Capítulo 4

Isadora ficou vermelha, e isso deu a Helena uma satisfação pequena, quase amarga.

— Talvez ela pudesse levar uma joia, dona Odette — Isadora sugeriu, com a voz doce demais. — Só uma. Para vender e conseguir algum dinheiro. Mas claro… se pedisse direitinho. Talvez de joelhos. Seria justo, não seria? Está me ofendendo tanto hoje… Tenho medo que isso faça mal para o bebê…

O silêncio pesou.

Helena encarou Isadora sem piscar. Por alguns segundos, não ouviu os empregados, não ouviu Odette, não ouviu nada além do próprio sangue pulsando nos ouvidos. Aquela mulher queria vê-la no chão. queria a cena completa. 

A esposa descartada, pobre, humilhada, implorando por uma migalha diante da amante grávida. Então Helena levou a mão ao pescoço e abriu o fecho do colar de ouro que usava. Foi Leonardo quem deu, em um aniversário, escolhido por uma secretária e entregue por um motorista.

Ela deixou cair no chão.

Depois tirou os brincos, a pulseira, o anel de noivado que ainda carregava o peso daquela casa. Uma peça por vez, sem pressa, sem tirar os olhos de Isadora.

Como conseguiu ser tão cega? Como aquela maldita a enganou por todos aqueles anos a consolando enquanto transava com seu marido? 

"Eu devo ser uma otária mesmo... Uma grande idiota, com toda certeza...", pensou, engolindo em seco, tirando a ultima joia. "Mas não vou dar esse gostinho pra essa desgraçada, não vou!"

— Pode ficar com meus restos.

Jogou as joias sobre ela sem nenhuma hesitação.

Isadora piscou, surpresa.

— Helena…

— Vende, usa, engole, enfia onde quiser. Eu não vou me ajoelhar para você.

Odette ergueu o queixo, tentando parecer vitoriosa, mas havia incômodo em seu olhar. Helena estava indo embora sem mala, sem joias, sem dinheiro, mas não estava se curvando, e aquilo tirava a graça da humilhação. Isadora, por outro lado, não conseguiu esconder a raiva. O sorriso dela endureceu, a mão apertou a barriga e os olhos ficaram cheios de uma inveja crua, porque esperava lágrimas, escândalo, joelhos dobrados, mas recebeu apenas desprezo.

— Você vai se arrepender desse orgulho — Isadora falou baixo.

— Talvez, mas não tanto quanto me arrependo de ter chamado você de amiga.

Helena subiu apenas para pegar a pasta com seus documentos, vigiada como uma ladra. Não levou vestidos, sapatos, bolsas, perfumes, nada. Quando voltou ao hall, sentiu o peso da casa inteira sobre seus ombros, mas não olhou para trás. Passou por Odette, por Isadora, pelos arranjos, pelas taças, por aquela festa montada sobre os destroços do seu casamento. Saiu com a roupa do corpo e a pasta apertada contra o peito, porque era tudo que a família Vasconcelos permitia que ela ainda tivesse.

Leonardo estava perto do portão, o lado esquerdo do rosto ainda mostrava uma marca avermelhada do tapa, e isso deu a Helena uma vontade absurda de sorrir. Ele a viu descer os degraus sem mala, sem joia, sem nada, e a satisfação voltou a aparecer no canto de sua boca. Para Leonardo, aquilo era vitória. Ela estava quebrada, sem dinheiro e prestes a perder a casa do pai, não tinha o que fazer quando o orgulho quebrasse, iria procurá-lo.

— Ainda posso reconsiderar minha proposta — ele falou, caminhando ao lado dela. — Você sabe ser agradável quando quer. Se for mais comportada, posso manter você por perto.

Helena parou no portão e olhou para ele.

— Vai se foder, Leonardo.

Ele ficou imóvel.

Talvez nunca tivesse ouvido aquela palavra saindo da boca dela daquele jeito. Talvez nunca tivesse visto Helena tão sem medo, tão ferida e tão disposta a sangrar em pé. Ela apertou a pasta contra o peito, passou pelo portão aberto e saiu para a rua deserta sem olhar para trás. 

A mansão ficava em uma área afastada, cercada por outras propriedades enormes e muros altos, perto da parte escura da floresta. Não havia lojas, ônibus, táxis passando, nada. Só o vento frio, as árvores se mexendo e a noite escura diante dela.

Quando o portão fechou às suas costas, a coragem quase foi junto.

Helena ficou parada na calçada, com os documentos nas mãos, sem mala, sem dinheiro, sem casa garantida e sem saber para onde ir. A raiva ainda queimava, mas a realidade começou a aparecer por baixo dela. Seus cartões estavam cancelados, a casa do pai podia ser tomada, a família Vasconcelos celebraria Isadora naquela noite, diante de toda a elite, como se Helena nunca tivesse existido. Ela respirou fundo, tentando não chorar de novo, quando faróis cortaram a escuridão e um carro preto parou diante dela.

A porta traseira se abriu.

Um homem saiu devagar, alto, elegante, com um sobretudo escuro e uma presença que fez o ar parecer mais pesado. Helena o reconheceu de algum lugar, embora a lembrança viesse distante. Tinha visto aquele homem duas vezes durante o casamento, sempre em eventos formais, sempre afastado, sempre cercado por silêncio. Caio Draven. O nome veio junto com os cochichos que os Vasconcelos faziam quando ele aparecia. Um homem que até Leonardo evitava encarar por muito tempo.

— Helena Duarte, não é?

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