Mundo de ficçãoIniciar sessãoO cheiro era a primeira coisa que denunciava o lugar. Uma mistura enjoativa de antisséptico forte, cera de piso e flores murchas. O cheiro da doença.
Clara piscou, lutando contra o peso em suas pálpebras. A luz branca fluorescente acima dela era agressiva, ferindo seus olhos sensíveis. Ela não estava em sua cama fria na mansão. Estava em um quarto de hospital privado, cercada por máquinas que bipavam ritmicamente, monitorando uma vida que ela sentia esvair-se aos poucos.
— Sra. Albuquerque? — Uma voz grave e profissional chamou sua atenção.
Ela virou a cabeça lentamente. Um médico de cabelos grisalhos, óculos de aro fino e expressão sombria estava ao pé da cama. Ele segurava uma prancheta contra o peito como se fosse um escudo, protegendo-se do que teria que dizer.
— O que aconteceu? — A voz dela saiu rouca, arranhada, como se não fosse usada há dias. — Onde está meu marido? Ricardo está aqui?
O médico hesitou, trocando o peso de uma perna para a outra. Aquele pequeno gesto disse a Clara tudo o que ela precisava saber.
— Seu motorista a trouxe depois que a governanta a encontrou desmaiada na sala de jantar. Tentamos contatar o Sr. Albuquerque repetidas vezes nas últimas seis horas. A secretária dele, Sra. Gilda, informou que ele está em uma fusão inadiável em Singapura e deixou ordens expressas para não ser perturbado por "assuntos domésticos".
Clara sentiu um gosto amargo, metálico, subir à boca. Claro. Uma fusão. Sempre havia uma fusão, uma aquisição, um IPO. Ela estava em uma cama de hospital, possivelmente grave, e para ele, isso era apenas um "assunto doméstico". Menos importante que uma assinatura em um contrato.
— Tudo bem, doutor. Eu estou acostumada. — Ela tentou sorrir, mas seus lábios tremeram. — É apenas estresse, certo? As dores de cabeça, o cansaço… Eu tenho me esforçado muito para manter a casa perfeita.
O médico puxou uma cadeira de metal e sentou-se ao lado da cama. O som das pernas da cadeira arrastando no chão fez o estômago de Clara gelar. Médicos só se sentam quando a notícia é devastadora. Se fosse simples, ele diria da porta.
— Fizemos uma bateria completa de exames enquanto a senhora estava inconsciente, Sra. Albuquerque. Tomografia, ressonância magnética, exames de sangue. — Ele fez uma pausa, respirando fundo. — Infelizmente, os resultados não são o que esperávamos.
Ele virou a prancheta para ela. Havia uma imagem do cérebro dela, com uma mancha escura, irregular e assustadora alojada na base.
— É um glioblastoma multiforme. Um tumor extremamente agressivo. Está localizado em uma área inoperável do tronco cerebral, entrelaçado com nervos vitais.
O silêncio no quarto foi absoluto. O bipe do monitor cardíaco parecia ter ficado mais alto. Clara olhou para a mancha. Parecia uma tinta preta derramada sobre quem ela era, apagando seu futuro, seus sonhos não realizados, os filhos que nunca teve.
— Quanto tempo? — ela perguntou. A firmeza em sua voz a surpreendeu. Talvez fosse o choque.
— Com tratamento paliativo agressivo… quimioterapia, radioterapia… talvez seis meses. Mas a qualidade de vida seria mínima. Sem tratamento, para manter a dignidade e o conforto… três meses. No máximo.
Três meses. Noventa dias. Doze semanas.
Ela tinha vinte e quatro anos e noventa dias de vida restantes.
— Eu preciso ligar para ele — ela disse, um desespero súbito tomando conta de seu peito. Ela pegou o celular na mesa de cabeceira com mãos trêmulas. Ela precisava ouvir a voz dele. Mesmo que fosse fria. Ela precisava contar. Talvez, diante da morte, ele parasse. Talvez ele voltasse.
Ela discou o número pessoal dele, aquele que apenas ela e a mãe dele tinham. Um toque. Dois. Três. Quatro.
— O que é, Clara? — A voz de Ricardo atendeu, impaciente, cortante. Havia barulho de papéis ao fundo e vozes falando em inglês. — Estou no meio de uma conferência com os investidores japoneses. Se for sobre o jantar com a minha mãe ou algum problema com os empregados, resolva você. É para isso que você serve.
As lágrimas que Clara segurava congelaram em seus olhos antes de cair. A crueldade daquelas palavras a atingiu mais forte que o diagnóstico.
— Ricardo, eu estou no hospital… Eu desmaiei e…
— Pelo amor de Deus, Clara. Você tem enxaqueca desde que nos casamos. Tome um remédio e vá para casa. Não tenho tempo para seus dramas de carência agora. Pare de agir como uma criança mimada.
Tu-tu-tu.
Ele desligou. Nem perguntou o que era. Nem perguntou se ela estava bem.
Clara olhou para o telefone mudo em sua mão. Depois olhou para o médico, que a observava com uma expressão de pena profunda. Pena. Ela odiava aquele olhar. Ela foi digna de pena a vida toda. A esposa troféu que ficava na prateleira.
Ela secou o rosto com as costas da mão, borrando a maquiagem. A tristeza profunda que sentia começou a endurecer, cristalizando-se em algo quente, afiado e perigoso. Raiva. Ódio puro e destilado.
— Doutor — ela disse, levantando o queixo e encarando o homem. — Não quero o tratamento. Não vou passar meus últimos dias careca e vomitando em uma cama. Me dê os analgésicos mais fortes que tiver. Eu vou para casa.







