Ataque indirecto

Marcelo observava a cidade do alto do prédio espelhado com um copo de café intocado na mão.

Ele gostava daquela vista. Não pela beleza — mas pelo controle. Pessoas pareciam pequenas demais lá embaixo. Previsíveis. Substituíveis. O mundo fazia mais sentido quando visto de cima.

— Os números estão reagindo — disse o assessor, atrás dele. — Do jeito que você previu.

Marcelo sorriu de canto.

— Claro que estão.

Ele se virou lentamente, caminhando até a mesa onde vários relatórios estavam espalhados. Gráficos, projeções, tendências de consumo. Tudo organizado com precisão quase obsessiva.

— Quando você ataca o comportamento, não precisa atacar a marca — continuou Marcelo. — As pessoas fazem o trabalho sozinhas.

— Ainda assim — arriscou o assessor —, a rede de restaurantes dela continua forte. O público é fiel.

Marcelo soltou uma risada baixa.

— Fidelidade é frágil quando você planta vergonha suficiente.

Ele sentou-se na cadeira de couro e cruzou os dedos, encarando a tela do notebook. O nome da CEO rival aparecia em destaque em vários artigos recentes. Forte. Respeitada. Intocável, segundo alguns.

— Intocável não existe — murmurou.

Marcelo não odiava Raquel.

Não exatamente.

O que sentia era algo mais antigo, mais confuso. Um incômodo persistente. Uma lembrança mal resolvida que ele preferia chamar de competitividade.

Ela representava tudo o que ele não esperava que sobrevivesse.

— Quero avançar para a fase dois — disse ele, finalmente.

O assessor hesitou.

— Isso significa…?

— Ataque indireto. Terceiros. Opinião pública.

Marcelo abriu um arquivo específico e girou a tela.

— Conhece este nome? — perguntou.

O assessor leu em voz alta:

— Arthur Yoshi.

— O maior crítico gastronômico do país — completou Marcelo. — Influencer, formador de opinião, reputação construída em “sinceridade brutal”.

— Ele nunca elogia ninguém facilmente — disse o assessor. — E destrói marcas com um vídeo.

— Exatamente.

Marcelo fechou o notebook com calma.

— Quero que ele visite três unidades da rede dela.

— Oficialmente?

Marcelo levantou uma sobrancelha.

— Oficialmente, não.

O assessor entendeu.

— Um convite informal. Discreto. Bem remunerado.

— Muito bem remunerado — corrigiu Marcelo. — O suficiente para que ele “seja honesto”.

O assessor respirou fundo.

— E se descobrirem?

Marcelo levantou-se.

— Não vão. Arthur Yoshi não mente. Ele só escolhe onde olhar.

Ele caminhou até a janela novamente.

— E mesmo que desconfiem… — fez uma pausa —, a dúvida já estará plantada.

Naquele mesmo dia, em um restaurante elegante, Arthur Yoshi girava lentamente uma taça de água enquanto ouvia a proposta.

— Não estou interessado em publicidade disfarçada — disse ele, sem rodeios.

O homem à sua frente sorriu com educação treinada.

— Não é publicidade. É liberdade total de crítica. Sem interferência. Sem filtros.

Arthur inclinou a cabeça.

— Então por que me pagar?

— Porque seu tempo vale dinheiro.

Arthur ficou em silêncio por alguns segundos.

— E quais restaurantes? — perguntou, finalmente.

Os nomes foram listados.

Arthur reconheceu todos.

— A queridinha do mercado — comentou. — A CEO “inspiradora”.

— Exatamente.

Arthur apoiou o cotovelo na mesa.

— Quer que eu encontre defeitos?

— Queremos sua opinião — respondeu o homem. — Completa.

Arthur sorriu de forma quase imperceptível.

— Todo restaurante tem defeitos — disse. — Alguns só precisam de alguém disposto a apontá-los.

Marcelo recebeu a confirmação naquela noite.

O plano estava em movimento.

Ele abriu uma garrafa de vinho e serviu-se com calma. Não brindou. Não comemorou. Para ele, aquilo era só uma partida de xadrez no qual ele estava ganhando.

— As pessoas precisam de heróis — pensou em voz alta. — E precisam ainda mais de vê-los cair.

Dias depois, o primeiro vídeo foi ao ar.

Marcelo assistiu inteiro, sem piscar.

Arthur Yoshi caminhava pelo restaurante com expressão neutra, câmera em mãos.

— *“A proposta é interessante”* — dizia ele —, *“mas execução é tudo.”*

O vídeo não era explosivo. Era pior.

Era frio.

Comentários sutis sobre tempero inconsistente. Atendimento “apressado demais”. Ambiente “barulhento”. Nada grave. Tudo acumulativo.

— *“Não é ruim”*, — concluiu Arthur. — *“Mas talvez esteja vivendo mais de reputação do que de entrega.”*

Marcelo sorriu.

Horas depois, os comentários começaram.

— *“Sempre achei superestimado.”*

— *“Fui lá uma vez, não achei tudo isso.”*

— *“Talvez a marca esteja acomodada.”*

No segundo vídeo, Arthur foi mais direto.

— *“Quando uma empresa cresce rápido demais, perde o cuidado com os detalhes.”*

Marcelo fechou os olhos por um instante, saboreando a precisão do golpe.

— Não é sobre destruir — murmurou. — É sobre enfraquecer.

O celular vibrou.

— Funcionou — disse o assessor do outro lado. — As redes estão reagindo. As vendas caíram mais dois pontos em algumas unidades.

Marcelo respirou fundo.

— Continue monitorando — respondeu. — E mantenha distância. Nenhuma ligação direta comigo.

Ele desligou e ficou em silêncio.

Por um momento breve, uma imagem antiga tentou emergir. Uma lembrança distante. Um nome que ecoava de um tempo em que tudo era mais simples e mais cruel.

Marcelo empurrou aquilo para longe.

— O passado não importa — disse a si mesmo. — Só o resultado.

Ele sabia que Raquel reagiria. Pessoas como ela sempre reagiam.

Mas reagir também cansa.

E Marcelo contava com isso.

Enquanto isso, em outra parte da cidade, Raquel assistia ao mesmo vídeo com o maxilar tenso, sentindo algo que ia além da frustração profissional.

Era familiar demais.

O ataque não vinha de frente.

Vinha de lado.

Como antes.

Marcelo sorriu novamente, sem saber que aquela estratégia, tão calculada, estava prestes a reabrir algo que nenhum dos dois realmente enterrara.

A guerra tinha começado.

E ele tinha dado o primeiro golpe.

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