Fantasma

Clara dormiu facilmente naquela noite devido o cansaço acumulado, mas despertou antes do amanhecer. Não estava confortável em uma casa desconhecida, um quarto que não era seu, já nem se lembrava como chegou ali. Após acordar, foi até a penteadeira e se sentou, encarando o próprio reflexo no enorme espelho a sua frente. Nathaniel tinha razão. Havia um pouco de Helena em Clara. O olhar, o rosto bem desenhado, as maças da bochecha que ele comentara na noite anterior.

- Talvez não seja tão difícil assim... - murmurou.

- Acredite em mim, não será.

A voz veio de Nathaniel, que estava parado na porta. Clara se despertou rapidamente do pouco sono que ainda sentia e olhou para ele através do espelho, irritadiça.

- Você não b**e?

- Helena não se importaria. - ele deu seu sorriso de canto.

- Eu não sou a Helena... - ela desviou o olhar para suas próprias mãos sobre o colo. - Pelo menos, ainda não.

Nathaniel permaneceu encostado no batente da porta, observando-a em silêncio por um instante. A luz azulada do amanhecer atravessava as cortinas pesadas e desenhava sombras suaves em seu rosto, tornando difícil decifrar se estava divertido ou apenas cansado.

- É exatamente por isso que vai funcionar. - disse por fim.

Clara franziu o cenho.

- Não entendo como pode falar disso com tanta tranquilidade. Você quer que eu finja ser alguém que morreu.

- Quero que sobreviva. Há diferença.

Ela se levantou abruptamente da cadeira, fazendo o pequeno banco da penteadeira ranger contra o piso de madeira.

- E quanto tempo até perceberem que não sou ela? Um dia? Uma semana?

Nathaniel caminhou lentamente até o quarto, sem pressa, como se já conhecesse cada reação dela antes mesmo que acontecesse.

- As pessoas enxergam aquilo que desejam enxergar, Clara. Especialmente quando a esperança está envolvida.

Ela soltou uma risada breve, incrédula.

- Isso é cruel.

Talvez. - ele admitiu, sem desviar os olhos. - Mas garanto a você que o mundo lá fora consegue ser pior.

O silêncio caiu entre os dois. Clara voltou a olhar o espelho. Quanto mais encarava o próprio reflexo, mais desconfortável se sentia. Não porque visse Helena ali… mas porque começava a entender por que os outros poderiam

- Arrume-se e desça para tomar café. Estou esperando você para iniciarmos seu treinamento.

Concluiu Nathaniel, desaparecendo antes mesmo que Clara pudesse reagir. A presença dele parecia permanecer ali mesmo depois da sua partida, isso se misturava a presença obscura de Helena no quarto. Clara percebeu que ainda estava vestida com sua roupa. Decidiu ir até o closet de Helena, e escolheu uma roupa simples: uma calça de tecido escuro e uma blusa clara de mangas longas.

Ao ficar diante do espelho, ela se assustou. A roupa servia perfeitamente. Claro que servia, revirou os olhos. Nathaniel sabia perfeitamente antes de levá-la para aquela casa. Prendeu o cabelo rapidamente, tentando ignorar o reflexo que a fazia lembrar outra mulher. Mas ela previsava se lembrar: ela estava ali para isso.

Clara se aproximou da penteadeira novamente, e percebeu uma caixa de madeira marrom e retangular sobre a mesa. Tentou abrir, mas estava trancada. Deu de ombros, esperaria que ele desse a aula da vez sobre o que poderia ser aquilo.

Desceu as escadas devagar, apoiando a mão no corrimão frio de madeira escura. A casa parecia diferente durante o dia. Menos ameaçadora, talvez, mas ainda carregada de um silêncio estranho.

O aroma de café fresco guiou seus passos até a sala de jantar. Nathaniel já estava sentado à mesa, como se a esperasse havia horas. Vestia uma camisa escura com as mangas dobradas até os antebraços e folheava alguns papéis distraidamente. Ao ouvir os passos dela, ergueu os olhos. E interrompeu o movimento.

Clara percebeu o instante exato em que ele deixou de enxergá-la como Clara.

Ela puxou a cadeira sem dizer nada e se sentou.

- Não faça isso. - murmurou enquanto alcançava a xícara de café.

Nathaniel arqueou uma sobrancelha.

- Isso o quê?

- Me olhar como se eu fosse um fantasma.

Ele apoiou os papéis sobre a mesa.

- Você preferiria que eu dissesse que a semelhança não existe?

- Preferiria que lembrasse que ainda sou outra pessoa.

Nathaniel sustentou seu olhar por alguns segundos antes de desviar.

- Certo. - respondeu simplesmente.

Clara pegou um pedaço de pão, tentando ignorar o desconforto crescente entre os dois. O silêncio só era quebrado pelo som distante de chuva começando a cair do lado de fora. Então ela se lembrou da caixa.

- Tem uma coisa no quarto. - comentou casualmente. - Uma caixa de madeira sobre a penteadeira.

Nathaniel ficou imóvel por um instante quase imperceptível.

- Você tentou abrir?

- Estava trancada.

Ele recostou-se na cadeira devagar.

- E mesmo assim tentou.

- Achei que fazia parte do treinamento misterioso. - rebateu Clara. - Ou isso, ou você guarda segredos muito mal.

Um leve sorriso apareceu no canto da boca dele. Um sorriso convencido.

- As duas opções estão corretas.

Clara semicerrou os olhos.

- O que tem dentro?

Nathaniel tamborilou os dedos na mesa antes de responder.

- Coisas que pertenciam à Helena.

- Isso eu imaginei.

- Então imagine também que algumas delas não deveriam cair em mãos erradas.

O tom dele havia mudado, e Clara percebeu imediatamente. Mas decidiu mudar de assunto.

- Vamos... Iniciar o treinamento.

- Helena escrevia muito. - Nathaniel começou a explicar. - Hábitos, compromissos, nomes importantes, lugares favoritos… coisas banais que ajudam a construir uma pessoa.

Ele empurrou discretamente um pequeno caderno de capa dura e escura em direção a Clara. Havia um "H" elegante no meio. Clara sentiu uma sensação estranha. Ali estariam os pensamentos de uma pessoa que, provavelmente, estaria morta naquele momento?

- Você quer que eu memorize a vida dela.

- Quero que consiga responder sem hesitar quando alguém perguntar qual era o vinho favorito de Helena ou o nome do cavalo que ela tinha aos quinze anos.

Clara soltou uma risada curta.

- Isso é absurdo.

- Isso mantém você viva.

— O quê?

- Helena... foi morta por alguém.

Clara piscou lentamente, como se não tivesse certeza de ter ouvido direito. O som da chuva preenchia o silêncio sufocante da sala.

- O quê? - repetiu, mais baixo dessa vez.

Nathaniel sustentou o olhar dela sem hesitar.

- Helena está morta.

A forma calma como ele disse aquilo foi pior do que a frase em si. Clara apertou os dedos ao redor do caderno.

- Você havia me dito que ela estava ausente.

- Para todos os outros, sim.

Ela franziu a testa.

- E como você sabe que ela está morta?

Nathaniel desviou os olhos por um breve instante, observando a chuva além da janela.

- Helena sabia demais. Eu vi quando eles... a mataram.

A resposta fez um arrepio subir pela espinha de Clara.

- Sabia o quê?

Ele permaneceu em silêncio por alguns segundos. Então voltou a encará-la.

- Existem pessoas capazes de destruir qualquer um para proteger certos segredos. Helena descobriu algo que nunca deveria ter descoberto.

Clara tentou rir, mas o som morreu antes de escapar completamente.

- Isso está começando a soar insano.

- Talvez seja - respondeu ele. - Mas continua sendo verdade.

Ela fechou o caderno devagar. Seu instinto dizia para ir embora daquela casa imediatamente. Mas outra parte dela - uma parte inquieta, curiosa - queria entender por que aquele homem parecia carregar o peso de algo muito maior do que luto.

Nathaniel aproximou-se da mesa.

- Você precisa entender uma coisa, Clara. A partir do momento em que alguém perceber o quanto você se parece com Helena, você também estará em perigo.

- Então por que me trouxe para cá?

Então ele respondeu com a mesma calma controlada de sempre:

- Porque deixá-la sozinha seria pior.

Clara bufou, parecia não acreditar naquilo.

- Então, quer dizer que você está me contratando para morrer no lugar dela? Outra vez?

- Isso é temporário, Clara. Helena expressava a vontade dela de se isolar quando assinássemos os pápeis... - o olhar dele parecia distante ao observar a chuva pela grande janela de vidro. - Quando finalmente nos divorciarmos, você estará livre e todos acreditarão que eu e Helena terminamos nosso casamento de forma amigável.

- Isso é tão estranho... Deus... - ela colocou os cotovelos sobre a mesa, cobrindo o rosto com as mãos.

- E isso... - Nathaniel colocou sobre a mesa um envelope amarelo. - É seu salário. Realizarei o pagamento a cada semana, considere isso como um incentivo.

- Tá. - ela disse, um pouco mais solta. - Vamos iniciar logo isso!

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