Início / Romance / A Esposa que Ele Não Lembra / Capítulo 4 — O Quarto 302
Capítulo 4 — O Quarto 302

O elevador subia em silêncio.

Valentina observava seu reflexo nas portas espelhadas, mas mal se reconhecia.

O cabelo agora estava mais bem arrumado.

As roupas, escolhidas pela equipe de Helena, eram elegantes.

O sobrenome… Montenegro.

Mas por dentro?

Ela ainda era a mesma garota que contava moedas para comprar remédios.

O “ding” suave anunciou a chegada ao andar da UTI.

Seu coração apertou automaticamente.

Ela já conhecia aquele caminho.

Os corredores frios.

As luzes brancas.

O silêncio pesado.

Valentina caminhou até o quarto 302.

Parou diante da porta.

Respirou fundo.

E entrou.

Leonardo Montenegro continuava exatamente como antes.

Imóvel.

Silencioso.

Intocável.

Por um segundo, tudo o que tinha acontecido naquela manhã — o escritório, Gabriel, o confronto — pareceu distante.

Ali… era outro mundo.

Um mundo onde só existiam ela e ele.

Valentina fechou a porta atrás de si.

Caminhou até a cadeira ao lado da cama e se sentou.

Ficou alguns segundos apenas olhando para ele.

— Seu irmão apareceu hoje — disse, quebrando o silêncio.

Ela soltou um suspiro leve.

— Gabriel Montenegro.

Ela inclinou a cabeça.

— Ele não gostou muito de mim.

Uma pequena pausa.

— Na verdade… ele me odeia.

Valentina apoiou o cotovelo na cadeira, encostando o rosto na mão.

— Mas eu entendo.

Se fosse o contrário…

Se fosse sua mãe naquela cama…

Talvez ela também desconfiaria de qualquer estranho que aparecesse dizendo ser esposa.

Ela olhou para as mãos dele.

Firmes.

Fortes.

Mas completamente imóveis.

— Ele disse que você vai acordar.

A voz dela saiu mais baixa.

— E que quando isso acontecer… você vai decidir o que fazer comigo.

O coração dela apertou levemente.

Ela desviou o olhar.

— E sabe o que é mais estranho?

Um pequeno sorriso surgiu, quase triste.

— Eu também acho que você vai acordar.

O silêncio respondeu.

Valentina soltou o ar lentamente.

— Eu não sei por quê… mas acho.

Ela ficou em silêncio por alguns segundos.

Então, como já estava se tornando um hábito, começou a falar sobre o seu dia.

Contou sobre o prédio da empresa.

Sobre o escritório.

Sobre a fotografia.

— Você parecia… diferente — disse ela. — Na foto.

Ela inclinou a cabeça.

— Vivo.

Os olhos dela suavizaram.

— Confiante.

Ela riu baixinho.

— Um pouco arrogante também.

Silêncio.

Valentina passou os dedos pela borda da cama.

— Mas acho que você pode ser pior pessoalmente.

Outro pequeno sorriso.

O monitor continuava constante.

Bip.

Bip.

Bip.

Valentina estendeu a mão novamente.

Segurou a mão dele.

Dessa vez, com mais naturalidade.

— Seu irmão acha que eu estou aqui por dinheiro.

Ela fez uma pausa.

— E talvez ele não esteja completamente errado.

A sinceridade saiu mais pesada do que ela esperava.

— Eu precisei aceitar.

Seus dedos apertaram levemente os dele.

— Mas isso não significa que eu seja uma pessoa ruim.

O silêncio não julgava.

Não criticava.

— Eu não vou te machucar.

Ela fechou os olhos por um segundo.

— Prometo.

E então…

Algo aconteceu.

Pequeno.

Quase imperceptível.

Mas real.

O dedo de Leonardo se moveu.

Valentina congelou.

Seu corpo inteiro ficou tenso.

Ela abriu os olhos rapidamente.

— …Leonardo?

Nada.

Ela observou a mão dele com atenção.

O coração disparado.

— Eu… eu vi isso?

Ela se inclinou um pouco mais para frente.

— Você… mexeu a mão?

O monitor cardíaco continuava no mesmo ritmo.

Sem alteração.

Sem alerta.

Valentina prendeu a respiração.

Segundos passaram.

Nada aconteceu.

Nenhum movimento.

Nenhum sinal.

Ela soltou o ar lentamente.

— Acho que foi impressão minha…

Ela deu um pequeno sorriso nervoso.

— Estou ficando maluca.

Mas, ainda assim…

Ela não soltou a mão dele.

Porque, no fundo…

Algo dentro dela dizia que não tinha sido imaginação.

E naquele mesmo instante…

Em algum lugar na escuridão da mente de Leonardo Montenegro…

Uma imagem surgiu.

Confusa.

Distante.

Uma rua.

Chuva.

E uma mulher.

Uma mulher correndo em sua direção.

E antes que ele pudesse ver seu rosto…

Tudo voltou ao silêncio.

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