Mundo de ficçãoIniciar sessãoO elevador subia em silêncio.
Valentina observava seu reflexo nas portas espelhadas, mas mal se reconhecia.
O cabelo agora estava mais bem arrumado.
As roupas, escolhidas pela equipe de Helena, eram elegantes.
O sobrenome… Montenegro.
Mas por dentro?
Ela ainda era a mesma garota que contava moedas para comprar remédios.
O “ding” suave anunciou a chegada ao andar da UTI.
Seu coração apertou automaticamente.
Ela já conhecia aquele caminho.
Os corredores frios.
As luzes brancas.
O silêncio pesado.
Valentina caminhou até o quarto 302.
Parou diante da porta.
Respirou fundo.
E entrou.
Leonardo Montenegro continuava exatamente como antes.
Imóvel.
Silencioso.
Intocável.
Por um segundo, tudo o que tinha acontecido naquela manhã — o escritório, Gabriel, o confronto — pareceu distante.
Ali… era outro mundo.
Um mundo onde só existiam ela e ele.
Valentina fechou a porta atrás de si.
Caminhou até a cadeira ao lado da cama e se sentou.
Ficou alguns segundos apenas olhando para ele.
— Seu irmão apareceu hoje — disse, quebrando o silêncio.
Ela soltou um suspiro leve.
— Gabriel Montenegro.
Ela inclinou a cabeça.
— Ele não gostou muito de mim.
Uma pequena pausa.
— Na verdade… ele me odeia.
Valentina apoiou o cotovelo na cadeira, encostando o rosto na mão.
— Mas eu entendo.
Se fosse o contrário…
Se fosse sua mãe naquela cama…
Talvez ela também desconfiaria de qualquer estranho que aparecesse dizendo ser esposa.
Ela olhou para as mãos dele.
Firmes.
Fortes.
Mas completamente imóveis.
— Ele disse que você vai acordar.
A voz dela saiu mais baixa.
— E que quando isso acontecer… você vai decidir o que fazer comigo.
O coração dela apertou levemente.
Ela desviou o olhar.
— E sabe o que é mais estranho?
Um pequeno sorriso surgiu, quase triste.
— Eu também acho que você vai acordar.
O silêncio respondeu.
Valentina soltou o ar lentamente.
— Eu não sei por quê… mas acho.
Ela ficou em silêncio por alguns segundos.
Então, como já estava se tornando um hábito, começou a falar sobre o seu dia.
Contou sobre o prédio da empresa.
Sobre o escritório.
Sobre a fotografia.
— Você parecia… diferente — disse ela. — Na foto.
Ela inclinou a cabeça.
— Vivo.
Os olhos dela suavizaram.
— Confiante.
Ela riu baixinho.
— Um pouco arrogante também.
Silêncio.
Valentina passou os dedos pela borda da cama.
— Mas acho que você pode ser pior pessoalmente.
Outro pequeno sorriso.
O monitor continuava constante.
Bip.
Bip.
Bip.
Valentina estendeu a mão novamente.
Segurou a mão dele.
Dessa vez, com mais naturalidade.
— Seu irmão acha que eu estou aqui por dinheiro.
Ela fez uma pausa.
— E talvez ele não esteja completamente errado.
A sinceridade saiu mais pesada do que ela esperava.
— Eu precisei aceitar.
Seus dedos apertaram levemente os dele.
— Mas isso não significa que eu seja uma pessoa ruim.
O silêncio não julgava.
Não criticava.
— Eu não vou te machucar.
Ela fechou os olhos por um segundo.
— Prometo.
E então…
Algo aconteceu.
Pequeno.
Quase imperceptível.
Mas real.
O dedo de Leonardo se moveu.
Valentina congelou.
Seu corpo inteiro ficou tenso.
Ela abriu os olhos rapidamente.
— …Leonardo?
Nada.
Ela observou a mão dele com atenção.
O coração disparado.
— Eu… eu vi isso?
Ela se inclinou um pouco mais para frente.
— Você… mexeu a mão?
O monitor cardíaco continuava no mesmo ritmo.
Sem alteração.
Sem alerta.
Valentina prendeu a respiração.
Segundos passaram.
Nada aconteceu.
Nenhum movimento.
Nenhum sinal.
Ela soltou o ar lentamente.
— Acho que foi impressão minha…
Ela deu um pequeno sorriso nervoso.
— Estou ficando maluca.
Mas, ainda assim…
Ela não soltou a mão dele.
Porque, no fundo…
Algo dentro dela dizia que não tinha sido imaginação.
E naquele mesmo instante…
Em algum lugar na escuridão da mente de Leonardo Montenegro…
Uma imagem surgiu.
Confusa.
Distante.
Uma rua.
Chuva.
E uma mulher.
Uma mulher correndo em sua direção.
E antes que ele pudesse ver seu rosto…
Tudo voltou ao silêncio.







