegantemente entre os homens, lançando um olhar duro para a confusão.

— Afaste-se dele — o chefe ordenou de forma ríspida. — O San-jin tem um rosto belo, e é exatamente esse rosto que atrai as clientes ricas e mantém o faturamento desta casa lá no alto. Eu não quero ver um único arranhão nele. Voltem todos ao trabalho!

Harsh soltou o colarinho de San-jin com um empurrão bruto. Ele o encarou com um ódio mortal estampado no rosto e, sem dizer mais nada, deu as costas e saiu de cena pisando fundo.

No meu quarto, eu ainda sentia o meu rosto arder, a boca ferida e a testa latejando. Como a minha porta não tinha trancas, simplesmente fechei a janela com a cortina para garantir o mínimo de privacidade.

Já era bem tarde da noite. Eu sabia que não conseguiria pegar as joias pela manhã, pois todos sempre estavam de olho em mim. Com todo o cuidado do mundo, comecei a arrastar a cama devagar, tentando não fazer nenhum ruído. Assim que a afastei um pouco, puxei o tapete antigo. Debaixo dele, havia uma camada grossa de terra compactada. Comecei a cavar com as mãos até alcançar o fundo; quem visse aquilo de longe pensaria apenas que era sujeira acumulada debaixo da cama. Lá no fundo, escondido, estava o pequeno baú trancado com um cadeado.

Fui até o meu guarda-roupa, peguei a chave escondida entre as roupas e abri o cadeado. Eu não sabia o valor exato de cada uma daquelas joias antigas da minha mãe, mas peguei apenas quatro e as enfiei dentro do bolso do meu vestido. Tranquei o baú novamente, joguei a terra de volta, cobrindo tudo, e recoloquei o tapete por cima. Em seguida, puxei as caixas velhas para o lugar de antes.

De repente, escuto passos pesados atrás da porta. Meu coração disparou. A maçaneta girou e Kiara abriu a porta de uma vez.

— Que barulho foi esse? — ela perguntou, os olhos correndo pelo quarto até pousarem na cama fora do lugar.

Engoli em seco, tentando manter a voz firme.

— Eu limpo a casa toda, mas sempre acabo esquecendo o meu próprio quarto. Senti um cheiro estranho, acho que tem um rato morto por aqui.

Kiara semicerrou os olhos, olhando para o chão.

— Eu não sei por que você guarda tantas caixas debaixo da cama. Você ainda coleciona aquelas bonecas velhas?

Sorri sem graça, sentindo o suor frio escorrer pelo meu pescoço.

— Sim... Há muitas bonecas aqui. — Fui até uma das caixas empilhadas, abri uma fresta e mostrei uma delas para disfarçar.

Kiara esboçou um sorriso fraco.

— Quando você se casar, seu marido não vai deixar você colecionar essas coisas.

Dei uma risada forçada, o estômago embrulhando com a menção ao casamento. Kiara fez menção de dar um passo para dentro do quarto.

— Deixa que eu te ajudo a limpar.

Me coloquei rapidamente na frente dela, bloqueando a passagem.

— Não precisa. Você sabe que eu já estou acostumada a fazer tudo sozinha.

— Entendo... — Ela hesitou, me encarando por alguns segundos antes de disparar: — Alya... amanhã você vai a Pune encontrar o seu noivo?

— Sim. Eu tenho que encontrá-lo para resolver as últimas coisas sobre o dote.

Kiara me olhou com uma desconfiança nítida, como se tentasse enxergar através das minhas mentiras. Sustentei o olhar e forcei mais um sorriso. Ela suspirou, correndo os olhos mais uma vez pelo estado do chão.

— Então vou deixar você terminar as suas tarefas. Boa noite.

— Boa noite — respondi.

Assim que a porta se fechou, enfiei a mão no bolso, apertando as joias contra os meus dedos. Soltei o ar com força, sentindo um alívio momentâneo descarregar nos meus ombros.

Na manhã seguinte, acordei antes do sol nascer. Eu precisava terminar todas as minhas tarefas domésticas antes das onze horas.

Mais tarde, eu estava agachada na sala, limpando uma mesa de madeira que estava com um dos pés quebrado. Aquela mesa tinha pertencido à minha mãe; ela a guardava com tanto carinho, dizendo que passava de geração em geração na nossa família. Mas o meu pai e a Tamasi fizeram questão de tomá-la de mim, arrastando-a para o meio da sala para usá-la como um móvel qualquer.

Mais um dia... — pensei, sentindo o ódio queimar no meu peito. — Um dia, todos eles vão pagar por cada lágrima que me fizeram derramar.

Senti um arrepio na espinha e, quando olhei para o lado, vi Tamasi me vigiando. Ela estava encostada no batente da porta, ostentando um sorriso debochado no rosto, como se estivesse lendo cada um dos meus pensamentos de vingança.

Sustentei o choque de realidade e devolvi um olhar frio, cortante. Sem dizer uma única palavra, voltei a esfregar a madeira da mesa com força. Tamasi apenas soltou uma risada nasalada e passou por mim, desfilando com superioridade pela casa.

O relógio estava correndo. Faltava pouco para as onze.

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