ELLA
O tempo mudou de forma depois do hospital.
Não corre mais — pesa.
Os dias agora são medidos em horários de remédio, posições certas para dormir, passos contados até o banheiro e longas pausas olhando pela janela, tentando lembrar como era ter pressa. Repouso absoluto. Duas palavras simples que carregam um mundo inteiro de limitações.
No começo, eu tentei fingir que não seria tão difícil. Disse a mim mesma que era temporário, que eu aguentaria. Mas o corpo cobra. Cobra silêncio, calma, cuidado. Cobra medo também.
Há dias em que acordo bem, quase normal. Outros em que o enjoo volta como um lembrete cruel de que nada está sob meu controle. O sangramento cessou, graças a Deus, mas a ameaça ainda existe — paira sobre mim como uma sombra constante. Qualquer dorzinha diferente me paralisa. Qualquer pontada me faz levar a mão à barriga, em pânico, pedindo em silêncio para que meu bebê fique bem.
Ficar deitada o dia inteiro não é só físico. É mental.
É reviver tudo.
O cativeiro.
O tiro.
O