Capítulo 5. Grimório

Dalva parou na sua frente e olhou, seriamente, para ela, desconfiada do que a loba iria fazer e perguntou:

— O que você está tramando, hein, menina?

— Menina, Dalva?

— Mesmo com todo esse tratamento pelo qual você passou, continua com a aparência de uma menina. Precisa amadurecer, se quer passar a imagem de mulher que pode ser a Luna do Alfa. 

— Não pense besteiras, Dalva. Faça o que pedi, por favor, prometo que não vou demorar.

Cora foi para a cozinha e preparou um farnel, enquanto avisava:

— O Alfa costuma jantar às nove horas, esteja presente.

Amarrou a trouxa e entregou a ela, dando um direcionamento do que tinha em cada direção para a qual fosse. Ela saiu pelos fundos e entrou na floresta e com o entardecer, a medida que entrava na área mais fechada, o local ia ficando cada vez mais escuro. 

Ela fez um pequeno gesto e um pequeno foco de luz apareceu e foi lhe guiando o caminho, até ela chegar onde precisava estar, em uma pequena clareira, cercada por árvores e vegetação. Então, ela retirou um pequeno canivete que encontrou no quarto, de entre os seios, abriu, levantou sua blusa, enfiou o canivete no umbigo, fazendo um pequeno corte onde enfiou o dedo, gemendo pela dor e retirou algo, como um pequeno embrulho, do tamanho de um dedal. 

O corte logo cicatrizou e a dor passou, ela colocou o pacotinho na palma da mão, parecendo uma pequena bala de caramelo e recitou um feitiço em sua língua ancestral: 

“ Redi ad me, mysteria mea testudine.”

(Retorne para mim, meu cofre de segredos)

O pacotinho foi crescendo e se tornou um livro maior que a sua mão. Era o seu grimório, sua mãe o deu a ela desde quando  ela aprendeu a escrever e  passou a anotar tudo que aprendeu e criou sobre magia, feitiços e bruxarias e quando sua mãe morreu, ela o guardou dentro de seu próprio corpo.

Furou o dedo com o canivete e deixou o sangue pingar sobre o relevo da capa de pele de alce. O cadeado que o prendia, soltou e ela pode abrir o livro. Sentou-se no chão, abriu o farnel e começou a ler e comer ao mesmo tempo. 

— Óh, magia querida, eu estava com tanta saudade de você.

O livro parecia responder a ela, abrindo suas folhas e parando em determinada página. 

“ Seja bem vinda, Lorena de Coxley. Vamos retornar nossa jornada? “

Coxley era o sobrenome de sua mãe e usava ele quando usava sua magia.

— Sim, querido grimo, mas agora, temos uma companheira. Olá loba, qual o seu nome?

“ Olá, Lorena, finalmente nos libertamos. Meu nome é Nox (noite). Sou uma loba Alfa e minha magia lupina foi fundida com a sua magia de bruxa elemental.”

— Então, estamos completas. Com a transformação, o selo que retinha a magia que minha mãe me passou, quebrou-se e agora, somente nós, imporemos limites a nós mesmas.

Continuou conversando e lendo o grimório para relembrar seus feitiços e quando percebeu que anoiteceu por completo, voltou para casa. Não precisou iluminar o caminho, cobriu a cabeça com o capuz e ficou totalmente oculta nas sombras.

Passou por alguns guardas, que não a enxergaram, mas sentiram sua presença, e divertiu-se com seus comentários.

— Sentiu isso, camarada?

— Parecia alguém passando, mas não vi nada.

— Nem eu, mas fiquei todo arrepiado.

— Ai, minha deusa, será que tem assombração, aqui.

— Está mais para bruxaria. Vamos continuar a guarda mais para lá.

Lorena chegou em casa e Dalva estava pondo a mesa para o jantar e sem perguntar, tirou sua capa e foi ajudar.

— Você parece diferente, menina! — comentou Dalva.

— Conversei com minha loba, o nome dela é Nox. — respondeu Lorena, sorrindo, mas Dalva, paralisou.. 

Ao ouvir o nome da loba de Lorena, Dalva paralisou. Há muitas décadas atrás, surgiu uma lenda sobre uma loba negra que era a própria escuridão e o nome dela era Nox.

— Não sei se isso é um bom presságio, tomara que a sua loba seja caridosa.

— Por quê, Dalva?

— Também quero saber, Dalva. — disse o Alfa, entrando na sala de jantar.

— É uma longa história, fica para outro momento. — disse Dalva, fugindo da explicação.

Só então, Noah olhou para Lorena e percebeu a mudança na aparência da fêmea. Fitou-a com os olhos cobiçosos, achando-a linda e não conseguiu resistir.

Lorena percebeu o olhar diferente do macho, mas não deu tempo de agir antes dele e impedir seus movimentos.

Ele foi até ela, rapidamente, abraçou-a pela cintura, a suspendeu e beijou sua boca com posse. 

Lorena nunca tinha sido beijada e não sabia o que fazer, completamente sem reação. Mas não achou ruim o contato de suas bocas macias, mas quando sentiu a língua dele tocando na dela, foi como se um choque percorresse seu corpo, causando sensações gostosas, que a fizeram querer se entregar.

Ele notou a inexperiência dela e sentiu o prazer do macho que tem uma fêmea só para si. Orgulhoso, procurou ser mais controlado e carinhoso, para não espantar sua Luna. Estavam entregues e parecia que não iriam parar.

Mas um som emitido por Dalva, lembrou-os de onde estavam e Lorena achou muito imprudente da parte dele, agarrá-la daquele jeito na frente da governanta e de quem pudesse chegar. Debateu-se um pouco até que ele percebeu e a soltou, sem deixar de a sustentar com seus braços e contemplar seu rosto corado e os lábios inchados pelo beijo. 

O sorriso no rosto dele era de puro prazer e acariciou o rosto delicado com as pontas dos dedos, sentindo a maciez e se dando conta do quanto ela o atraía. 

Dalva usou esse momento para esclarecer:

— O senhor pediu para eu cuidar dela e eu cuidei, agora só falta ela continuar se alimentando bem e quem sabe, até iniciar um bom treinamento para fortalecer a musculatura.

Dalva não era boba, se aquela menina fosse a Luna, teria muitas pedras de tropeço no caminho e precisava estar fortalecida. O melhor seria ela aprender logo a se defender para não ter que estar uivando e pedindo ajuda o tempo todo. 

Só que Dalva não sabia que estava se preocupando sem necessidade, já que Lorena não era nada boba. Viu a fêmea olhar com interesse para o Alfa e ser correspondida. Era um bom sinal, esperava que logo tivessem filhotes correndo pela casa.

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