Capítulo 3: O Primeiro Caco

O táxi deixou Clara na frente dos imponentes portões de ferro forjado da Mansão Albuquerque. Ela dispensou o motorista da família, Sr. Alberto, que se ofereceu para buscá-la. Não queria ninguém relatando seus passos, sua aparência ou suas lágrimas a Ricardo ou à mãe dele.

Ao caminhar pela entrada de pedras portuguesas, observando o jardim milimetricamente podado onde nenhuma folha ousava cair fora do lugar, Clara sentiu uma estranheza. O teto de pé direito duplo do hall de entrada, o lustre de cristal Baccarat que custava mais que a vida de uma pessoa comum, as obras de arte originais nas paredes… tudo aquilo parecia diferente agora.

Antes, ela sentia orgulho e um medo constante de não pertencer àquele lugar. Agora, ela sentia nojo.

Aquela casa era um mausoléu de mármore e ouro. E ela tinha sido o cadáver residente, perfeitamente preservado, por três anos.

— Finalmente! — Uma voz estridente e carregada de desdém ecoou da sala de estar, quebrando o silêncio sepulcral da casa.

Dona Elvira, a mãe de Ricardo, surgiu como uma aparição. Vestida em um terninho Chanel de tweed rosa pálido, impecável, com o rosto esticado por inúmeras plásticas e a expressão de quem acabou de sentir um cheiro desagradável.

— Onde você se meteu, garota? — Elvira apontou um dedo acusador, com uma unha perfeitamente manicurada em vermelho sangue. — Ricardo me ligou furioso de Singapura. Disse que você estava fazendo cena no hospital, ligando para ele no meio de uma negociação bilionária. Você não tem vergonha? Incomodar um homem daquele calibre, que carrega o peso da economia nas costas, com suas dores de cabeça imaginárias?

Clara parou no meio da sala. Sua cabeça latejava com a força de um martelo, mas a adrenalina do diagnóstico a mantinha de pé, vibrando em suas veias.

— Eu estava morrendo, Elvira — Clara disse. A voz dela saiu calma, baixa, testando o peso daquela palavra na boca.

A velha soltou uma risada seca, cruel, que parecia o som de vidro quebrando.

— Morrendo de tédio, só se for. Você não faz nada o dia todo. É uma inútil. Olha para isso! — Elvira caminhou apressada até uma cômoda antiga, uma peça francesa do século XVIII, bojuda e envernizada, que Ricardo adorava e proibia qualquer um de limpar, exceto especialistas.

Elvira passou o dedo indicador sobre a madeira escura e o ergueu triunfante, mostrando um grão microscópico de poeira que só ela podia ver.

— Pó! — Elvira gritou, a voz subindo uma oitava. — Eu avisei para você supervisionar as empregadas com rigor. Essa cômoda pertence à família Albuquerque há cinco gerações. É mais valiosa que toda a sua família medíocre e falida junta. Se você não serve para dar um herdeiro ao meu filho — ela olhou com desprezo para a barriga reta de Clara —, pelo menos sirva para manter a casa limpa! Você é uma vergonha para o sobrenome que lhe demos.

Clara olhou para a cômoda. Depois, seus olhos se desviaram para um vaso de cristal pesado, maciço, que estava sobre uma mesa lateral.

Três meses.

Ela tinha passado três anos engolindo sapos, baixando a cabeça, pedindo desculpas por existir, aceitando as humilhações dessa mulher e a indiferença do filho dela. Tudo na esperança patética de que, se fosse a esposa perfeita, se fosse dócil o suficiente, Ricardo a amaria e Elvira a aceitaria.

O resultado? Ela ia morrer. O cérebro dela estava apodrecendo. E no velório dela, eles provavelmente reclamariam que o caixão estava ocupando muito espaço ou que ela morreu em uma data inconveniente para a agenda da empresa.

Algo estalou dentro do peito de Clara. Não foi um osso, foi uma corrente.

— Você tem razão, Elvira — Clara disse, caminhando lentamente até o vaso. Seus saltos estalavam no chão, um som rítmico de guerra. — Essa cômoda é muito valiosa para ter pó. É um crime.

— Que bom que finalmente reconhece sua incompetência. Agora pegue um pano de flanela e…

Clara pegou o vaso de cristal com as duas mãos. Ele era frio e pesado. Uma arma perfeita.

— O que você está fazendo? — Os olhos de Elvira se arregalaram, a máscara de arrogância vacilando pela primeira vez.

Clara sorriu. Não o sorriso tímido e submisso de sempre, mas um sorriso que não chegava aos olhos, um sorriso de quem não tem mais nada a perder.

— Estou resolvendo o problema do pó. Definitivamente.

Ela ergueu o vaso acima da cabeça, os músculos dos braços tensos.

— Não! — Elvira gritou, dando um passo à frente, as mãos estendidas em pânico. — Você ficou louca? Isso é uma relíquia!

— Azar o da relíquia — Clara sussurrou.

E com um grito gutural que estava preso em sua garganta há três anos, Clara lançou o vaso com toda a força que lhe restava diretamente sobre a cômoda francesa.

O som foi ensurdecedor. O cristal explodiu, a madeira antiga rachou e se partiu ao meio, verniz e história voando pelos ares.

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