Quem vigia os vigilantes

A casa em Monte Verde estava cheia daquele barulho bom de fim de tarde: panela no fogo, televisão ligada num volume que ninguém realmente escutava e Melinda jogada no sofá, de pernas para o alto, rindo sozinha de um vídeo idiota no celular.

Tina picava cebola com uma tranquilidade ensaiada demais.

Era o tipo de calma que só existe quando a cabeça está em outro lugar.

— Mãe… — Melinda disse, sem tirar os olhos da tela. — Você está sorrindo para a cebola.

— Tô nada. Tina respondeu rápido demais.

— Tá sim. Ou você está apaixonada ou a cebola é muito simpática.

Tina jogou um pano de prato nela. — Vai estudar, criatura.

A campainha tocou antes que Melinda pudesse retrucar.

Tina estranhou. Não esperava ninguém.

Quando abriu a porta, encontrou Marlene, postura ereta, bolsa grande no braço e aquele olhar que misturava cuidado, desconfiança e julgamento silencioso.

— Marlene? Tina sorriu. — Não avisou que vinha.

— Resolvi passar. Respondeu ela, entrando sem esperar convite. — Faz tempo que não
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