Mundo de ficçãoIniciar sessãoEduardo
Saí da cabana há quase duas horas. É quase 8:00 horas, o sol já estava alto, mas a mata ainda carregava o frescor da madrugada. Precisei caminhar até onde deixei o jipe para trazê-lo para mais perto. Não podia arriscar carregá-la nos braços pela estrada principal. O plano era simples: levá-la discretamente até um médico de confiança da matilha para que fosse examinada de forma adequada. Enquanto andava pela trilha de terra, minha mente não parava de voltar para a noite anterior. Diferente de muitos Lycans, eu me lembrava de algumas coisas que fazia na forma feral. E, muitas vezes, essa clareza era um verdadeiro tormento. As imagens voltavam com força: A luta interna enquanto corria com ela nos braços. A fera se recusando a ir para a cabana e me levando para a caverna escondida. O cuidado quase reverente ao deitá-la no musgo. O gosto metálico do sangue dela na minha língua enquanto lambia suas feridas uma a uma. Minha fera se debatendo ao sentir com nojo o cheiro de outro homem no corpo dela. O terror em seus olhos quando ela acordou por breves segundos e me viu — a fera, o monstro. O jeito como seu corpo frágil tremeu contra o meu peito antes de desmaiar novamente. Cada gemido de dor dela ainda ecoava dentro de mim. “Minha Luna…” Parei por um instante no meio da trilha, fechando os olhos. O cheiro doce dela ainda estava impregnado em minha pele, mesmo depois do banho. A conexão pulsava forte no centro do meu peito, como uma corda invisível que nos ligava. Nunca senti nada parecido. Nem com Paula. Nem com ninguém. A fera estava inquieta mesmo agora, sob a luz do dia. Queria voltar para perto dela. Queria protegê-la. Matar. Curar. Possuir. Tudo ao mesmo tempo. — Porra... o que você está fazendo comigo? — murmurei para o vento. Eu sabia das consequências. Sabia que ela não era mais pura. Sabia que as leis ancestrais da matilha condenariam essa união. Sabia que meu noivado com Paula, o futuro da linhagem e a estabilidade do clã estavam por um fio. Ainda assim, nada disso parecia importar quando eu lembrava do peso leve do corpo dela em meus braços ou do perfume que acalmava minha fera como nada mais conseguia. Continuei andando, acelerando o passo. Precisava trazê-la para um lugar seguro, longe de olhares curiosos. Um médico Lycan saberia como tratar os ferimentos que a medicina humana não compreenderia. Depois... depois eu decidiria como explicar tudo isso para ela. Porque mais cedo ou mais tarde ela acordaria completamente. E teria que encarar a verdade: o monstro que a salvou na noite passada agora se recusava a deixá-la ir. Cheguei ao jipe, entrei e girei a chave. O motor roncou alto, ecoando pela mata. As memórias da caverna ainda queimavam em minha cabeça quando, de repente, minha vida “perfeita” antes daquela noite também voltou com força. Lembrei-me de ontem à tarde, no escritório. Eu estava de cabeça baixa, revisando contratos de exportação, quando a porta se abriu sem aviso. Tia Anastácia entrou com aquela expressão que eu já conhecia muito bem. — Está tudo bem, querido? Nos últimos dias você anda distante. Ontem nem recebeu os pais de Paula. Suspirei, sem levantar os olhos dos papéis. — Tia, por favor. Estou cheio de problemas para resolver aqui. Não tenho tempo agora para conversas pessoais. Ela fechou a cara e cruzou os braços. — Eduardo Falcão, eu sei que você está me escondendo algo. O que está acontecendo? Hesitei. Por um segundo, quase contei. O mal-estar estranho, a sensação de que algo dentro de mim queria se manifestar com força. Mas me contive. — Não estou escondendo nada. Você sabe que só vou me casar com Paula por obrigação. Ela não desperta nada em mim. — Eu sei, filho. Mas não se esqueça da maldita tradição: Paula é a mulher “ideal para você” foi você mesmo quem disse. Afinal, ela nunca foi tocada por outro homem. Vocês já se deitaram antes do casamento? Reviro os olhos, começando a me irritar. — Pelo amor de Deus, tia Anastácia. Você sabe o que acontece se eu me casar com alguém que não seja pura. — Sim, eu sei. A fera se manifesta de forma descontrolada e pode acontecer o pior — respondeu ela, séria. Levantei da cadeira, tentando manter o tom respeitoso. — Tia, por favor, me deixe sozinho. Preciso organizar meus pensamentos. Beijei o dorso de sua mão como sempre fazia desde criança. Ela finalmente entendeu o recado e saiu da sala, não sem antes lançar-me um último olhar preocupado. Assim que a porta fechou, fui até a garrafa de café. Precisava de algo forte para me acalmar. Enquanto tomava um gole, notei novamente as planilhas abertas: os números não batiam. O lucro do mês estava menor do que deveria. Alguém poderia estar desviando dinheiro da empresa. — Merda... — murmurei, passando a mão no rosto. O pai de Paula era de total confiança, ou pelo menos era o que eu sempre acreditei. Olhei o relógio: 17h. Decidi encerrar o expediente. Peguei a maleta com os documentos que levaria para analisar em casa. Tinha combinado de levar Paula para dar uma volta, mas desisti. Se ela realmente me amasse como dizia, entenderia. No fundo, eu só queria ficar sozinho. Agora, tudo aquilo parecia ridiculamente distante. Voltei ao presente quando cheguei ao jipe. Entrei, girei a chave e o motor roncou. Enquanto manobrava pela estrada de terra, uma única verdade martelava em minha cabeça, mais forte que qualquer obrigação ou tradição: Aquela garota ferida na cabana era minha Luna. E eu não estava mais disposto a viver sem ela — mesmo que isso destruísse tudo o que construí até hoje.






