Ponto de Vista: Leonardo
O vidro triplo do estúdio me separava do mundo, mas não me protegia de mim mesmo. Fazia três dias que a carta tinha sido entregue em Porto do Silêncio. Eu sabia disso porque o Marcos, com sua eficiência cirúrgica e um pragmatismo que às vezes me enojava, tinha me mostrado a confirmação do recebimento no tablet. "Entregue em mãos", dizia o relatório frio do mensageiro. Desde aquele segundo, meu celular se tornou um objeto de tortura. Eu o encarava por horas, esperando uma vibração, um sinal de fumaça, qualquer coisa que indicasse que ela tinha lido, que ela sabia. Mas o silêncio da Maya era absoluto, um vácuo que engolia todas as minhas expectativas.
— Leo, cinco minutos para o ensaio da coletiva. O pessoal da gravadora já está na sala de reuniões. Eles estão eufóricos, cara. Os números da pré-venda quebraram todos os recordes da década — a voz do Guto estalou nos meus fones de ouvido, carregada de um entusiasmo que eu não conseguia compartilhar.
Eu não respond