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Capítulo 6: A Tempestade Dentro de Casa

A caminhada do Templo do Luar até a mansão Silver foi feita em absoluto silêncio. Para Ruby, aquele colar guardado no bolso do vestido não tinha valor algum. Não significava proteção, bênção ou orgulho; era apenas o símbolo da sua vergonha, da sua derrota e da confirmação de que ela era um erro.

Enquanto atravessava a praça ao lado da mãe, sentindo os olhares de deboche nas suas costas, Ruby sabia que o pior ainda estava por vir. Enfrentar a decepção da multidão não era nada comparado à batalha que a esperava dentro de casa. Ela temia a ira de Kylen, que com certeza estaria transtornado, mas o que mais rasgava o seu peito era a dor de ver a união e o amor de Scarlett colocados em cheque mais uma vez por sua causa.

Ao chegarem à porta de entrada da mansão, Scarlett parou por um segundo, respirou fundo e segurou a mão da filha com firmeza. Ruby olhou para a mãe, engoliu em seco e sentiu o colar pesar no bolso como se fosse feito de chumbo.

A porta se abriu, e a escuridão da sala revelou a figura de Kylen, de pé no centro do cômodo, com os braços cruzados e o rosto tomado por uma fúria contida.

Assim que a porta se fechou, a fúria de Kylen transbordou. Ele encarou Scarlett e fez questão de jogar na cara da esposa toda a vergonha que estava sentindo.

— Eu avisei! — gritou ele, com o rosto vermelho de raiva. — Eu avisei que proteger essa humana incompetente seria a nossa ruína! Olhe o que você fez, Scarlett! Agora toda a matilha sabe que não temos uma filha de verdade. Não houve luz, não houve loba, não houve nada! Em breve o ancião Gideon vai se reunir com o conselho para decidir qual será o fim da família Silver!

Kylen despejava toda a sua raiva no meio da sala, sem importar se as suas palavras feriam ainda mais o coração de Ruby, que assistia a tudo encolhida ao lado da mãe.

Scarlett deu um passo à frente, tentando colocar o próprio corpo como escudo entre o marido e a garota:

— Ruby, minha filha, vá para o seu quarto. Vá agora e não guarde as palavras do seu pai no seu coração.

Kylen passou a mão pela cabeça, transtornado, olhando para a esposa com uma mistura de raiva e piedade. Na cabeça dele, Scarlett só podia estar louca por continuar defendendo aquela garota. Ele se arrependia amargamente de ter aceitado aquele destino treze anos atrás, arrependia-se de não ter entregado a bebê quando teve a chance.

Ruby não esperou uma segunda ordem. Passou a passos rápidos em direção ao corredor e se trancou no quarto.

Mas entrar no quarto não mudava muita coisa. As paredes de madeira não eram suficientes para abafar os gritos que vinham da sala. Encostada na porta, escorregando até o chão, Ruby ouvia cada acusação de Kylen e cada tentativa sufocada de Scarlett de defendê-la.

As palavras do pai ecoavam na sua mente como marteladas: humana incompetente, a ruína da família, o fim dos Silver.

Apertando o colar apagado contra o peito, Ruby enfiou a cabeça entre os joelhos e chorou em silêncio no escuro, ouvindo a casa se desmoronar por sua causa.

Kylen deu as costas, caminhou até o escritório e bateu a porta. Scarlett esperou alguns segundos para acalmar a respiração e foi atrás dele. Ela precisava tentar um último apelo.

Ao entrar no cômodo, encontrou o marido de cabeça baixa, apoiado na mesa de madeira.

— Kylen, peço só mais um tempo — pediu Scarlett, com a voz embargada. — Quando ela completar dezoito anos e for escolhida por um Alfa, tudo vai se acalmar.

Kylen soltou uma risada irônica e amarga. Para ele, a esposa tinha perdido completamente o juízo.

— Scarlett, ela não é uma loba! — gritou ele, sem paciência. — Ela não tem traço algum de que vá se tornar uma Luna. Não teve luz, não teve loba, não teve nada!

Scarlett se aproximou devagar, sentou-se na cadeira perto da mesa e, mantendo a calma que sempre a caracterizou, olhou nos olhos do marido:

— Eu sinto no meu coração que ela é uma Luna. Ela só não sabe o poder que carrega.

Kylen respirou fundo, levantou-se e foi até a janela do escritório. Do lado de fora, a lua cheia brilhava com uma intensidade impressionante — a noite perfeita para despertar os primeiros uivos de um lobo e para selar os destinos descritos nos livros sagrados dos Alfas e das Lunas.

Ele encarou o brilho da lua por alguns segundos e se virou para a esposa.

— Se ela é mesmo uma Luna, quero ver como será no dia da escolha, daqui a três anos — disse Kylen, com a voz fria. — Se ela não for escolhida por nenhum Alfa, nós mesmos a banimos. Mas... se ela for escolhida...

Ele caminhou até Scarlett, inclinou-se e olhou bem fundo nos olhos dela:

— Se ela for escolhida, eu me ajoelho no chão e peço perdão a você e a ela.

Sem esperar por uma resposta, Kylen deu as costas e saiu do escritório, deixando Scarlett a sós com a promessa que definiria o destino de Ruby.

Scarlett permaneceu ali, sentada no escritório, sentindo o ar pesar no peito como uma pedra. As lágrimas quentes desciam pelo seu rosto, pingando em seu colo, enquanto o pavor do futuro tomava conta da sua alma. No fundo, nem ela tinha certeza do que aconteceria; ela só sabia que precisava desesperadamente de um milagre. Sentia que havia algo de sagrado e grandioso na filha, mas a dúvida cruel a apavorava.

Levantou-se devagar, com as pernas trêmulas, e caminhou até a janela. Encarando o brilho majestoso da lua cheia, Scarlett deixou a dor de mãe transbordar do fundo da sua alma.

Ela ergueu o rosto para o céu e soltou um uivo baixo, rouco e doloroso. Não era um chamado de caça ou um uivo de orgulho, mas sim uma oração rasgada no peito — o lamento triste de uma mãe implorando para que a Deusa Lua olhasse por Ruby e a protegesse daquele destino cruel.

Longe dali, o som do seu choro soou suavemente pela noite fria.

No quarto, escutando a dor da mãe ressoar pelo ar, Ruby se aproximou da janela. Ela olhou para o céu e contemplou a beleza fria e indiferente da lua cheia.

— Você está gostando de ver o sofrimento da minha mãe? — perguntou Ruby em um sussurro embargado, encarando o brilho no alto.

Sabendo que não haveria resposta, ela fechou a janela, cortando o vento da noite. Caminhou até a cômoda, tirou o colar apagado do bolso do vestido e o guardou no fundo de uma gaveta, como se quisesse esconder a sua própria vergonha.

Sem dizer mais nada, deitou-se na cama e encarou a janela fechada no escuro, ouvindo o silêncio da casa e esperando o tempo passar.

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