Capítulo 8: A Trilha do Templo

Não tinha como fugir do colégio. Infelizmente, quando Ruby despertou pela manhã, o uniforme já estava dobrado sobre a cama, ao lado da mochila. Scarlett a acordou com todo o cuidado e carinho de sempre:

— Filha, vamos, acorde. Seu professor me mandou uma mensagem ontem perguntando se você vai entregar o trabalho hoje.

Ruby se virou para o outro lado e olhou pela janela. O sol já começava a despontar no céu, indicando que seria mais um daqueles dias quentes e abafados em que a touca incomodaria ainda mais. Ela se virou para a mãe e pediu em tom de súplica:

— Como o Kylen não está... eu posso ir sem touca hoje? Por favor!

Scarlett olhou para a luz que entrava pela janela, suspirou fundo e concordou. No fundo, sabia que já estava na hora de parar de esconder a filha e deixar aqueles cabelos vermelhos à mostra.

— Pode ir sem ela — disse Scarlett. — Mas se você perceber qualquer coisa que a deixe desconfortável, coloque a touca de volta. Principalmente quando estiver voltando para casa, caso seu pai tenha retornado de surpresa.

E assim começava mais um dia. Mas nada tinha melhorado; só piorado. Scarlett optou por não acompanhá-la até a escola. Ela acreditava que Ruby precisava aprender a lidar com os próprios problemas para se tornar uma Luna forte.

O caminho, porém, foi um pesadelo. Ruby nem sequer conseguiu chegar aos portões do colégio. As ruas de Solver foram terrivelmente cruéis com ela. O que antes eram apenas sussurros e olhares agora se transformaram em ofensas em voz alta, dedos apontados e até água suja sendo jogada em sua direção na calçada.

— Olhe lá, a filha ilegítima dos Silver! — gritava uma mulher na porta do comércio. — Aposto que o Kylen a trouxe da rua! Pobre Scarlett, sem filhos, tendo que criar essa esquisita!

— Uma vergonha para a nossa matilha! — esbravejava outro morador. — Precisamos convocar os anciãos hoje mesmo, isso não pode ficar assim!

Com o coração despedaçado e o rosto molhado, Ruby dobrou o corpo e correu para longe do centro da cidade. Ela não foi para a escola; mudou o trajeto e se embrenhou direto pela vegetação fechada da floresta.

Seu objetivo era subir a trilha montanhosa até o Altar Sagrado do Templo do Luar — o local elevado onde, na noite anterior, as dezoito garotas receberam a iluminação e onde o poder da deusa Lua se manifestava. Ela queria se ajoelhar no topo daquela rocha e implorar à Deusa, ou até mesmo ao Supremo Gideon, que tivesse piedade de Scarlett e não a punisse pelas suas falhas.

Cega pelas lágrimas e com o peito sufocado, Ruby subia pelas pedras soltas da trilha sem se dar conta do perigo que a cercava, sem a touca para esconder os cabelos vermelhos que chamavam a atenção na mata fria.

Subindo a trilha sem olhar para trás, o barulho dos seus passos acabou atraindo a atenção errada. De repente, entre a vegetação fechada, surgiram três figuras sombrias. Ruby travou o passo ao se deparar com o trio de lobos renegados.

Ao verem a garota sozinha, sem proteção e com os cabelos vermelhos à mostra, eles riram de forma debochada.

— Olha só o que encontramos... — zombou o primeiro, encarando Ruby de cima a baixo. — Com certeza essa serve como nossa prisioneira!

Ruby secou as lágrimas do rosto com as costas da mão, sentindo um medo tremendo congelar suas pernas. Ela olhou para os lados tentando encontrar uma rota de fuga para retornar, mas já era tarde: estava completamente cercada.

— Me deixem passar... — pediu Ruby, com a voz trêmula, tentando demonstrar uma coragem que não tinha.

— Olhem só, a aberração ainda fala! — debochou o segundo renegado, dando um passo lento na direção dela.

Ele se aproximou tanto que Ruby pôde sentir o cheiro forte e selvagem do homem. Sem pedir licença, ele ergueu a mão e passou os dedos pelos longos cabelos vermelhos dela, puxando uma mecha com violência. Ele fechou os olhos, farejando o ar ao redor dela, e franziu a testa com um mistério incômodo.

— O cheiro dessa garota é estranho... Não é de uma humana comum e nem de uma loba normal da matilha — murmurou o renegado, encarando-a com uma mistura de nojo e fascínio. — Dizem na cidade que você é uma filha ilegítima, uma sem-loba... Mas esse sangue no seu peito carrega o aroma da própria deusa Lua! De quem você é filha de verdade, garota?

Ruby tentou se afastar, mas o lobo segurou seu pulso com força, chegando a machucar, impedindo qualquer movimento. O perigo ali era real, e a floresta parecia em silêncio absoluto.

Ruby tentou puxar o braço com toda a força e gritou:

— Me soltem, seus monstros renegados!

A resposta foi imediata. Tomado pela raiva, o terceiro lobo começou a se transformar ali mesmo, os ossos estalando e o corpo aumentando de tamanho. Ruby deu passos para trás, apavorada, enquanto os outros dois riam da sua dor.

— Vamos ver o quanto essa aberração sabe correr? — debochou um deles.

Sem reação, Ruby viu os três se transformarem em feras à sua frente. A garota girou sobre os calcanhares e desatou a correr. Desesperada, ela não lembrava o caminho de volta e muito menos para onde ficava o Templo do Luar. Os galhos secos arranhavam seu rosto e suas pernas desprotegidas — por conta do calor, ela usava apenas a saia e a blusa do uniforme da Academia Imperial de Solver.

O ar faltava em seus pulmões até que a trilha terminou rápido. Ruby chegou ao topo de uma rocha alta e íngreme. Atrás dela, apenas o abismo e o mar revolento batendo com força contra as pedras lá embaixo. Era alto demais. Sentindo o pavor gelando suas veias, ela sabia que, se fosse preciso, pularia na água sem olhar para trás para não ser pego. Lembrou-se de Scarlett, que a essa hora achava que ela estava na aula, e arrependeu-se amargamente de ter fugido das regras mais uma vez. As lágrimas escorreram quentes pelo seu rosto e sua voz falhou.

Os três lobos surgiram entre as árvores, caminhando devagar e encurralando a garota na beira do precipício.

Mas, antes que avançassem, um rosnado ensurdecedor fez a terra tremer. Das sombras da floresta, saltou um quarto lobo — colossal, de pelos tão brancos quanto a neve e olhos azuis faiscantes. Era Kaelen, o legítimo e poderoso filho de dezessete anos do Supremo Gideon.

Ao ver a fera albina, as pernas de Ruby congelaram no lugar. Curiosamente, não era de medo. No instante em que ele se aproximou, um aroma marcante invadiu o ar: carvalho forte, terra molhada e brisa de tempestade. Ruby não entendia o que aquele cheiro significava, mas ele fez seu coração disparar de uma forma totalmente diferente.

A luta entre eles foi intensa e brutal. Apesar de ser incrivelmente forte e carregar o sangue de um Supremo, Kaelen ainda era jovem e inexperiente contra três lobos adultos e violentos. Na fúria do combate, o lobo branco levou mordidas profundas e garras rasgaram sua paleta, mas ele lutou com uma ferocidade impressionante até conseguir afugentar os três renegados, que fugiram ensanguentados para a mata.

Vitorioso, o grande lobo branco fraquejou e caiu de joelhos na grama, ganindo de dor.

Vendo a criatura sangrando no chão, a compaixão de Ruby falou mais alto que a prudência. Ela se aproximou devagar e encostou a mão hesitante no ferimento aberto na paleta do animal. No mesmo segundo em que a pele dela tocou a pele dele, uma luz morna e invisível fluiu dos seus dedos. Em questão de segundos, o machucado profundo se fechou completamente, sem deixar nem uma cicatriz.

Porém, no mesmo instante em que a cura aconteceu, o corpo do lobo albino amoleceu e ele desmaiou pesado na grama.

O pavor e o terror dominaram os olhos de Ruby. Ela achou que tinha matado a fera. Em choque, acreditando que seu toque de "aberração" havia tirado a vida do lobo sagrado da matilha, ela recuou aos tropeços e correu com todas as forças que lhe restavam para fora da floresta.

Enquanto disparava sem olhar para trás, uma certeza terrível queimava em seu peito: ela não seria apenas exilada de Solver. Se descobrissem o que aconteceu, ela seria morta por ter assassinado um lobo da matilha.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App