Mundo ficciónIniciar sesiónO táxi amarelo e comum deixou Clara na frente dos imponentes portões de ferro forjado da Mansão Albuquerque. Pouco antes, ao sair do hospital, ela havia dispensado expressamente o motorista da família, o Sr. Alberto, que se oferecera para buscá-la. Clara não queria ninguém relatando seus passos, sua aparência abatida ou suas lágrimas a Ricardo ou à mãe dele. Ela precisava do silêncio de um motorista desconhecido para assimilar o peso da sua nova realidade.
Ao caminhar pela imensa entrada de pedras portuguesas, observando o jardim milimetricamente podado onde nenhuma folha seca ousava cair fora do lugar, Clara sentiu uma estranheza profunda. O teto com pé-direito duplo do hall de entrada, o lustre colossal de cristal Baccarat que custava mais do que a vida inteira de uma pessoa comum, as obras de arte originais penduradas nas paredes... tudo aquilo parecia grotesco agora.
Antes, ela sentia orgulho de viver ali e um medo constante e sufocante de não pertencer àquele mundo de opulência. Agora, ela sentia apenas nojo.
Aquela mansão não era um lar; era um mausoléu de mármore e ouro. E ela havia sido o cadáver residente, perfeitamente preservado em uma redoma de cristal, pelos últimos três anos.
— Finalmente! — Uma voz estridente, aguda e carregada de um desdém refinado ecoou do centro da sala de estar, quebrando o silêncio sepulcral da casa.
Dona Elvira, a mãe de Ricardo, surgiu do corredor como uma aparição sombria. Estava impecavelmente vestida em um terninho Chanel de tweed rosa-pálido, com o rosto esticado e paralisado por inúmeras intervenções plásticas e a expressão permanente de quem acabou de sentir um cheiro insuportável.
— Onde você se meteu, garota? — Elvira caminhou em direção a Clara, apontando um dedo acusador com uma unha pontiaguda pintada em tom vermelho-sangue. — O Ricardo me ligou furioso de Singapura! Disse que você estava fazendo cena em um hospital público qualquer, ligando para o celular pessoal dele no meio de uma negociação bilionária com fundos internacionais. Você não tem um pingo de vergonha nessa cara? Incomodar um homem daquele calibre, que carrega o peso da economia da holding nas costas, por causa das suas dores de cabeça imaginárias e chiliques de carência?
Clara parou no meio da imensa sala de estar. Sua cabeça latejava com a violência de uma martelada contínua, mas a adrenalina do diagnóstico e a decisão irreversível de não ser mais uma vítima mantinham suas costas eretas, fazendo o sangue pulsar quente em suas veias.
— Eu estava morrendo, Elvira — disse Clara. A voz dela saiu assustadoramente calma, baixa, quase suave, testando o peso real daquela palavra em sua boca.
A velha soltou uma risada seca, debochada e cruel, que ressoou como o som de vidro se despedaçando no chão.
— Morrendo de tédio, só se for! — debochou a matriarca, cruzando os braços. — Você não faz absolutamente nada o dia inteiro. É uma inútil decorativa. Olhe para este lugar! Olhe para o estado desta casa!
Elvira caminhou apressada em direção a uma cômoda antiga — uma peça rara francesa do século XVIII, bojuda, envernizada e folheada a ouro, que Ricardo adorava e proibia categoricamente qualquer empregada de tocar, exceto restauradores especializados.
Elvira deslizou o dedo indicador sobre a madeira escura e o ergueu vitoriosa, como se tivesse descoberto um crime hediondo, mostrando uma partícula microscópica de poeira.
— Pó! — gritou a velha, a voz subindo uma oitava e ecoando pelo teto alto. — Eu cansei de avisar que você deveria supervisionar a equipe de limpeza com punho de ferro! Esta cômoda pertence à família Albuquerque há cinco gerações. É mais valiosa do que a história da sua família medíocre e falida junta. Se você não serve nem para dar um herdeiro legítimo ao meu filho... — Elvira olhou com um desprezo visceral para a barriga reta de Clara — ...pelo menos sirva para manter a casa limpa e não envergonhar o sobrenome que caridosamente lhe demos!
Clara olhou fixamente para a cômoda antiga. Em seguida, seus olhos se desviaram lentamente para um vaso de cristal pesado, maciço e trabalhado, que repousava sobre uma mesa de centro lateral.
Noventa dias.
Ela havia passado três longos anos engolindo humilhações diárias, baixando a cabeça diante do veneno dessa mulher, pedindo desculpas apenas por existir e aceitando a indiferença congelante de Ricardo. Tudo na esperança patética e infantil de que, se fosse a esposa dócil, dócil e perfeita, Ricardo finalmente a amaria e Elvira a aceitaria como igual.
E qual fora o resultado? Ela estava morrendo. O próprio cérebro estava sendo devorado por um tumor agressivo. E quando seu corpo estivesse no caixão, essa família provavelmente reclamaria do transtorno do velório ou de como a data da sua morte atrapalhava o calendário de lançamentos da empresa.
Algo estalou com violência no peito de Clara. Não foi uma costela; foi a última corrente invisível que a prendia àquela gaiola.
— Você tem toda a razão, Elvira — disse Clara, dando um passo em direção à mesa lateral. Seus saltos altos bateram contra o piso de mármore com um estalo firme, criando um compasso ritmado de guerra. — Esta cômoda é valiosa demais para acumular poeira. É um verdadeiro crime contra o patrimônio da família.
— Que bom que finalmente reconhece sua incompetência crônica — bufou Elvira, ajeitando o colar de pérolas no pescoço. — Agora vá até a cozinha, pegue um pano de flanela e venha limpar isso você mesma antes que meu filho volte de viagem.
Clara envolveu o vaso de cristal pesado com as duas mãos. Ele era frio, denso e perfeitamente equilibrado. Uma arma perfeita.
— O que você pensa que está fazendo, garota? — Os olhos de Elvira se arregalaram levemente, a máscara de soberba balançando pela primeira vez diante da compostura estranha da nora.
Clara sorriu. Não era o sorriso tímido, doce e curvado de sempre. Era um sorriso sombrio, afiado e livre, o sorriso indomável de uma mulher que já foi sentenciada à morte e não tem mais absolutamente nada a perder.
— Estou resolvendo o problema do pó, Elvira. De uma vez por todas.
Clara ergueu o vaso de cristal acima da cabeça, os músculos dos braços tensos, a respiração fluindo calma e focada.
— Não! — Elvira gritou, dando um passo involuntário para trás com as mãos erguidas em pânico estupefato. — Você enlouqueceu de vez?! Isso é uma relíquia inestimável de museu!
— Azar o da relíquia — sussurrou Clara.
E com um brado libertador que esteve sufocado em sua garganta durante três anos de casamento, Clara arremessou o vaso de cristal com toda a força do seu corpo diretamente contra a cômoda francesa de estimação de Ricardo.
O impacto foi ensurdecedor. O cristal maciço explodiu em milhares de estilhaços brilhantes, a madeira antiga do século XVIII rachou ao meio sob a violência do golpe e o verniz histórico voou pelos ares junto com lascas da peça valiosa.
Elvira soltou um estrondo de horror, levando as mãos à boca enquanto observava os ruínas da antiguidade espalhados pelo chão de mármore.
— Sua... sua louca! Vândala! — gaguejou a velha, tremendo de fúria e choque. — O Ricardo vai te colocar na rua! Ele vai acabar com você! Ele vai tirar até o último centavo do seu sobrenome falido!
Clara não se abalou. Ela caminhou calmamente por cima dos cacos de cristal que estalavam sob as solas dos seus sapatos de salto, aproximou-se de Elvira e parou a poucos centímetros do rosto paralisado da sogra. O perfume forte de rosas de Elvira não conseguia mais intimidá-la.
— Se você voltar a colocar os pés nesta casa sem a minha permissão, Elvira... o próximo vaso não vai acertar a mobília — disse Clara em um tom terrivelmente baixo e firme, olhando bem no fundo dos olhos da matriarca. — Agora saia da minha casa antes que eu decida redecorar o resto da sala com as suas pérolas.
Elvira deu dois passos para trás, horrorizada com o olhar perigoso e inalterado da mulher que costumava chorar em silêncio pelos cantos. Sem emitir mais uma palavra, a matriarca agarrou sua bolsa Chanel e fugiu em direção à saída, os passos desengonçados traindo seu pânico.
Clara respirou fundo, sentindo o ar entrar limpo em seus pulmões pela primeira vez em anos. Ela olhou para a destruição no chão e depois para o celular que começou a tocar freneticamente no bolso do casaco.
Ao puxar o aparelho, o visor brilhava com o nome do remetente da chamada recebida.
Ricardo.
Ele certamente já havia recebido o alerta de segurança ou a ligação histérica da mãe.
Clara olhou para o nome do marido piscando na tela, deslizou o dedo para recusar a chamada sem hesitar e bloqueou o número pessoal do bilionário, dando o primeiro passo para o plano que mudaria a vida dos dois nos próximos oitenta e nove dias.







