Outra Vida

Nathaniel levantou-se da mesa e caminhou pelo grande corredor da casa até desaparecer. Alguns minutos depois, passos ecoaram e ele apareceu novamente, trazendo consigo um montante de papéis, que colocou sobre a mesa.

- Hoje você vai aprender a rotina de eventos. Isso influenciará o modo como você vai reagir ou falar. Helena não era uma incógnita, mas era presente por onde passava.

Ela puxou um dos documentos para mais perto. Eram convites, anotações de horários, nomes de pessoas, lugares que pareciam importantes demais para serem apenas sociais. Tudo organizado demais.

- Isso é era a rotina dela? Vocês viviam um casamento perfeito... Perfeito até demais...

Clara murmurou, passeando os olhos pelos papéis; fotos do casamento dos dois, viagem de férias, bodas de casamento. Até enxergar fotos de Helena caminhando até a entrada de um estabelecimento de luxo, tirada por paparazzis. O vestido vermelho, cabelo longos castanhos, óculos escuros, salto alto.

Nathaniel sentou novamente junto a Clara na mesa. Levou uma das mãos até o rosto de Clara e o puxou para olhar para ele. Não com uma força bruta, mas com uma firmeza que não permitia reação imediata.

- Esse é sua vida agora.

Clara o encarou por alguns segundos, sentindo o toque da sua mão fria. Estava definitivamente numa enrascada. Se desviou leventemente, retomando a atenção aos papéis. Nathaniel deu de ombros e deu um último gole no seu café.

- Hoje nós saíremos para um lugar muito frequentado por Helena.

Clara sentiu um calor percorrer seu corpo como um choque. Não sabia se era excitação ou nervosismo.

- Evento, restaurante...? - ela perguntou.

- Restaurante. Às 20h. Ela era vista lá toda quinta-feira. - respondeu Nathaniel.

- As pessoas não irão perceber que eu não sou ela? É cedo demais para sair assim em um primeiro dia. - relutou Clara.

- Exatamente por isso que você precisa aprender rápido. A lista de convidados hoje é reduzida, então não terá com o que se preocupar.

- Mas e se eu disser... algo errado?

- Improvise. - disse, simplesmente.

Clara deixou escapar uma risada curta.

- “Improvise”? Essa é sua solução?

Nathaniel inclinou levemente a cabeça, observando-a como se a pergunta fosse desnecessária.

- Helena fazia isso o tempo todo. As pessoas acreditam mais na confiança do que na verdade.

Clara voltou os olhos para os papéis espalhados sobre a mesa. Quanto mais olhava, mais sufocante aquilo parecia. Havia anotações sobre vinhos favoritos, nomes de funcionários, até observações sobre quem Helena evitava cumprimentar em público. Tudo metricamente calculado.

- Você estudou a própria esposa como se ela fosse um personagem - murmurou.

Nathaniel não respondeu imediatamente. Apenas pegou uma das fotografias e a observou por um breve instante antes de colocá-la de volta sobre a mesa, com leve indiferença, como se não tivesse perdido a própria mulher.

- Você também deveria começar a enxergá-la assim.

Clara cruzou os braços, desconfortável.

- Fácil para você falar, era casado com ela.

- E agora você é quem ocupará o lugar dela.

A firmeza da resposta fez o estômago de Clara revirar novamente. Nathaniel levantou-se da cadeira e caminhou até um pequeno aparador no canto da sala. Abriu uma gaveta e retirou uma caixa preta estreita, colocando-a diante dela.

- Abra.

Clara hesitou por um segundo antes de erguer a tampa. Dentro havia um colar delicado de diamantes. Simples, elegante e absurdamente caro.

- Helena usava isso quase todas as vezes que ia a esse lugar — explicou Nathaniel. - Ela nunca misturava com suas outras joias, era como se fosse... um amuleto da sorte para ela.

Clara ergueu os olhos lentamente para ele. Nathaniel pegou o colar e se pôs atrás de Clara, afastando seu cabelo e o colocando em seu pescoço. Os dedos dele tocaram levemente a nuca da jovem enquanto fechava o fecho da delicada peça. Nathaniel não se afastou de imediato, e inclinou-se até o rosto de Clara. O calor do corpo de Clara aumentou, num sentimento estranho.

- Sra. Cavalieri. Minha esposa. - Nathaniel disse, em tom baixo. - Não se atrase essa noite.

Os dedos dela deslizaram pelos diamantes, tentando entender o peso real daquelas joias. Era uma identidade inteira repousando no seu pescoço. Era loucura, tinha de ser algum delírio da sua mente. Clara levantou-se de súbito e carregou a caixa junto consigo, um pouco assustada com toda a situação.

A chuva do lado de fora aumentava, preenchendo a tensão que se instalava entre os dois. Ela permaneceu parada por alguns segundos, observando-o em silêncio, perplexa, antes de finalmente de virar para seguir até as escadas.

Nathaniel a seguiu e segurou suavemente seu braço.

- Clara.

Ela virou o rosto na direção dele.

- Não demonstre medo esta noite.

Os olhos dele desceram lentamente até a caixa preta em suas mãos.

- Helena nunca demonstrava.

O restante do dia foi tranquilo, Clara usou o tempo livre para conhecer melhor e a se adaptar a mansão, conhecer os funcionários, o jardim e a ilustre biblioteca, que, ao mesmo tempo, era um museu da família Cavalieri. Era um pequeno palácio, pode-se considerar. Por vários momentos, esqueceu da sua origem e sentiu que poderia muito bem viver essa vida dupla que implorava pelo seu nome.

Quando o fim da tarde se aproximou marcando às 19h no relógio, Clara foi para o quarto de Helena. Nathaniel resolvia pendências na Cavalieri Group que não podiam ser deixadas para outra ocasião, então ela só o veria durante o jantar. Clara adentrou o quarto, já um pouco familiarizada e passou para o banheiro. Era simplesmente luxuoso. Clara encheu a banheira e tirou suas roupas, mergulhando suavemente.. Recostou a cabeça e uma sensação relaxamento tomou seu corpo.

Seu celular tocou. Era Sua mãe. Clara fechou os olhos por um instante antes de esticar o braço molhado para alcançar o celular sobre a bancada de mármore. O nome da mãe brilhava na tela. Ela atendeu.

- Oi, mãe...

- Clara? Minha filha, graças a Deus. Você sumiu o dia inteiro de novo. Tá tudo bem?

A voz calma da sra. Navarro atravessou o banheiro silencioso como uma lembrança da vida que Clara tentava manter distante desde que atravessara os portões da mansão Cavalieri.

- Estou bem, mãe. Eu finalmente... consegui um emprego.

- Tem uma pessoa cuidando de mim em nome daquele empresário famoso que a gente vê na televisão. Você está envolvida com ele, Clara?

- De certa forma, sim.

O humor da sua mãe estava estável, mas ela não queria arriscar a contar tudo de uma vez sobre a atual situação, era melhor mentir naquele primeiro momento.

- Isso é muito bom pra gente, filha! E o salário é alto? Você é uma secretária ou o quê? - a voz empolgada ecoava o telefone.

- Sim, como se fosse isso. Levo café, anoto recados, atendo pessoas. Uma secretária, sim. - Clara sorriu. - Você está sendo bem tratada, mãe?

- Que maravilhoso! - era quase uma melodia. - Eu estou muito bem, Clara, a moça está cuidando muito bem de mim, ela ainda trouxe toda aquela medicação que estava atrasada... Estou bem, muito bem!

- Assim que puder, eu vou visitá-lá, tudo bem? - Clara disse, querendo encerrar a ligação.

- Se cuida, minha filha. Eu te amo.

Aquele "eu te amo" acertou em cheio o peito de Clara. Há muito tempo sua mãe não demonstrava afetos de uma maneira natural ou sincera desde que a doença se instalou. Aliás, naquele instante, Cecília Navarro era outra pessoa. Clara havia se dado conta de que sua mãe era sua mãe apenas quando estava medicada, não havia mais resquícios constantes daquela Cecília carinhosa que fazia tranças no seu cabelo antes da escola, que dançava pela cozinha aos domingos ou que ria alto vendo novelas ruins na televisão antiga da sala. Às vezes, Clara se perguntava se aquela versão da mãe ainda existia de verdade ou se sobrevivia apenas na memória dela.

- Eu também te amo. - Clara respondeu, firme. E desligou o telefone imediatamente.

Voltou a recostar a cabeça novamente no apoio banheira.

- Dramas familiares....

A voz grave era de Nathaniel, encostado no batente da porta e impecável como sempre. O paletó escuro moldava seus ombros largos, enquanto uma das mãos permanecia no bolso da calça social.

- Meu Deus... - ela se assustou, abrindo os olhos. - Você é como o Mestre dos Magos ou o quê? Achei que estivesse na empresa.

Nathaniel soltou uma risada curta, fechando a porta atrás dele com discrição.

- Voltei mais cedo.

Clara afundou um pouco mais na água quente.

- Entrar no banheiro sem bater faz parte dos costumes da alta sociedade italiana?

- Você é minha esposa. - A resposta veio calma, natural. - Além disso, temos um jantar hoje, certo?

Clara sentiu o rosto esquentar mais ainda, mesmo com a água praticamente escaldante.

- Essa desculpa funciona somente porque estou cometendo um crime com você.

- Não é uma desculpa. É um fato.

Ela revirou os olhos, mas um pequeno sorriso escapou sem autorização. Nathaniel parou perto da bancada de mármore, afrouxando discretamente a gravata enquanto observava o vapor subir da banheira.

- Como está se sentindo? - ele perguntou.

- Confortável para quem está vivendo uma fraude milionária.

- Isso é ótimo, significa que em breve você irá se adaptar.

- Isso é uma forma elegante de dizer "ou aprende ou é desmascarada", certo? - ela riu.

- É uma forma realista de dizer que você é mais capaz do que imagina.

Ela piscou, surpresa com a resposta. osilêncio entre os dois se esticou, confortável e estranho ao mesmo tempo. Nathaniel então caminhou até o outro lado do banheiro, onde havia uma porta de vidro fosco separando a área da banheira do box. Clara acompanhou o movimento com os olhos, confusa.

- Espera... você vai-

- Tomar banho. - ele respondeu, abrindo o box com calma, como se fosse algo mais natural do mundo.

- Aqui? - ela perguntou.

- Sim.

Clara se endireitou na banheira.

- Nathaniel!

- Há uma divisória de vidro entre nós, eu não irei invadir sua privacidade.

Clara o encarou, incrédula, enquanto ele já entrava no box como se a discussão estivesse encerrada.

— Isso não é sobre privacidade, é sobre… bom senso!

Nathaniel ajustou a temperatura da água com tranquilidade.

- Bom senso é relativo.

- Não, não é!

O som do chuveiro começou a preencher o ambiente, e a silhueta dele apareceu distorcida pelo vidro fosco. Clara virou o rosto imediatamente, ofendida.

- Isso é surreal.

- Preciso que entenda que você agora é minha esposa.

Ela apertou os lábios, sem resposta imediata. O som da água continuava constante, preenchendo os espaços entre as palavras. Nathaniel falou do outro lado do vidro, mais baixo agora:

- Você mencionou sua mãe antes.

- Sim.

- Ela está melhor?

A pergunta veio simples. Direta. Sem aquele peso de julgamento que normalmente vinha de estranhos.

- Hoje sim.

- “Hoje”?

Ela respirou fundo.

- A doença dela não é… constante. Tem dias bons. Tem dias ruins.

O silêncio dele foi diferente dessa vez. Menos distante.

- Isso deve ser difícil.

Clara soltou uma risada.

— Você não faz ideia.

Do outro lado do vidro, Nathaniel ficou em silêncio por alguns segundos.

- Você fala como se estivesse carregando isso sozinha há muito tempo.

Clara fechou os olhos por um instante.

- Porque eu estou, de fato.

O som da água continuava. E pela primeira vez desde que o chuveiro havia ligado, parecia mais baixo. Nathaniel saiu debaixo do jato por um instante, a silhueta se aproximando do vidro.

- Não precisa continuar sozinha aqui.

Clara abriu os olhos imediatamente.

- Isso é o quê? Vai começar um discurso motivacional de empresário bilionário?

- Não. - ele disse. - É um fato.

Ela soltou o ar devagar, tentando ignorar o aperto estranho no peito.

- Você fala isso como se fosse simples.

- Não é simples - ele repetiu, com a mesma calma de antes. - Mas também não precisa ser impossível.

Clara ficou em silêncio. E, pela primeira vez desde que entrara naquela banheira, não encontrou resposta sarcástica pronta. Do outro lado do vidro, o chuveiro continuava. Mas agora, o silêncio entre eles parecia diferente. Menos casual. Mais perigoso.

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