A Esposa Virgem do CEO: 90 Dias de Rebeldia
A Esposa Virgem do CEO: 90 Dias de Rebeldia
Por: Sally Skellington
Capítulo 1: A Viúva de Marido Vivo

Capítulo 1: A Viúva de Marido Vivo

Clara Albuquerque tinha um único objetivo para a noite em que completava três anos de casada: forçar Ricardo a olhar para ela não como um enfeite invisível de mansão, mas como uma mulher viva e desejável. Ela passou os últimos meses estudando cada detalhe, engolindo o próprio orgulho e se moldando para tentar caber no mundo perfeito, asséptico e inalcançável do magnata da tecnologia. Se hoje ele não a visse, nada mais o faria.

O vapor que antes subia da terrina de prata já havia desaparecido há muito tempo. A sopa de aspargos, o prato favorito de Ricardo — ou ao menos o que a revista Forbes afirmava ser o predileto dele, já que o próprio marido nunca ficava em casa o suficiente para confirmar —, estava completamente fria e intocada sobre a mesa posta.

Clara tamborilou os dedos perfeitamente manicurados contra a toalha de linho egípcio. O som era abafado, quase inexistente, espelhando a forma como sua própria voz e existência haviam sido apagadas naquela casa. Ela ergueu os olhos para o relógio de pêndulo folheado a ouro que repousava no canto da sala de jantar cavernosa. O tique-taque monótono martelava contra suas têmporas, marcando com precisão matemática a contagem regressiva de mais uma humilhação.

Eram 23h45.

Três anos atrás, ela caminhara pelo corredor da Catedral da Sé sob os olhares atentos da alta sociedade. Usava um vestido de noiva sob medida que custava o equivalente a um apartamento popular, pronto para selar a união com Ricardo Albuquerque. Naquele dia, os flashes das câmeras e o sussurro dos convidados a deixaram tonta. As manchetes de fofoca e os portais de negócios a rotularam instantaneamente como a "Cinderela Moderna" — a garota vinda de uma família tradicional, porém falida, que havia conseguido fisgar o coração do implacável e intangível Príncipe do Setor Tecnológico.

Se o público e os colunistas sociais soubessem da verdade crua que se escondia por trás das portas duplas de carvalho da mansão Albuquerque, a inveja do público se transformaria em uma pena profunda e avassaladora.

O casamento nunca fora um conto de fadas. Fora um contrato rigoroso de conveniência, arquitetado para polir a imagem pública de Ricardo após uma crise de relações públicas e garantir a salvação financeira do patrimônio de seu pai. Clara aceitara a proposta acreditando infantilmente que, com paciência, doçura e dedicação, conseguiria derreter a armadura do marido. Quão ingênua ela fora.

Clara alisou o tecido leve do vestido de seda vermelho-sangue que havia comprado secretamente para aquela ocasião. O tom era uma afronta direta às regras veladas da casa. Ricardo sempre deixara claro o seu gosto por tons neutros, sóbrios e discretos nela: bege, marfim, cinza-chumbo. "Seja elegante, Clara. Não chame atenção desnecessária. O excesso é o refúgio dos inseguros", ele costumava instruir com aquele tom de voz pausado, clínico e professoral que a fazia se sentir minúscula, como uma criança sendo repreendida por postura inadequada.

Mas hoje ela não queria ser discreta. Hoje, em desespero, ela queria provocar uma reação — qualquer que fosse. Raiva, repulsa, surpresa... qualquer emoção seria melhor do que a indiferença gélida que recebia.

Ela esticou a mão e pegou o celular de última geração sobre a mesa pela trigésima vez nas últimas três horas. A tela permaneceu impiedosamente escura. Nenhuma notificação. Nenhuma chamada perdida. Nem mesmo um texto curto ou um modelo de desculpa pré-formatado. A última comunicação direta que ela tivera do marido fora um e-mail impessoal encaminhado pela secretária executiva dele, a Sra. Gilda, três dias atrás, confirmando que a verba mensal para a manutenção da mansão e despesas pessoais havia sido transferida com sucesso para sua conta bancária.

— Ele não vem — ela murmurou para a poltrona vazia na cabeceira da mesa.

A própria voz soou estranha aos seus ouvidos, perdida na imensidão da sala projetada para acolher banquetes de vinte pessoas, mas que agora servia apenas como testemunha de sua profunda solidão.

Não deveria ser uma surpresa. Ricardo passava mais de trezentos dias por ano cruzando o globo em seu jatinho particular. Tóquio, Londres, Nova York, Singapura, Dubai. Ele habitava fuso horários distantes e se hospedava em suítes presidenciais nas quais Clara nunca pisara. Nas raras ocasiões em que retornava ao Brasil, ele alegava exaustão extrema devido às reuniões de conselho e se trancava na suíte do escritório blindado ou dormia no quarto de hóspedes da ala leste, longe do quarto principal.

Clara tocou o anel de noivado e a aliança de diamantes lapidados que pesavam em seu anelar esquerdo. As pedras eram enormes, impecáveis, incrivelmente caras e gélidas ao toque. Uma metáfora perfeita e cruel para o seu casamento.

Eles nunca haviam consumado a união. Nem mesmo na noite de núpcias. Naquela data, Ricardo alegara uma queda abrupta nas ações na bolsa de valores asiática e passara a madrugada inteira ao telefone com operadores de mercado. Depois veio a desculpa do cansaço das viagens. Em seguida, o estresse dos novos lançamentos. E, gradualmente, as desculpas deram lugar a um silêncio absoluto e inquestionável. Para o mundo, ela era a esposa de um dos homens mais cobiçados do país; na intimidade, ela continuava sendo uma virgem intocada, trancada em uma gaiola de ouro decorada com o melhor que o dinheiro podia comprar.

O som suave de passos ecoou pelo corredor de mármore, fazendo o coração de Clara saltar no peito. Por um breve e insensato segundo, a esperança tola voltou a acender em seu estômago. Ela ergueu a postura imediatamente, ajustou o decote do vestido vermelho e umedeceu os lábios secos.

No entanto, quem despontou sob o arco da sala de jantar não foi o homem alto de ombros largos e olhos de tempestade que ela aguardava. Foi Dona Sônia, a governanta-chefe, acompanhada por duas arrumadeiras jovens.

Dona Sônia mantinha a expressão severa e profissional, mas seus olhos revelavam um vestígio incontestável de piedade ao encarar a jovem patroa sozinha à mesa ornamentada.

— Sra. Albuquerque... — começou a governanta com a voz baixa e respeitosa. — Já passam da meia-noite. A senhora deseja que guardemos o jantar no refrigerador e sirvamos o chá da noite no seu quarto?

Clara engoliu em seco, sentindo a garganta arranhar. A piedade nos olhos dos funcionários era a pior parte. Todos naquela mansão sabiam que ela era uma esposa de fachada. Todos viam as camas separadas, as roupas de Ricardo intactas no closet do outro quarto, o silêncio sufocante nos raros dias em que ele estava presente.

— Não precisa guardar a comida, Sônia — disse Clara, tentando manter a voz firme e elegante, exatamente como treinara em frente ao espelho. — Pode descartar tudo. O Sr. Ricardo obviamente foi retido por compromissos corporativos inadiáveis.

— Certamente, Sra. Albuquerque. Vou pedir para limpar a mesa.

Clara levantou-se com lentidão, mantendo a coluna reta enquanto caminhava em direção à imensa escadaria de mármore que levava ao segundo andar. A cada passo, o tecido de seda do vestido vermelho roçava em suas pernas, lembrando-a do ridículo de sua tentativa de sedução fracassada. Ela subiu os degraus sentindo um cansaço físico e mental avassalador, como se carregasse o peso de três anos de rejeição nos ombros.

Ao entrar no Quarto Principal — um ambiente vasto, decorado em tons sutis de creme e cinza, projetado para um casal que nunca existiu —, Clara caminhou até a grande penteadeira de madeira nobre. Olhou para o próprio reflexo no espelho iluminado.

Ela era jovem, tinha apenas vinte e quatro anos. Tinha pele clara e sem imperfeições, olhos expressivos e cabelos castanhos espessos que caíam em ondas suaves até a cintura. Qualquer homem na rua a olharia com desejo. Qualquer pessoa veria uma mulher bonita e cheia de vida. Mas para Ricardo, ela era apenas uma peça abstrata de um acordo comercial, um item de verba de representação que exigia manutenção financeira, mas zero atenção emocional.

Até quando ela suportaria aquilo? Viver como uma sombra? Aceitar ser anulada em troca do conforto material e do silêncio de sua família? O objetivo de ser notada parecia cada vez mais distante, um sonho infantil de quem acreditava em romances de prateleira.

Aflita, ela levou a mão à cabeça ao sentir uma fisgada aguda de dor atrás do olho esquerdo. Era a terceira vez naquela semana que aquela dor pulsante a atingia sem aviso, acompanhada por uma leve tontura que a fez se apoiar no tampo de mármore da penteadeira. Ela fechou os olhos por alguns segundos, esperando que a onda de desconforto passasse. Ultimamente, o estresse e a ansiedade vinham cobrando um preço alto de seu corpo.

Clara respirou fundo, abriu os olhos e encarou seu reflexo novamente. Ela se recusava a chorar. Já havia chorado todas as lágrimas possíveis no primeiro ano de casamento.

Ela se sentou na banqueta estofada e estendeu a mão para pegar o celular, pretendendo desligar o aparelho para finalmente tentar dormir e esquecer o fracasso daquela noite.

No entanto, no exato instante em que seus dedos tocaram o aparelho, a tela acendeu brilhantemente no escuro do quarto com uma notificação recém-chegada.

O coração de Clara acelerou involuntariamente por um milissegundo, pensando que talvez Ricardo estivesse enviando uma mensagem tardia de explicação. Mas o nome do remetente na tela principal não era o do marido.

Era uma notificação oficial e urgente do laboratório do Hospital Albert Einstein.

Sua análise histopatológica e o laudo da biópsia cerebral estão disponíveis para visualização.

Com os dedos ligeiramente trêmulos devido à dor de cabeça persistente, Clara desbloqueou a tela e abriu o documento em P*F. Seus olhos deslizaram rapidamente pelo texto técnico até pararem no diagnóstico conclusivo destacado em negrito:

Glioblastoma Multiforme — Grau IV (Avançado e Inoperável). Expectativa estimada de vida sem intervenção agressiva: 90 dias.

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