Capítulo 7: O Dia Seguinte

O amanhecer trouxe um dia mais pesado e longo do que qualquer outro antes da cerimônia.

Logo cedo, Kylen anunciou que faria uma longa viagem de negócios. Era mentira. Na verdade, ele só queria fugir da vergonha, do deboche e dos cochichos que já tomavam conta das ruas da cidade. Incapaz de encarar os vizinhos e os outros líderes, ele pegou suas coisas e partiu às pressas rumo às matilhas mais distantes e isoladas do território — subindo em direção às Montanhas de Valmora e às terras frias de Frostpeak, onde ninguém o conhecia e onde o boato sobre a filha de cabelos de fogo sem loba ainda não tinha chegado.

Na mansão, Ruby preferiu não encarar os corredores da escola e os olhares dos colegas. Ela disse a Scarlett que não estava se sentindo bem, reclamando de um cansaço profundo e de fortes dores no corpo. Scarlett, preocupada com o estado emocional da filha, pediu aos empregados que preparassem uma refeição reforçada e a deixassem descansar.

Ruby passou a manhã inteira encolhida na cama, encarando o teto. À tarde, querendo respirar um pouco de ar puro e com medo de esbarrar em Kylen pelo corredor — já que ainda não sabia da viagem do pai —, deu a desculpa de que estava melhor e decidiu caminhar ao redor da mansão Silver.

O vento frio do lado de fora trouxe um alívio temporário, mas o silêncio do jardim parecia carregar o peso do fracasso da noite anterior.

No finzinho da tarde, o sol começava a se pôr no horizonte, tingindo o céu de alaranjado. Scarlett foi à procura da filha e a encontrou cabisbaixa, sentada na grama, perto de um arvoredo no jardim da casa.

​Aproximou-se devagar, sentou-se ao lado de Ruby e, tentando animar a garota, falou com um tom carinhoso:

​— O meu cordão não brilhou de primeira, sabe? Naquele dia, eu me senti péssima. Estava muito nervosa, meus pais colocaram muita expectativa em mim... E o colar só veio brilhar de verdade no momento em que eu conheci o Kylen.

​Ruby permaneceu de cabeça baixa, encarando a grama. Naquele momento, ela não queria saber de cordão, de loba interior e muito menos de ser escolhida por Alfa algum.

​Percebendo o desânimo da garota, Scarlett segurou o queixo da filha com delicadeza, levantando o seu rosto, e olhou nos olhos dela com uma firmeza séria que Ruby raramente via:

​— Você tem que levantar essa cabeça, Ruby. Você é rara. E se essa pedra não brilhou agora, ela vai brilhar no tempo certo. Você só tem que acreditar.

​Ruby se levantou da grama e, encarando a mãe, respondeu em um tom firme e decidido:

​— Eu não faço questão desse cordão, mãe. Eu não me importo com ele. A única coisa que eu quero nesta vida é que você nunca seja banida e nunca mais sofra por minha causa, Scarlett.

​As palavras da garota tocaram o fundo do peito de Scarlett. Sem dizer mais nada, a mãe se levantou e puxou Ruby para um abraço apertado e protetor sob a sombra do arvoredo, enquanto o vento frio da tarde soprava ao redor das duas.

Ao ver o olhar distante da garota, Scarlett franziu a testa devagar e perguntou:

​— Ruby... por que você passou a tarde inteira andado de um lado para o outro aqui fora, evitando entrar em casa?

​Ruby baixou os olhos e respondeu em voz baixa:

​— Eu só... queria evitar o Kylen. Não queria encarar ele de novo depois de tudo o que ele falou ontem.

​Scarlett deu um leve sorriso e segurou a mão da filha.

​— Mas ele não está em casa, Ruby. Ele foi fazer uma longa viagem.

​Pela primeira vez em muito tempo, Scarlett sentiu um alívio sincero no peito. Saber que o marido estaria longe por um bom tempo trazia a paz que ela e a filha tanto precisavam para respirar e recuperar as forças.

​Ruby olhou para a mãe e sentiu o nó na garganta se desfazer. Sem a presença sufocante de Kylen na mansão, elas finalmente teriam um pouco de sossego.

Sabendo disso, Ruby olhou para Scarlett sem jeito e perguntou:

— Então... eu posso tirar a touca?

Com um sorriso carinhoso no rosto, Scarlett confirmou com a cabeça.

Em um gesto rápido de pura gratidão e alívio, Ruby abraçou a mãe com força. Em seguida, com as mãos trêmulas, retirou devagar a touca da cabeça. Pela primeira vez em muito tempo, seus longos e marcantes cabelos vermelhos ficaram soltos, balançando livremente com a brisa da tarde.

O vento parecia comemorar aquele pequeno instante de liberdade. Mas, com receio de que Kylen aparecesse de surpresa ou que algum vizinho curioso passasse por ali e visse a garota sem o disfarce, Scarlett segurou o braço da filha e disse:

— Vamos entrar, minha filha. Está ventando muito aqui fora.

Ruby deu um último olhar para o jardim e assentiu. Passando o braço pelo de Scarlett, as duas caminharam juntas para dentro da mansão, prontas para aproveitar a noite de paz que finalmente teriam.

O restante da tarde e a noite foram muito mais tranquilos. Pela primeira vez em meses, o clima na mansão estava leve.

As duas jantaram juntas na mesa da cozinha, e Scarlett começou a relembrar a própria infância. Com os olhos brilhando de nostalgia, ela contava de quando era garota e corria escondida para aprender mais sobre a Deusa Lua, esgueirando-se até o altar onde aconteciam os encontros dos colares quando não havia ninguém por perto.

— Eu e minhas amigas devíamos ter uns doze anos na época — contou Scarlett, rindo fraco. — Éramos crianças muito levadas! Mas aviso logo: não aconselho ninguém a ir até lá sozinho. É perigoso, fica muito escuro e, quando o ritual passa, a presença da Deusa Lua diminui no local. Sem a proteção dela, até os lobos que foram exilados costumam rondar aquela área. É um perigo... Mas, quando a Deusa está presente, tudo fica tranquilo.

Ruby sorria e prestava atenção em cada detalhe das histórias da mãe. Aquele momento de paz era tudo o que ela queria, mas as palavras de Scarlett plantaram uma semente perigosa em sua cabeça.

A mente de Ruby começou a trabalhar rápido. E se ela fosse até o altar escondida? Se aquele era um local sagrado e frequentado pela liderança da matilha, talvez ela pudesse cruzar com o Supremo Gideon por lá. Se o encontrasse a sós, poderia se ajoelhar e implorar por misericórdia pela vida de Scarlett, garantindo que a mãe nunca fosse punida ou banida por sua causa.

Enquanto concordava com a mãe e tomava um gole de chá, o plano já estava traçado em sua mente.

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