Mundo de ficçãoIniciar sessão
PRÓLOGO
Augusto Montenegro "Ouvir a voz dela fez o meu mundo parar" Augusto permaneceu imóvel próximo à arena principal da exposição agropecuária, enquanto observava a jovem no palco que terminava uma canção sertaneja sob aplausos de todos ali. Não era pela música, muito menos pela multidão. Era ela, cada detalhe dela, o levava ao passado que por muito tempo ele só quis esquecer. Ela tinha cabelos longos e castanhos, com leves ondas que destacavam seu rosto delicado. E aquele par de olhos cor de mel... Por um instante, ele sentiu o coração falhar dentro do peito. Porque estava literalmente olhando para o passado. Estava olhando para Helena, o grande amor da sua vida. Ou pelo menos para uma parte dela, ou melhor deles... As informações do investigador ainda estavam frescas em sua memória. Manuela Rossi, vinte e quatro anos. Era universitária, e cantora nas noites de Goiânia. Filha de Helena Rossi. Pai desconhecido... A mesma Helena que desapareceu da sua vida sem deixar explicações. A mesma mulher que ele procurou durante anos, a mesma que ele nunca teve a capacidade de esquecer. Quando a apresentação terminou, Augusto esperou. Suas mãos tremiam, ele suava frio, era medo, medo de não ser aceito, medo de não conseguir falar com ela, medo do passado ser ainda mais doloroso. A multidão começou a dispersar. Então a jovem desceu do palco carregando um violão nas costas. Foi nesse momento que ele tomou coragem, e caminhou em sua direção. — Manuela? Ela virou o rosto, sorrindo. Os olhos se encontraram. E Augusto sentiu um misto de sentimentos, tão forte, que fez seu peito acelerar. — Sim, sou eu? Eu conheço o senhor? Ele sorriu. Um sorriso triste. — Ainda não, sou Augusto Monte Negro, um prazer enfim te conhecer. Manuela observou o homem elegante à sua frente por alguns instantes. Mas ela tinha certeza de nunca tê-lo visto, e nem ter ouvido seu nome. — Desculpe, mas eu preciso ir, com licença. — Espere. Ela parou. — Seu nome é Manuela Rossi, certo? — É. — Sua mãe se chama Helena? O coração dela acelerou. — Sim. — Como o senhor sabe? Ela parecia assustada, e ele não sabia como agir. Augusto demorou alguns segundos para responder. Segundos que pareciam uma vida inteira. — Porque eu conheci sua mãe há muitos anos. Manuela sorriu. — Então o senhor é um amigo dela? Amigo. A palavra atingiu Augusto como um golpe doloroso. Não. Ele não era amigo. Ele foi muito mais que isso. Mas ao mesmo tempo, agora, não era nada. Porque aquela jovem visivelmente, não fazia ideia de quem ele era, e tudo que ele mais queria no mundo era que ela soubesse. — Digamos que...fomos muito importantes um para o outro. Ela assentiu. — Quando eu encontrar minha mãe, vou dizer que o senhor perguntou por ela. Augusto observou cada detalhe daquele rosto. Cada traço. Cada expressão. Cada pedaço da filha que nunca teve a chance de conhecer. Filha. Pela primeira vez ele permitiu que a palavra existisse dentro dele. Sua filha. Mesmo que fosse Vinte e quatro anos tarde demais. — Faça isso, diga meu nome a ela. Manuela sorriu. — Foi um prazer conhecê-lo. — O prazer foi todo meu, espero te ver novamente em breve... Ela se afastou. Augusto permaneceu parado observando até que desaparecesse entre as pessoas. Então levou a mão ao bolso. Retirou uma fotografia antiga. A única que ele tinha... Helena. Grávida. Sorrindo para a câmera. Pela primeira vez em vinte e quatro anos, as peças finalmente se encaixavam. Mas agora ele tinha uma nova missão. Contar a verdade. Reconhecer a filha. E recuperar o tempo que lhes foi roubado. O que Augusto Montenegro não sabia... Era que alguém observava a cena à distância. E que aquela conversa mudaria o destino de todos. Capítulo 1 Manuela Rossi — Essa foi para os corações apaixonados! Quarta feira que vem, eu Manuela Rossi estarei aqui com vocês novamente, gratidão! Os aplausos fizeram eco, pelo pequeno restaurante enquanto eu terminava a última música da noite. Sorri para o público como sempre faço e agradeci mais uma vez antes de deixar o pequeno palco improvisado. Minhas costas doíam. Meus pés estavam me matando. E eu ainda tinha uma prova de Gestão Financeira dali a dois dias, e precisava estudar urgentemente. A glamourosa vida de uma cantora universitária. Parecia até uma piada mal contada, mas era isso, ou desistir da faculdade, o que com certeza, não é uma opção. Sorri pelo sarcasmo glamouroso, ao imaginar essa frase. Peguei meu violão e caminhei entre as mesas. Alguns clientes me cumprimentaram. Outros pediram fotos. Nada exagerado. Eu estava muito longe de ser famosa. Cantava porque gostava. E claro, porque o dinheiro dos cachês ajudava a pagar a faculdade, nunca me imaginei sendo famosa nem nada além da noite de Goiânia. Quando saí do restaurante, a noite estava agradável. Entrei no meu carro velho, que inclusive foi prêmio de um show de calouros que participei há uns quatro anos. Um modelo antigo que sobrevivia mais por teimosia do que por qualidade mecânica. O tanque estava quase vazio. Meu saldo bancário também. Mas eu estava feliz, tudo tem corrido bem. Estou cansada. Porém feliz por tudo que vem acontecendo na minha vida. Liguei o rádio e segui para casa. Durante o caminho, minha mente voltou para um encontro estranho que havia acontecido alguns dias antes na exposição agropecuária. O homem elegante. Os olhos verdes. O jeito como ele tinha me observado. E principalmente a pergunta sobre minha mãe. Balancei a cabeça. Afastando da mente. Provavelmente era algum conhecido antigo, dela. Quando cheguei em casa, encontrei todas as luzes apagadas, e mais uma vez não perguntei nada pra ela, a vida está corrida demais... Mas uma correria boa. Sorri. Minha mãe certamente já estava dormindo. Então entrei em silêncio. Mas parei imediatamente ao encontrar Dona Helena sentada no sofá. No escuro. Apenas observando a janela. Meu coração apertou. — Mãe? Ela virou o rosto. Sorriu ao me ver. Mas seus olhos estavam vermelhos. — Você chegou, minha filha. — Está tudo bem mãezinha? — Claro que sim. Era mentira. Eu a conhecia bem demais. — Você chorou, o que houve? — Foi só cansaço. Suspirei. Ela sempre fazia isso. Guardava tudo para si. Desde pequena eu sabia que minha mãe carregava tristezas que nunca compartilhava. Mas também sabia que insistir era perda de tempo, ela era turrona demais. Quando Dona Helena decidia não falar, ninguém conseguia fazê-la mudar de ideia. — Vou tomar banho então... — Boa noite, filha. — Boa noite mãe. Beijei sua testa. E subi para meu quarto. Alguns minutos depois, já deitada, fiquei olhando para o teto. Pensando. Pensando na minha mãe, e todos os seus traumas, que ela nunca conta mas se vê através dos seus olhos. Pensando na vida. E sem perceber o sono me venceu. O som insistente do celular me arrancou dos sonhos. Resmunguei. Procurei o aparelho na mesa de cabeceira ainda com os olhos fechados. Com dificuldade olhei para a tela. Número desconhecido. Quase desliguei. Mas algo me fez atender. — Alô? — Estou falando com Manuela Rossi? A voz masculina era séria, parecia formal. — Sim. — Meu nome é Vicente Albuquerque. Sentei imediatamente na cama, despertando de vez. — Certo, e o que precisa de mim? — Sou advogado. Ótimo. Advogados nunca ligam trazendo boas notícias. — Aconteceu alguma coisa? Houve alguns segundos de silêncio. Então ele respondeu: — Senhorita Rossi, preciso falar pessoalmente com você. Meu estômago revirou. — Sobre o quê? — Sobre Augusto Montenegro. Franzi a testa. O nome parecia familiar. Mas não consegui identificar de onde. — Desculpe, acho que o senhor ligou para a pessoa errada. — Não. A resposta veio rápida. — Tenho certeza de que estou falando com a pessoa certa. Levantei da cama. Começando a ficar nervosa. — Eu não conheço nenhum Augusto Montenegro. Do outro lado da linha, o homem respirou fundo. Como se estivesse preparando uma notícia difícil. — Augusto Montenegro, ele... faleceu há três dias. Meu coração acelerou. Mas não era de tristeza, eu estava confusa. Porque aquele nome não significava nada para mim, porque estou sendo comunicada da morte dele. — Meus sentimentos, mas continuo sem entender. — Entendo sua reação. — Então, me diz, por que está me ligando? Silêncio. Um silêncio longo demais. Até que ele finalmente disse: — Porque seu nome está no testamento dele. Fiquei imóvel. — Está... o quê? — Augusto Montenegro, te colocou no testamento, e solicitou sua presença na leitura oficial, quando ele partisse... Meu cérebro simplesmente travou. — Isso é algum tipo de golpe, trote? — Não senhorita, é a verdade... — Eu nunca vi esse homem na vida, como eu estaria no testamento dele, isso é loucura. — Viu, talvez não lembre, mas viu, mesmo assim, o que importa de imediato é que ele a incluiu como herdeira. Herdeira. A palavra ecoou dentro da minha cabeça. Herdeira? De quem? Por quê? Como? — Senhor Albuquerque... — Vicente. — Vicente, ok, deve haver algum erro. — Não houve erro algum. Minhas pernas enfraqueceram. Sentei novamente na cama. — Eu não conheço esse homem, droga. Meu coração disparou. Outra pausa. Outra daquelas pausas que pareciam esconder uma bomba dentro da gente. Quando ele voltou a falar, sua voz estava ainda mais séria. — Senhorita Rossi, preciso que venha à Fazenda Montenegro, amanhã. — Para quê? Ele respirou fundo. — Porque existem verdades que não podem ser contadas por telefone, precisamos estar frente a frente. Olhei para a porta do quarto. Sentindo um frio estranho percorrer minha espinha. — Que verdades? A resposta veio como um trovão, ele já estava impaciente. Uma frase simples. Mas capaz de mudar minha vida para sempre. — Só saiba que não houve engano, senhorita Rossi. Prendi a respiração. — Augusto Montenegro a reconheceu oficialmente como herdeira, porque ele é... seu pai. O mundo pareceu parar. E eu tive a horrível sensação de que tudo o que acreditava saber sobre mim era uma grande mentira...






