Mundo de ficçãoIniciar sessãoClara recebeu alta na manhã seguinte. Enquanto se vestia, com as roupas já secas, a enfermeira bateu na porta e entrou com uma prancheta e uma caneta em mãos.
- A senhorita pode assinar aqui, por gentileza? É a sua conta do hospital. A parte mais difícil: o dinheiro. Clara cobriu o rosto com as mãos antes de se virar e desejou sorte para ela mesma. Mas honestamente, ela não estava arrependida. Havia salvado a vida de alguém. Quando se virou, sorriu amarelo para a enfermeira. - Moça, é que... Nesse momento, eu não tenho dinheiro para pagar e... - disse, desconcertadamente. - Não se preocupe. Antes de sair, o Sr. Cavalieri quitou tudo para você. - a enfermeira sorriu, como se fosse apenas um inconveniente em seu dia. - O que? - perguntou Clara, imóvel, encarando o papel como se procurassa a resposta. - Isso é sério? - Sim, agora eu só preciso da sua assinatura para dar baixa no sistema. É claro que ele pagaria a conta do hospital de Clara, ela salvou a vida dele. Essa era uma forma muito sutil - para ele - de agradecimento. Ela poderia se sentir deslocada, pensando em como era fácil as pessoas reconheceram o quanto ela é uma pobretona de primeira. Mas não aquele momento, ela se sentia aliviada de carregar menos um peso. Quando ela estava prestes a sair do hospital, seu celular vibrou. Era sua mãe novamente, após vinte e cinco chamadas perdidas da noite anterior. - Oi, mãe - Clara disse sem vontade. - Clara! Meu Deus! Você está viva! Por onde andou, garota? Por que não me atendeu? - Eu sofri um pequeno acidente ontem a noite... - O quê? Que acidente? Você tá machucada? Foi assalto? Meu Deus, Clara, fala direito! Clara suspirou cansada. - Não foi nada grave. Eu só bati a cabeça e precisei passar a noite no hospital. - Hospital? E você me fala isso assim? Você ficou internada e não avisou a própria mãe? - Eu tava dopada de remédio, mãe. Não consegui mexer no celular. Houve alguns segundos de silêncio antes da pergunta que realmente importava surgir. - Você conseguiu o emprego ou não? Clara desviou o olhar para os carros passando na avenida. - Não, mãe... Eu não consegui. Como assim não conseguiu? Menina insolente! - a voz veio mais dura. - Você me disse que estava praticamente certo! - Eu sei... - Então o que aconteceu? Você brigou com alguém? Chegou atrasada? Clara, pelo amor de Deus, você sabe da nossa situação! Clara apertou o celular contra o ouvido, sentindo o peso do mundo desabar sobre os seus ombros. Ela estava com uma vontade enorme de voltar para aquela maca. Uma pequena lágrima escorreu pelo seu rosto. - Eu só... Não consegui. - Estamos atoladas de dívidas, contando com esse dinheiro e você me diz só isso? - Eu estou tentando, mãe... -Tentar não paga as contas, Clara! Clara mordeu o lábio inferior, tentando controlar o choro. -Eu vou arrumar outra coisa. - Outra coisa quando? Essa semana cortaram nossa luz duas vezes! O dono do apartamento já veio aqui ontem! Clara fechou os olhos com força. - Eu sei da situação! - Então começa a agir como alguém que sabe! Eu estou precisando dos meus remédios e de um teto para morar! A voz da mãe falhou no final da frase, misturada entre irritação e cansaço. - Você acha que eu não me sinto culpada? - Clara perguntou baixo, quase num sussurro. - Culpa não resolve nada, filha. Mais uma lágrima escorreu. Para evitar que a sua mãe ouvisse sua voz embargada de choro, Clara decidiu encerrar a ligação. - Depois a gente conversa - desligou. A batalha para procurar emprego era frenquente na vida de Clara, sua mãe estava impossibilitada de trabalhar há meses, devido a depressão que havia se instalado como uma sombra. Inicialmente, Clara tentava entender as ocilações de humor, mas logo os dias viraram meses, depois anos e ela obrigatoriamente se tornou a principal responsável pela sua mãe, fornecendo os remédios e tratametos, além de ter que lidar com a versão da sua mãe que ela nunca havia conhecido. E o que ela fazia por si? Apenas o básico para sobreviver. Mas gostava de pensar que, ao menos, havia terminado o seu ensino médio e as oportunidades não eram nulas. Estar naquele hospital trouxe uma estranha sensação de liberdade e alívio para Clara. Ela estava distante da sua mãe, dos problemas financeiros, da vida. Por algumas horas, ela estava isenta de quaisquer preocupaçôes, apenas sendo cuidada e não cuidando de si mesma. O ponto de ônibus estava mais perto, e uma pontada de agonia surgiu em seu peito. Ela não queria ir embora.






